Cenas de uma web que agoniza

Vi uma chamada da newsletter Platformer que me interessou pelo título (“Cenas de uma web que agoniza”) e a ilustração (prints do detestável Arc Search, que usa inteligência artificial para mastigar páginas da web e cuspir uma nova com informações surrupiadas).

Cliquei e topei com outra cena da morte da web: um paywall.

Em outra publicação independente estadunidense, a 404 Media, o cadastro gratuito tornou-se obrigatório para ler qualquer coisa. É uma espécie de “freewall”, grátis, mas também uma barreira à web aberta.

Esses sintomas são respostas à ganância de empresas que investem em IA para dizimar mais empregos e concentrar mais riqueza e poder. Não surpreende que sejam respostas desmedidas, às vezes desesperadas.

O Google, a última grande torneira de tráfego da internet, tábua de salvação de sites e jornais que dependem de volume para exibir publicidade invasiva (do próprio Google), está fechando o registro para privilegiar a sua IA gerativa, nesta semana rebatizada de Gemini.

À perda de tráfego orgânico, soma-se o assalto dessas empresas ao conteúdo disponível publicamente para torná-lo dispensável, diluído em IAs. A metáfora do mastiga e cospe, que usei no início, por pouco não é literal.

Tudo isso nos coloca contra a parede, ou contra as paredes: a que está atrás de nós, onde somos espremidos pela big tech, e à nossa volta, dos paywalls de outros amassados por empresas trilionárias.

Nunca fui afeito a paywall e, mesmo agora, continuo sendo contra. Nenhuma publicação que assino tem, o que acho positivo, bonito até. Nada do que eu faço ou que me importa depende de informações privilegiadas ou de acesso instantâneo. Quero mais é que a boa informação circule, porque é bom para todos e porque a ruim é epidêmica.

O jornalismo não está em crise, o jornalismo vive em crise. Agora talvez esteja piorando. O Google, que já respondeu por +80% do tráfego recebido por este Manual, por exemplo, em janeiro não chegou a 65%.

Ainda assim, será que subir paywall é a solução?

Mais gente está descobrindo que tráfego não é audiência e fazendo ajustes para se adequar. Por ajustes, entenda passar o chapéu, cobrar assinatura, pedir dinheiro. O que não seria ruim se houvesse a cultura e dinheiro sobrando para tal prática.

Nunca foi tão fácil pagar por qualquer coisa na internet, o que é bom, mas ao mesmo tempo habilita um contingente inédito de pessoas e pequenas empresas que dependem de micro-pagamentos diretos para continuarem fazendo o que fazem. Não só veículos jornalísticos; youtubers, newsletters, blogueiros…

Com paywall ou sem paywall, suspeito que faltarão interessados e dinheiro.

Como escreveu Joan Westenberg, a economia criativa (para usar um termo que engloba muita coisa) não pode confiar apenas no modelo Patreon de sobrevivência, na assinatura direta. O problema é que, no momento, é difícil enxergar alternativas.

O Manual do Usuário confia no apoio financeiro de leitores desde… 2015, acho? Quase sempre as assinaturas são a nossa maior fonte de receita, e gosto que seja assim. Ser pago diretamente por quem acompanha o site é um arranjo que funciona muito bem. Ainda.

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18 comentários

  1. precisamos de um novo google, né? (tanto como mecanismo de pesquisa como modelo de publicidade)

  2. Conheço o Ethical Ads! Parece ótimo. Já tentei colocar o Manual lá dentro, mas só aceitam sites em inglês e (pelo que entendi) bem técnicos.

  3. Sinto falta de um modelo que me permitisse pagar por uma reportagem ou matéria específica dentro de uma publicação. Eu não quero e nem posso assinar O Globo, Folha e Valor porque poucas partes do jornal me interessam (zero interesse em esportes). Poderia ser algo como um Pix. Quer ler essa matéria avulsa? Aponte pro QR code e sera liberado e instantes. Simples.

    Poreeeeem, imagino que o valor do processamento do pagamento de uma reportagem avulsa tornaria isso inviável, ou faria a forma avulsa ficar cara demais.

  4. Triste.
    Poderia ter uns prints dessas telas.
    Eu estou tão acostumado aos bloqueadores de anúncios e a fugir dessas novidade que quase não entro em contato com essa parte da web que está morrendo.

  5. Bom texto Ghedin,
    Eu não consigo enxergar uma solução em médio e longo prazo sendo bem sincero.

  6. O cercamento de Campos da Web entra em outra fase com a IA. Tenso, porque agora ha risco de ecocidio digital quase completo.

    Quanto a alternativas, alguém aqui já mencionou que jornalismo, revistas, e seus equivalentes digitais, de verdade desde sempre se sustentaram em 2 bases: assinaturas e anúncios. Todas as inovações são apenas formas disso, seja patreon ou micro-anuncio invasivo. A unica diferença entre um jornal do seculo 19 e um blog ou página de rede social é o meio tecnológico de produção e distribuição.

