Apple finalmente abraça o mau gosto

Craig Federighi em frente a um painel branco com a frase “AI for the rest of us” e uma interrogação desenhada/adicionada.

As expectativas monstruosas para a entrada da Apple na rinha de IA se realizaram na segunda (10), quando a empresa anunciou não a “artificial intelligence”, mas sim a “Apple Intelligence” na abertura da WWDC.

Ambas são “AI”, como dizem os gringos, mas na Apple a “AI” é diferente, o “A” é de “Apple”, ainda que no fundo seja tudo igual, mais do mesmo.

Há diferenças de bastidores, porém. Nos dispositivos da Apple, a “AI” funciona em três níveis: 1) no próprio aparelho, usando um modelo de linguagem menor; 2) na nuvem privada da própria Apple; e 3) nos servidores da OpenAI, no ChatGPT turbinado pelo GPT-4o.

A presença do ChatGPT no “Apple Intelligence” foi quase uma nota de rodapé, ou uma obrigação para agradar investidores e confundir meros mortais, a quem “IA” virou sinônimo de ChatGPT.

É uma distinção sutil e importante. Nos dispositivos da Apple, o chatbot da OpenAI só será invocado em demandas complexas demais para a nova Siri (a tal “AI”), precisará de uma liberação expressa do usuário ao ser invocado e terá seu lero-lero sempre acompanhado de um alerta dizendo que as informações regurgitadas ali não são confiáveis.

A parte mais engraçada é que, diz a Bloomberg, a Apple convenceu a OpenAI a colocar o ChatGPT no iOS e macOS de graça, sem receber um centavo.

Sam Altman engambelado pela Apple para oferecer seu trabalho em troca de “exposição” é uma pequena vingança de todos os artistas de quem ele se apropriou do trabalho (também sem pagar e, pior, sem dar crédito), cansados de ouvir esse tipo de proposta o tempo todo.

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Chamou a minha atenção a Apple dizer que sua IA, digo, a “Apple Intelligence” é a “IA para o resto de nós”.

Quem são “nós”, amigos? Pergunto porque a “AI” da Apple só funciona em computadores e iPads lançados depois de 2020 (com chips da própria Apple) e no iPhone 15 Pro (US$ 1 mil para cima), e a princípio apenas para falantes do inglês estadunidense.

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A “Apple Intelligence” pode ser diferente nos bastidores, mas na prática faz o que outras IAs já fazem — (re)escrevem e corrigem textos e criam imagens bregas.

Aqui a coisa fica interessante. Talvez a única opinião unânime pós-WWDC é de que a Apple, enfim, abraçou o mau gosto.

As imagens geradas pela “AI” são limitadas a três estilos, nenhum deles fotorrealista, uma tentativa de mitigar usos não aprovados, como a foto do Papa vestindo um casacão da Balenciaga e, sei lá, Jesus feito de camarões ou garrafas PET que infestam páginas zumbis no Facebook.

Esse cuidado não se estende à qualidade estética dos resultados, por mais subjetivo que isso seja.

Todos os exemplos mostrados de imagens geradas pela “AI” na abertura da WWDC eram feios. Horríveis. Eu tentei encontrar outra forma de descrevê-las. Falhei. São imagens feias, bregas.

Em dado momento, alguém mostrou um esboço de um coreto que, com um rabisco do Apple Pencil, virou uma ilustração brega.

Antes e depois do esboço de um coreto “embelezado” pela IA da Apple.
Imagens: Apple/Reprodução.

Em outro, sugeriram enviar ilustrações geradas por IA das pessoas com quem conversamos pelo iMessage. O que esta pobre mãe fez para merecer uma “homenagem” tão medonha do próprio filho?

Conversa do iMessage, em inglês, com uma caricatura feita pela IA da Apple a partir da foto do contato.
A expressão da senhorinha no desenho feio é a mesma que eu fiz durante toda essa parte da apresentação da Apple. Imagem: Apple/Divulgação.

A apresentação não se limitou a inteligência artificial, digo, “Apple Intelligence”. Antes, executivos e engenheiros da Apple fizeram o ritual de mostrar recursos das vindouras novas versões dos sistemas da casa. Foi um prenúncio do compromisso da Apple com a breguice.

O iOS 18 estende a personalização das telas de ícones. Será possível “montar” a grade livremente (o que é legal e tardio) e, a exemplo do Android, alterar as cores de todos os ícones para uma de destaque.

Print da tela inicial do iOS 18 com os ícones todos na mesma cor (um azul piscina), no modo escuro.
Imagem: Apple/Divulgação.

Sinal dos tempos, a implementação da Apple para esse recurso é (muito, mas muito mesmo) mais feia que a do Google no Android.

Alguém brincou no podcast pré-WWDC do The Verge que gostaria que a “AI” da Apple fosse capaz de tornar o iPhone brega.

Cuidado com o que desejas.

