Domando apps do tipo “para ler depois”

Quando os celulares modernos se popularizaram, surgiu uma categoria de aplicativos para conciliar o desconforto da tela pequena e a natureza móvel do dispositivo, que nos deixa em contato permanente com conteúdos interessantes.

Apps do tipo “para ler depois”, como Instapaper e Pocket, são repositórios privados de textos que catamos por aí e que, por qualquer motivo, não queremos ou não podemos ler no momento.

Eu sempre tive um desses instalado em meu celular, desde o primeiro capaz de lidar com tais apps. E, daquela época até hoje, jamais havia conseguido segurar o contador de leituras pendentes.

Alguém consegue? O roteiro, comigo, é sempre o mesmo: baixo um app novo ou retorno a um antigo, começo a adicionar links/textos num ritmo maior que o de leituras e, quando me dou conta, estou com três dígitos de textos para ler. Nesse momento, “declaro falência” e recomeço o ciclo.

Numa dessas, descobri o Quiche Reader (iOS, macOS e extensões para Chrome e Firefox; gratuito), do francês Greg de J, um app “para leitores sobrecarregados”. Já gostei antes de baixar. A sucinta descrição dele na App Store diz o seguinte:

O Quiche Reader só te mostra o primeiro artigo na sua fila [de leituras pendentes]. Você deve lê-lo, arquivá-lo ou excluí-lo, e aí pode ler o próximo. Dá para trapacear um pouquinho e adiar uma leitura, mandando-a para o fim da fila, mas apenas três vezes por texto.

Além disso,

O Quiche Reader te encoraja a deixar para lá textos salvos há mais de 30 dias e aqueles que você fica adiando a leitura.

E

O texto salvo há mais tempo é o primeiro a ser mostrado para que ele não fique esquecido no final da fila.

As restrições do Quiche Reader aliviam o peso de carregar centenas de textos que “um dia eu lerei”. (Nunca lerei.) O uso do Quiche Reader é bem diferente do de apps tradicionais, como os já mencionados Instapaper e Pocket. Se Greg fosse um startupeiro raiz, ele diria que o Quiche Reader promove uma mudança de ~mindset.

Usei o app por uma semana (explico no final) e depois voltei a uma solução tradicional, sem esquecer das lições aprendidas ali. Lições que resumo em uma palavra: desprendimento.

Textos que salvei há dois anos e que me iludia achando que um dia seriam lidos? Não mais. Textos que naquele momento pareciam imperdíveis, mas que pereceram mais rápido que abacate maduro em dia de calor? Idem.

***

Sigo salvando textos adoidado, sem muita preocupação. Quando o dia permite, gasto pouco mais de uma hora no fim do expediente lendo as coisas interessantes que salvei mais cedo. No fim de semana consigo dedicar mais tempo a essas leituras.

Desde a descoberta do Quiche Reader, domingos se tornaram pequenos réveillons para mim: qualquer texto que tenha sobrado na minha lista de leituras é excluído sem cerimônia. Começo a segunda com a fila de textos para ler zerada.

A renovação semanal tem alcançado meu agregador de feeds também. O prazo que me dei para a leitura, de uma semana, age como uma leve pressão para que eu dê conta daquelas que, embora não me atraiam tanto, acredito serem importantes — e que, quase sempre, revelam-se mais interessantes do que eu supunha.

Ler o que outras pessoas publicam na internet tem relação direta com o meu trabalho, sim, mas é mais que isso. É das melhores maneiras que conheço de ter contato com outras realidades, diferentes visões de mundo, com descobertas felizes. Daí a importância que atribuo à manutenção da minha lista de leituras. Compartilho esta dica contigo na esperança de que ela lhe seja útil também.

***

E o Quiche Reader? Não uso aplicativos do tipo para gerenciar o que já li. Esses eu mando ao Linkding, listas de tarefas, compartilho no Órbita/compartilho com outras pessoas ou apenas excluo.

Em outras palavras, poderia usar o Quiche Reader — não fossem alguns detalhes.