    Sendo assim, uma solução teria que usar essas 2 bases. Uma mudanca cultural do pessoal voltar a assinar seria muito bom. Talvez voltarem a usar anúncios estáticos, vinculados a páginas e nao invasivos também ajudaria, um anuncio estilo tradicional mesmo. Por exemplo, um blog de musica que colocasse um anuncio de shows, cursos ou instrumentos musicais numa pagina. Daria para incluir isso mesmo num feed rss, acho que nenhum bloqueador de anuncio funcionaria porque nao haveria diferença de formatação entre isso e as imagens da noticia. E os anúncios seriam negociados diretamente entre anunciantes e publicadores, zerando o pedágio e dependência dos intermediarios Google e Facebook. Nao sei como se poderia fazer para gerar tráfego entretanto. Talvez voltar a fazer anúncios no mundo físico ou nas redes sociais mesmo, e formar público, de novo ao estilo tradicional.

    1. É um bom plano, mas teria que convencer as empresas de que um anúncio menos efetivo (e, portanto, mais caro) é melhor para elas. Eu, de verdade, não consigo pensar em nenhum argumento objetivo.

      Essa é uma diferença crucial entre o jornal do século XIX e o blog de hoje. Em 1800 e bolinha não existiam empresas mediadoras de publicidade super efetiva (pois invasiva) e que tinham locais muito mais populares que os jornais para veicular esses anúncios.

      1. Pois é, se fosse fácil já seria feito né.

        Se o ciclo de merdificação continuar (i.e. o pedágio aumentar, a IA começar a absorver o tráfico, os robôs fingindo que são usuários aumentarem, etc) talvez chegue a um ponto que comece a falar apena para alguns, e comece a se formar um nicho. Porque a extração de valor sem dar retorno chegará aos publicitários e vendedores também.

        Eu acho que um anuncio tradicional vinculado ao conteúdo seria um compromisso factivel com a proposta dessas redes sociais alternativas tipo Mastodon. Talvez seja abrir uma caixa de Pandora que estrague tudo, mas se umas empresas criassem uma (ou várias) instâncias comerciais com uns banners estáticos não invasivos, tipo uns subreddits temáticos, talvez desse certo. Especialmente se mastodon fosse mais popular. com as regras do sistema pondo limites duros pra não reproduzir o ciclo de novo, e dando poder aos consumidores de emigrar se acharem que está com conteúdo ruim.

        Estou especulando, mas ainda acho que teria que ser alguma forma de anuncio e ou assinatura, isso eu tenho certeza.

        1. Eu acho que um anuncio tradicional vinculado ao conteúdo seria um compromisso factivel com a proposta dessas redes sociais alternativas tipo Mastodon.

          Eu também! É esse modelo de publicidade que ofereço às empresas no Manual do Usuário. E, olha… é difícil vender essa proposta.

  7. Acho que independente de qual modelo ou plataforma (mais uma?) pode se mostrar um modelo viável, vai precisar de uma mudança cultural considerável. Grande público não paga por coisas que se acostumou a ter de graça: aplicativo, serviço online e notícias.

  8. Talvez um Spotify de notícias? Poderia pagar pelos produtores e evitaria quebra de direitos autorais(fake news) dando ao usuário a certeza (por meio de curadoria e moderação) de que o autor é original. Claro que a partir daí começariam a surgir os problemas mas seria um canal.

    1. Já tentaram esse modelo lá fora, sem muito sucesso. Se olharmos para a referência (o Spotify), o que vemos é um sistema que privilegia quem já é grande, o que seria desastroso para publicações pequenas/independentes. Talvez valha o teste, porém. Numa dessas, alguém acerta os detalhes para faturar o suficiente e fazer repasses de forma democrática.

      1. Foi isso que pensei, ter um modelo (como opção do meio) que estimule surgimento de novos modelos.

        O Spotify é o player dominante, os concorrentes existem e miram nele, e sim, esses privilégios são oriundos do modelo de negócio deles. Hoje consumo música somente pelo Echo/Alexa, e desconheço outras plataformas que apoiam artistas menores independentes, mas se houver demanda há oportunidade neh :).

        Quando comecei desenvolver Apps nós criamos uma plataforma com essa finalidade, mas fomos esmagados pela inexperiência e custos com servidores rsrs… vou deixar o link de um review do Baixaki na época como curiosidade (o que restou do conteudo que já foi removido mas tem um resquício) terceiro app descendo AirGig:

        https://www.tecmundo.com.br/android/96138-melhores-apps-android-05-02-16-video.htm

        Chegamos a tentar parceria com a SoundCloud na época para servidores, mas a conversa desandou.

