O menino genial

Bill Gates, senhor de cabelos brancos, óculos de grau, sorrindo, segura a edição em inglês da sua autobiografia.

Bill Gates, co-fundador da Microsoft, filantropo e uma das pessoas mais ricas do mundo, lançou uma autobiografia. É mais um passo em sua longeva campanha para distanciar-se da imagem de empresário implacável dos anos 1990, aquele que era tido como símbolo do capitalismo e, por isso, digno de levar tortas na cara.

Código-fonte: Como tudo começou é o primeiro de uma trilogia que Gates promete lançar nos próximos anos. Aborda sua infância em Seattle, passando pelo período escolar e na universidade, até os primeiros anos da Microsoft em Albuquerque, no Novo México, antes do Windows, quando a empresa vivia de vender versões de um interpretador da linguagem Basic para o punhado de arquiteturas de computação que pipocava na época.

A história de Bill Gates, pelo menos como ela é contada pelo próprio neste livro, daria uma série de TV gostosinha, do tipo “coming of age” ambientada num subúrbio estadunidense qualquer classe média nos anos 1980. Tipo um Stranger Things, mas sem a parte sobrenatural…? Ou, numa comparação menos popular, mas mais precisa (até no nome), um Freaks and Geeks mais carregado no “geeks”.

Não se engane, isso é um elogio à narrativa. É um livro bem legal!

Gates apresenta seu eu adolescente como alguém rebelde, competitivo (influência da avó) e movido pela curiosidade. Há algumas partes um tanto forçadas na construção da aura de rebeldia. Nada muito grave, perdoável em se tratando de uma autobiografia.

Aquela sensação de série dos anos 1980 (embora a história comece bem antes; Gates é de 1955) é reforçada pelos laços de amizade, incluindo personagens conhecidos como o co-fundador da Microsoft, Paul Allen, outros menos conhecidos, mas marcantes, como Kent Evans, e muitas atividades que hoje nos parecem muito distantes, quase nostálgicas neste mundo insensível mediado por telas que habitamos. (E que, ironicamente, Gates ajudou a construir.) Quase como se fossem teasers dos próximos livros, há menções aqui e ali de dois Steves, Wozniack e Jobs, o segundo o futuro grande antagonista de Gates.

É meio evidente que se trata de um ser humano atípico. Já quase no final do livro, ele escreve que “se eu estivesse crescendo nos dias de hoje, provavelmente seria diagnosticado como alguém no espectro autista”. Sua facilidade com a matemática, em processar o mundo a seu redor por lentes numéricas, em código, foram providenciais para seu brilhantismo na nascente indústria do software.

O que me pegou de surpresa, embora seja algo mais evidente, foi o reconhecimento explícito dos privilégios e da sorte de que desfrutou e que foram, também, decisivos para sua trajetória profissional fora da curva.

Muitas vezes as histórias de sucessos reduzem os seus protagonistas a personagens estereotipados: o garoto precoce, o engenheiro genial, o designer iconoclasta, o magnata paradoxal. No meu caso, o que me chama a atenção é o conjunto de circunstâncias únicas — em grande parte fora do meu controle — que moldaram tanto o meu caráter como a minha trajetória. É impossível exagerar o privilégio imerecido de que desfrutei: ter nascido num país próspero como os Estados Unidos é parte importante de um bilhete de loteria premiado, assim como ter nascido branco e homem numa sociedade que privilegia os homens brancos.

Some-se a isso as coincidências temporais que me favoreceram. Eu era um menino rebelde na Acorn Academy quando os engenheiros encontraram uma maneira de implantar minúsculos circuitos elétricos num tablete de silício, dando origem ao chip semicondutor. Eu estava guardando livros nas estantes da biblioteca da sr.ª Caffiere quando outro engenheiro previu que esses circuitos ficariam cada vez menores, num ritmo exponencial ao longo de anos no futuro.

[…]

É claro que a curiosidade não pode ser satisfeita no vácuo. Ela requer cuidados, recursos, orientação, apoio. Quando o dr. Cressey disse que eu era um garoto de sorte, não tenho dúvida de que estava pensando sobretudo na boa sorte que tive de ser filho de Bill e Mary Gates — pais que lutavam com seu filho complicado, mas que no final pareciam saber intuitivamente como orientá-lo.

Curiosidade aleatória não relacionada ao livro: Gates conseguia saltar uma cadeira de escritório. Eu sempre dou risada desse vídeo.

No Brasil, Código-fonte saiu pela Companhia das Letras, que gentilmente me enviou a cópia que li.

Foto do topo: GatesNotes/Reprodução.

A newsletter do Manual. Gratuita. Cancele quando quiser:

Quais edições extras deseja receber?


Siga no Bluesky, Mastodon e Telegram. Inscreva-se nas notificações push e no Feed RSS.

9 comentários

  1. Impressionou a atitude positiva dos pais de Gates, sempre estimulando os filhos a prosperar na educação, nos esportes, na vida social. As viagens em família, a atenção com a vida escolar deles e a criação de um ambiente familiar com regras rígidas e, ao mesmo tempo, leve e saudável são admiráveis.

  2. Bezos, Zuckerberg e o Mosca conseguiram transformar o Bill Gates em um ricaço simpático.

    É dose.

    1. É inacreditável como a gente acaba normalizando as coisas por ter coisas que tendem a ser muito piores.

  3. Muitas ressalvas ao bilionário Bill Gates, mas ele parece ser o menos pior de todos. Pelo menos ele faz caridade (ainda que seja questionável aquela fundação dele) e aceita e deixa claro como ele era um privilegiado desde o berço (não vende-se como um visionário como o Jobs ou como um gênio como o Musk).

    Seria o último na minha revolução :)

  4. A cara do desgraçado nem arde de tanto mal que causou.

  5. Desculpe te dar mais trabalho, mas achei que você tem um grande potencial em fazer resenhas literárias para o MdU.