O problema é que ele ainda está meio cru. (Um quiche, que adoro, meio cru é complicado.) Falta-lhe suporte ao modo leitura do “web viewer” (navegador web interno) e às extensões de bloqueio de anúncios. E como ele só abre a versão web dos textos, acabo tendo uma experiência ruim com alguns de sites com leiaute ruim. (É possível desativar o JavaScript, o que resolve alguns casos, mas não todos.)

Troquei e-mails com o Greg, desenvolvedor do Quiche Reader. Ele disse estar focado em seu outro app, o Quiche Browser. Ele garantiu que não abandonou o Quiche Reader, mas que não pode dar prazos para atualizações no momento. Aguardemos.

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28 comentários

  1. Não uso nenhum app do tipo. Já tentei Instapaper, Pocket e alguns outros, mas sempre caía no mesmo problema de ficar com dezenas de textos pendentes, a maioria dos quais jamais seriam lidos, e de tempos em tempos resetava pra recomeçar do zero.
    Hoje tenho para mim que essa necessidade de ler montes de textos era uma espécie de FOMO. Atualmente penso 2 ou 3x antes de clicar em algum link para ler. Penso se aquilo vai realmente me agregar algo, se vai ser útil/agradável me informar sobre aquilo, e até mesmo se disponho de tempo suficiente para ler. Quando passa por todos esses filtros, tento ler na hora, senão salvo nos favoritos do navegador mesmo, pra ler assim que tiver um tempinho. E se passar uma semana que não leio, apago sem cerimônia. Tem sido uma forma bem saudável de eu lidar com a informação de modo geral, sem me sobrecarregar.

  2. Não chego a 3 dígitos, mas às vezes ficam uns 30 ou 40 textos no Pocket.

    Às vezes eu abro o Pocket apenas para excluir aqueles que estou menos interessado em ler.

    Procuro zerar a lista ssmpre que possível.

    Esse próprio texto seu eu li num esforço de desbastar a lista 🤭

  3. Migrei do Pocket para o Omnivore e continuo sofrendo do mesmo problema: salvar para ler mais tarde, mas ñ leio.

    Estamos em uma era de consumo de muita coisa ao mesmo tempo, chega cansar. Eu achava que mudando de serviço ia ser menos “consumista” de informações, mas ñ, continuo salvando, adicionando os labels e ñ vendo nada no final. :/

    1. qual a sua experiência? uso o Pocket muito por conseguir ler no Kindle depois (p2k). existe a mesma função no Omnivore? como compara os dois serviços?

      1. Meu uso é muito parecido como usava o Pocket. Para mim, o que o Omnivore se destaca é fluidez do app (smartphone e web), sem contar que é um projeto aberto.

        Nunca usei a integração do Pocket com o Kindle e no Omnivore nunca procurei saber se existe. Vi que alguém postou aqui um pedido feito no Github do projeto.

  4. Sou da época do finado de.li.cio.us e nunca consegui ser um leitor ávido a ponto de precisar. Costumo guardar abas no navegador, às vezes perco algo, mas normalmente não é algo que preciso ler hehe.

  5. O Readwise Reader é espetacular, você pode personalizar da maneira que quiser, até fazer algo similar ao fluxo do Quiche Reader. É bastante rico em recursos, inclusive RSS, voz sobre texto, resumos diários e muito mais. Aderi desde o alfa e não me arrependo. É completo para leitura, não só de artigos, mas qualquer conteúdo como pdfs, epubs, transcrição de vídeos do youtube e outros, com integração e exportação de anotações de alto nível, backup decente. Sim, é caro.

    Uma coisa para considerar é separar leitura atemporais de links com informações temporais, como notícias ou reviews de tecnologia, como lançamentos de apps. Para o segundo uso o Raindrop e muitas vezes acabo apagando porque muita coisa, se não lida a tempo, fica datada. No Readwise (ou mesmo em outros apps de leitura posterior) ficam textos e conteúdos que posso ler em qualquer momento, que ainda serão relevantes.

    1. Readwise Reader não é tão caro assim. Caro é o pro do Instapaper.

      1. US$ 9,99/mês, pago anualmente numa tacada só, é meio carinho, não? O Readwise até tem um plano de preço similar ao do Instapaper (~US$ 6/mês), mas tem menos recursos.

        1. É verdade. Fiz confusão. Readwise Reader é mais caro. Eu tava olhando o preço do Raindrop comparado com o Intapaper.