    2. O modelo do Spotify é parte do que o Yanis Varoufakis chama de techno-feudalismo, um modelo que está se tornando norma em tudo de grandioso hoje em dia, como Amazon, YouTube, Uber, Meta, Tinder, etc. Segundo ele, não é que essas companhias detenham monopólio sobre um determinado mercado; elas detêm a plataforma onde os negócios ocorrem. Por conta disso, elas ditam todas as regras e manipulam o mercado exatamente do jeito que querem. É algo escandaloso. Sem contar que usam os dados e esforço dos usuários para espremer ainda mais lucro, criando uma manipulação de informação jamais vista na História.

      Pra manter o exemplo do Spotify que você mencionou, vejamos como era antes da internet: os músicos detiam um percentual pequeno com venda de música, ganhando mais com shows e merchan. As gravadoras, essas sim, ficavam com a maior fatia do bolo. Com a chegada do The Pirate Bay e Napster, os músicos não ganhavam nada, nem as gravadoras. E aí as gravadoras fizeram um auê do caramba, pagaram de vítimas e usaram todo poder de fogo que tinham para afundar a pirataria, até que chegou o Spotify e propôs uma revolução (…): as gravadoras basicamente dividem a grana com o Spotify (70-30), enquanto os músicos ganham uma merreca ainda menor da parte que vai pras gravadoras. Para se ter uma perspectiva, uma banda que tenha 1 milhão de plays, fica com cerca de 4000 usd, o que, dividindo por todos os envolvidos, não paga nem as contas no final do mês.

      O capitalismo talvez só não fique assombrosamente pior porque está se autodestruindo. A questão do jornalismo abordada no post do Ghedin é um excelente exemplo. Mas temos outros, como a automação, que pra mim, junto com a questão climática e os impactos da tecnologia onipresente, são as 3 maiores ameaças globais que enfrentamos neste momento.

      1. Você levantou pontos bem interessantes para discussão, eu acho que para colocar meu ponto de vista em detalhes ficaria extenso, seria assunto para um podcast :)

        Tentando ser breve, a tecnologia não tem culpa é uma consequência da evolução, uma ferramenta que pode proporcionar conforto e salvar vidas, bem como o contrário, isso porque depende de quem e como a utiliza. Quanto a questão climática, sem dúvidas é uma preocupação, mas a tecnologia está gerando dados para que possamos entender melhor esses estrago inclusive por fazer parte do problema dado à sua má utilização. O capitalismo é um sistema que sempre existiu, mesmo na era de trocas sempre foi necessário determinar um valor sobre um material ou serviço, de forma que se tornasse justo para o que produz bem maior ser recompensado independente de interpretação abstrata e sim lógica e mensurável. O problema eu vejo está no mal uso e aplicação dos meios.

        1. > a tecnologia não tem culpa
          > O problema eu vejo está no mal uso e aplicação dos meios.

          Olha, Leo, não é bem assim. A tecnologia não é neutra; nunca foi. Pelo contrário, ela é moldada pelos interesses de quem a desenvolve, e hoje ela é dominada por corporações com poder gigantesco, nunca ante$ vi$to.

          Não existe nada de neutro em como funciona a Amazon, Instagram ou YouTube. Não é que os algoritmos por trás dessas plataformas sejam neutros porém usados de maneira maléfica. Não. Os algoritmos já são desenvolvidos com o intuito de fazerem essa escrotidão toda mesmo.

          O Tristan Harris é um dos grandes pensadores sobre tecnologia da nossa época, e ele já nos alertou sobre isso. Por exemplo, a forma como recebemos notificações, sugestões e como as nossas timelines se comportam não é algo arbitrário, mas sim o resultado do trabalho especializado de psicólogos, neurologistas, programadores e profissionais de marketing que trabalham exclusivamente para essas corporações, com o intuito de gerar crescimento indefinido de lucro, todo ano.

          > O capitalismo é um sistema que sempre existiu

          Mas o feudalismo, que veio antes, não é capitalismo, que por sua vez não é o techno-feudalismo que temos hoje. Podem existir interceções, claro, mas não tem como dizer que são a mesma coisa.

          1. Tem razão, eu coloquei o capitalismo por cima de sua resposta e avaliei o sistema errado. Errei mesmo ao confundir e preparar a resposta sobre o outro sistema.
            Sobre a tecnologia, eu me refiro a ela como um todo, não apenas web e aplicativos. A tecnologia pode ser um interruptor de tomada como uma roda de bicicleta, mesmo a evolução no campo da automação que foi exponencial ainda permite que empresas que não são BIG a utilizem de diversas formas e com finalidades, quantas pessoas hoje sobrevivem por causa de tratamentos que graças a ela são possíveis, ou se comunicam, vijam para outros continentes. Podemos dizer que sim, o feudalismo-digital pode ser comparado quando falamos de software de BIGTechs.