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27 comentários

  1. Pensando no mercado americano eles já dominam o seguimento adolescente, Parece que com isso agora estão mirando público idoso com AI brega e adulto que usa android com essas personalizações

  2. Partindo de uma pessoa minimamente preocupado a com privacidade, eu não quero usar algo com IA.
    Tá tudo meio Black Mirror com Cyberpunk 2077.

  3. Quem são “nós”, amigos?

    Estadunidenses de classe média, estudantes e jornalistas de tecnologia (que morem nos EUA). Não é novidade, Apple e Google só lança produtos pro mercado estadunidense desde os seus primórdios. Às vezes eles cruzam o oceano e lançam para a Ingleterra (que eles chama de Reino Unido, mas normalmente só tem disponibilidade mesmo na Inglaterra e na Irlanda, por algum motivo que me foge).

    O resto do mundo não é “nós” pro estadunidense.

    1. Acho a Apple uma empresa mais globalizada do que seu comentário sugere, Paulo, embora ela atinja gente com grana em mercados periféricos — é o caso do Brasil. A China é outro furo nessa tese. Embora esteja perdendo terreno para marcas locais, a Apple vende bastante lá.

      Se o foco fosse só EUA/Reino Unido, não haveria escritórios locais nem cuidado com localização de produtos. Nesse sentido, por exemplo, a Apple talvez seja mais globalizada que as frentes de produtos domésticos de Microsoft (nunca lançou Surface aqui) e Google (nada de Pixel para nós).

      1. A imagem do IPhone personalizado, parece que alguem colocou uma Custom ROM Android…as vezes eu fico mais curioso com Lightphone 3 do que novo IOS, estranho.

        1. Cara, você mencionou e eu pesquisei… E agora quero um desse. Nem precisa ser “light”, se colocar um android normal, “puro”, “AOSP” (um android sem firula) já é perfeito.
          Mesmo a bateria de 1800mah é aceitável, considerando o tamanho dele.

          1. Somos 2, o impeditivo é o alto valor talvez, estou usando um Launcher ( OLauncher da Digital Minimalism) similar e deixando minha LineageOS em preto e branco(bom que tem um atalho assim como WiFi e bluetooth) e não é que estou usando menos.
            Incrível como a Apple esta perdendo aquela beleza minimalista, parece a Lacoste no Brasil que esta completamente deturpada pelo funk ostentação (se é que me entende)

            Esperando o Ghedin fazer uma matéria cheia de fotos fo Lightphone III pois esse é um tipo de gadget muito bonito no simples, IPhone está perdendo isso parece um Fortnite fone

          2. @Nildo

            só um detalhe: a apple NUNCA foi “minimalista”* em interfaces de software

            na época do esqueumorfismo ela tinha interfaces bastante repletas de ornamento — a questão é que mesmo assim ela conseguia ser menos brega que windows e de mais concorrentes

            esse nível de limpeza e síntese formal que normalmente se associa à empresa me parece que ela desenvolveu apenas no desenho da carcaça de seus aparelhos (e nas interfaces físicas), mas nunca (ou raramente) nas interfaces de software

            *acho equivocado o uso dessa palavra nesse sentido, mas isso é conversa pra outro momento

      2. Até pode ser mais “global” do Google e MS. Até porque menos global do que o Google não tem como ser mesmo. Mas todas essas marcas só lançam produtos nos EUA e só se importam com a realidade dos EUA. E isso vale também para os jornalistas/youtubers de tecnologia de fora (a opinião e as previsões deles são com base no uso/desuso que é feitos nos EUA). Podemos até ter uma argumentação de que eles assim o fazem porque é o mercado/local deles, o que é correto (dentro de um perspectiva) mas não é o trabalho que eu imagino de um jornalista.

        Um adendo: a localização da Apple é feita em Portugal (e Irlanda) para todas as línguas de uma vez. Localizar software é uma coisa que é vendida em pacotes. E normalmente a Apple contrata uma agência na Europa que terceiriza pra uma agência da Argentina ou Uruguai que faz a localização pra Brasil/LATAM. Isso não chega a ser um mérito em si, quase todas as empresas fazem isso, e o trabalho da Apple é bem ruim, ainda se compararmos com empresas de games como a Blizzard e a CD Projekt.

        1. tem algumas escolhas de localização/tradução da apple que acho particularmente interessantes e já estão consolidadas acho que pelo menos desde os anos 90/2000

          por exemplo: o sistema se refere à “Mesa” e não ao “Desktop” (o que acho muito mais elegante)

          por outro lado, tudo que tem “marca registrada” é infelizmente mantido em inglês (“true tone”, “night shift”, etc)

          fico imaginando como se dão essas decisões

          (digo “infelizmente” não por qualquer purismo linguístico nem nada do tipo, só acho mesmo mais elegante traduzir termos como esses)

          1. Essas decisões são relacionadas ao fato dela fazer a localização em Portugal e por lá ter uma lei especifica sobre palavras estrangeiras. A Apple não tem um guia de estilos/redação pro Português (ela tem pro EN dos EUA apenas) então fica a cargo da agência ou do tradutor decidir como esses termos são localizados.