  6. Eu usava o Pocket para isso, mas faz muitos anos (uns seis, pelo menos) que não uso o app.

    Hoje eu uso o Notion para salvar links para ler depois, mas, sendo sincero, nem me lembro a última vez que salvei um link lá.

    Quando encontro um texto que parece interessante, ou eu leio logo ou deixo aberto no navegador até lê-lo.

    Pra mim não faz sentido tentar zerar a fila de leitura. É igual a busca pelo inbox zero.

  7. Também vivo esse dilema. No app para Android, o Pocket possui uma função bem legal de texto para fala, que “transforma” os artigos em podcasts numa playlist. Recurso útil para quem costuma fazer caminhadas.

    Substituí o Pocket pelo Omnivore que é FOSS e possui plugin para Obsidian. Para quem possui uma “base de conhecimento”, é interessante tal integração, pois na pesquisa interna você pode “esbarrar” com textos que você ainda nem leu (mas já deixou separados), poupando de uma pesquisa redundante na internet.

    Para quem gosta de “trabalhar o texto” após leitura, fazendo aquela “Progressive Summarization” do Tiago Forte, por exemplo, esse “combo” é uma boa pedida.

      1. Não. Mas há uma “issue” aberta no Github deles com esta sugestão, caso queira acompanhar: Send to Kindle · Issue #2142 · omnivore-app/omnivore.

        PS: Fiquei curioso e fiz um teste aqui. Você pode contornar da seguinte forma: no app do Omnivore, dentro do artigo salvo, você pode ir nos 3 pontos e em “Share Original”; depois, escolher o app do Kindle (que deve estar instalado).

  8. Fui checar a contagem de artigos que tenho salvo no Raindrop e no momento, são 14.238 (salvos desde 2018). Eu tenho plena consciência de que vou morrer antes de ler 10% disso, mas uso mais como um filtro de artigos que me interessaram em algum momento. Se eu quiser explorar algum tópico, vou primeiro na minha própria lista antes de vagar pela internet.

    Eu usava o Pocket desde 2018, mas ultimamente ele estava bugado demais. Migrei tudo pro Raindrop e não me arrependo de nada. A busca é boa, a contagem funciona, dá pra organizar do seu jeito…

    1. Eu uso o Raindrop como um substituto para o del.cio.us, ou seja, links que algum dia vou olhar. Inclusive, integrei com o Youtube via o IFTT, todos os vídeos que dou like cai la também. Já me salvou muito em achar algo por lá.

  9. Uso o Pocket e importo pra meu Kindle. Lá tem centenas de compilados semanais que algum dia eu vá ler – ou não. Não me importo muito. Uso o Inoreader para RSS e salvo os artigos que quero ler depois no Pocket, mas, se for algo que queira ler logo, simplesmente salvo o Favorito em uma pasta específica de leitura.

    O que tem me irritado no Pocket é não capturar certas páginas corretamente, por vezes de sites inteiros, ainda que extensões como Reader View consigam visualizar o texto.

    1. Eu também não me estreado com o tempo que vou levar pra ler. Mando tudo pro Pocket e de lá pro Kindle. Aliás, deveria ser um recurso nativo do Pocket, isso de enviar pro Kindle.

      1. Pois, é! Reparei num vídeo do Izzy Nobre que o Kobo (pelo menos o novo modelo) traz uma opção dessa, tem lá o logotipo do Pocket e o “My Articles”. É uma das coisas que mais gostaria de ter num e-reader, agilizaria muito.

        1. Meu primeiro ereader foi um Kobo Glo, adquirido quando o Kindle nem era vendido no Brasil. Já tinha essa função do Pocket, mas eu nem usava muito.

          1. Obrigado pela informação. Impressionante como a Amazon está “atrás” no que se refere a recursos.

  10. isso é uma luta, mesmo. tenho tentado manter o costume de a cada mês zerar tudo que eu tenho salvo “pra depois” – os textos, que tenho salvo no omnivore, o “assistir mais tarde” do youtube, os podcasts e discos baixados (gosto de deixar salvo offline as novidades que quero conhecer). mesmo assim, às vezes passo meses com dó de perder o que tá salvo.