            Como eu disse, a Apple usava a Synthesis (não é mais esse nome a agência) que é na Irlanda e tem uma equipe em Portugal. Essa agência terceirizaza pra outra agência na Argentina que buscava tradutores (quarteirizava) no Brasil pra fazer a localização PT-BR. E aí sim, se tem uma base terminológica a ser usada, determinada pela agência europeia com base na legislação de lá; claro que alguns termos eram localizados de acordo com o PT-BR, como ecrã/tela, equipa/equipe etc.

            Resumo, a Apple não tem muito controle (interesse) sobre essas localizações (mas nenhuma empresa tem; tirando as três mais famosas em termos de localização: CDPR, Nintendo e a Blizzard).

          2. A título de curiosidade, aqui está o guia de estilos da Apple pra escrita inclusive (EN): https://support.apple.com/pt-br/guide/applestyleguide/apd91d6c2458/web

            Não tem esse tipo de guia para outros idiomas. Algumas diretrizes são (e devem ser) aplicáveis para outros idiomas, mas não tem uma equipe de revisão/localização dentro da Apple que faça esse trabalho. Provavelmente quem revisa as localizações é a própria agência principal (a contratada direto pela Apple) com base em contratos anteriores.

      3. Eu tendo a concordar que grande parte das atualizações são focadas no mercado norte americano. A impressão é que a maior parte das coisas são pensadas neste mercado principal.

        Claro que existem características universais que funcionam bem em todo lugar, mas olhando para aquele slide com o resumo das atualizações, tem muita coisa que não temos disponibilidade aqui ou são irrelevantes:
        – Novidades para rotas de hiking no maps
        – Mensagens via satélite
        – Recompensas na carteira
        – RCS (apesar de importante, é irrelevante para o Brasil e boa parte do mundo)

        Slide: https://photos5.appleinsider.com/gallery/60028-123158-WWDC-2024—-June-10-_-Apple-32-43-screenshot-xl.jpg

        1. Ah, de certo que os EUA são prioridade para a Apple (e outras empresas estadunidenses, como Google e Microsoft). Não só por serem seu quintal, mas também (principalmente?) por serem o mercado mais lucrativo em que essas empresas atuam.

  4. E, claro, não podemos esquecer também da função mais inovadora que foi apresentada no iPadOS:

    Um app nativo de CALCULADORA.

    Uau!

    1. Nossa Shame total, como pode depois de tantos anos apresentar uma calculadora com o algo inovador em um SO, que também não é tão novo assim.

  5. Essa imagem dos ícones monocromáticos da Apple é tão Winamp! 🙃

    1. Em breve no Apple Music efeitos psicodélicos ao dar player no aplicativo como existia no WMP 😂

  6. A Apple vem trabalhando fortemente no objetivo de abraçar a breguice e o piégas.
    Não sei veja a Apple hoje em dia é a IBM na década de 80, a Microsoft dos anos 90 e 2000, cada uma dominou o mercado em suas épocas e tornaram-se “Monolitões” da breguice em ambos os casos.

    1. Justiça seja feita, a Microsoft não passou por esse processo porque é brega desde que foi fundada. (Da IBM eu gosto da identidade visual dos primórdios. Hoje, nem sei direito o que eles fazem.)

      1. 🤣 Concordo, Micro$oft sempre foi brega, ok deveria ter usado o exemplo do Google não a M$, outro exemplo, “tão” relevante que até esqueci de citar.
        No caso da Apple, tenho para mim que se tornou uma empresa normal, toda aquela aura de inovação, experiência de produtos deslumbrante, findou-se.
        Inovação zero, aqueles personagens que fizeram dela uma empresa inovadora, diferente, produtos excepcionais, nem estão mais lá ou não foram substituídos a altura.
        Ou seja, mais um Monolitão do mundo da tecnologia, e o que importa no final é sempre o mesmo DI-LE-LO.

        1. henrique, o que sempre importou foi o dinheiro, não é como se a apple em algum momento não alvejasse exclusivamente lucro

          sempre foi esse monolitão e no mundo capitalista não tem como não ser

      2. uma curiosidade: qual seriam esses primórdios da ibm? nos anos 30?

        ou quando introduziram o logotipo do paul rand, em 1972?

  7. Pelo menos algumas funções de AI poderão ser desabilitadas ou até mesmo ignoradas.
    Sobre a customização acredito quem personaliza a mais tempo vai preferir continuar utilizando o Atalhos para isso como nesse vídeo aqui:

    https://youtu.be/mMTZxejVJ7o?feature=shared

    É mais trabalhoso? Sim, mas não fica tão limitado e horrendo como a opção da Apple.