Adoção do iOS 8 é mais lenta, mas não é isso que preocupa

Ícones do iOS 8.
Foto: Microsiervos/Flickr.

Uma das maiores vantagens do iOS para quem desenvolve aplicativos é a consistência da base de usuários. Em termos mais simples, quem usa iPhone, iPad ou iPod touch tem o hábito de atualizar esses dispositivos, facilitando o trabalho de quem cria apps. A uniformidade permite a esses profissionais explorarem o potencial de novas APIs e recursos rapidamente e dispensam o suporte prolongado a versões legadas.

A adoção das novas versões do iOS sempre foi muito rápida. Com o iOS 8, a história está um pouco diferente. Levantei a porcentagem da base atualizada do iOS 6, 7 e 8, duas semanas depois de cada lançamento (daqui, daqui e daqui):

Fontes: Apple, Mixpanel e Chitika.
Adoção de novas versões do iOS após duas semanas do lançamento.

O gráfico mostra uma queda perceptível no iOS 8. Não que 47% seja ruim; é um valor interessante para duas semanas. Para colocar em perspectiva, o Android 4.4 KitKat, lançado há quase um ano, no dia 31 de outubro de 2013, alcança apenas 24,5% da base instalada do Android. Os Windows 8 e 8.1, combinados, respondem por apenas 13,3% da base instalada do sistema, segundo a NetMarketShare.

Esse índice menor que a média recente tampouco chega a ser novidade. Do livro iOS 5 Programming:

Com o iOS 5, a taxa de adoção deve ser a mais rápida de todas pelos motivos a seguir. Primeiro, a atualização será gratuita para todos os dispositivos, diferente do iPhone OS 3. Segundo, diferente do iOS 4, o iOS 5 não deixa dispositivos antigos (como o iPhone 3GS) mais lentos. Por fim, para usuários finais, notificações mais claras, sincronização sem fio com o iTunes e o iMessage são recursos decisivos que devem aceperar a adoção do iOS 5.

Pode não ser anormal, mas chama a atenção já que ele quebra uma curva ascendente. Por quê? Se analisarmos a situação do iOS 8, alguns padrões emergem:

  • Embora traga mudanças profundas no modo de funcionamento, a interface permaneceu basicamente a mesma do iOS 7, diminuindo o apelo junto ao público que gosta de mudanças drásticas.
  • Para outro grupo, o dos conservadores, o impacto que foi a migração do iOS 6 para o iOS 7 pode ter instaurado o receio de que a história se repita. Na dúvida, melhor esperar.
  • O iPhone 4 ainda é usado e não é elegível para o iOS 8. iPhone 4S e iPad 2, embora possam receber a nova versão, ficam reconhecidamente mais lentos com ela. Muita gente ainda usa esses dois dispositivos e está resistindo à atualização.
  • Falta espaço. O iOS 8 exige 5 GB (!) de espaço livre para ser instalado, e se para dispositivos com 16 GB já é difícil (aconteceu aqui), para iPhone 4S e iPhone 5c com apenas 8 GB é virtualmente impossível. (Dica: atualizando pelo iTunes não é necessário liberar espaço no seu dispositivo iOS para a atualização.)
  • Os bugs do iOS 8, somados ao fiasco do iOS 8.0.1 que transformou alguns iPhones em iPod touch, mais vários apps problemáticos devido a incompatibilidades com a nova versão, aumentaram o receio em quem está satisfeito com o estável iOS 7.

Esse último ponto, em especial, chama a atenção. Há uma sensação, quase generalizada, de que a Apple não está conseguindo dar conta dos processos de desenvolvimento do seu software na cadência atual. Talvez pisar no freio, como sugere Stephen Hackett, faça bem à empresa.

Outros entusiastas também expuseram publicamente esse sentimento. John Gruber questionou o “just works” após seu iPhone 6 entrar em um reboot infinito decorrente de uma simples troca de wallpaper e que só se resolveu com a formatação do aparelho. Fraser Speirs lamentou a fragilidade que veio de carona com a complexidade do iOS 8 e, pela primeira vez, sentiu falta de um mecanismo administrativo que impeça a atualização do sistema (o Windows tem um e parece que é bastante usado em ambientes corporativos).

De qualquer maneira, gradualmente a parte majoritária da base se moverá e o normal é que daqui a um ano, quando estivermos falando em seu sucessor, o iOS 8 esteja presente na quase totalidade dos dispositivos móveis da Apple. Apesar do estardalhaço das manchetes e de algumas justificativas sinalizarem que algo deve mudar no processo, a queda de ~10% na velocidade de adoção em relação às duas últimas versões não representa uma fragmentação ou qualquer coisa parecida. A uniformidade do iOS continua a ser uma das suas vantagens indiretas. O problema, ou os problemas, são os motivos que a explicam. É com isso que a Apple deve se preocupar.

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9 comentários

  1. Comparar a fragmentação é complicado justamente porque a Apple só lança 1 ou 2 dispositivos por ano e pode escolher não atualizar os mais antigos e cortar alguns recursos mas mesmo assim dizer que atualizou os pouco antigos, deixando-os lentos a ponto de você querer trocar por um novo.

    No Android o hardware pode simplesmente não aguentar uma atualização, é vendido defasado e assim ficará. Seria interessante avaliar o índice de adoção do KitKat entre aparelhos que custam o mesmo que o iPhone, algo como R$ 1.500+.

    E aliás, Moto E e G e outros estão mostrando que as versões mais novas do Android conseguem rodar em hardware simples e com garantia de atualização. Isso deve se tornar mais comum no mercado do robozinho.

    1. Entendi o seu ponto, mas não é questão de comparar a competência das empresas. O modelo de negócios do Android é inerentemente pior que o da Apple para fragmentação, por mais que o Google se esforce a Apple sempre terá um ecossistema mais homogêneo.

      O Google faz um bom trabalho, pelo menos falando no suporte de seus serviços no aparelho. A maioria deles funciona pelo Google Play Services. Entretanto, não tem como ela controlar o hardware dos fabricantes.

      Para os usuários que se importam há a linha Nexus e, por enquanto, parece que a Motorola também está mantendo um bom modelo de atualização. Para quem não se importa (a maioria), toda a infinidade de aparelhos Android está disponível.

  2. Faltou citar um fator importantíssimo, imagino inclusive ser mais importante que todos esses que você citou, que é o grande requisito de espaço livre que o iOS 8 pede para ser instalado OTA, diferente do que acontecia com o 7. No meu aparelho, pediu cerca de 5GB livres. Isso acontece pela grande diferença interna entre 7 e 8, apesar da interface ser a mesma.

    Quantos iPhones 4S e 5C com 8GB vão conseguir fazer esse upgrade? Não muitos, imagino. E as legiões de usuários com aparelhos de 16GB, que são facilmente abarrotados de fotos, videos e apps? O meu iPad Air eu só consegui atualizar pelo iTunes, onde esse espaço extra não é necessário. Quantas pessoas farão isso? Falha da Apple em apontar isso como solução, simplesmente te dizem que não tem espaço suficiente e não pode ser instalado.

    1. Atualização via cabo no iTunes não requer o espaço? Ou seja, num iPhone com 16GB mas menos de 5Gb aproveitável poderia ser atualizado dessa forma?

      1. Sim, pelo iTunes não precisa ter o espaço adicional. Pode plugar no iTunes e pedir pra atualizar que vai numa boa. Isso acontece porque o update precisa ser baixado, descomprimido, setado e só então instalado, isso tudo usando o armazenamento do próprio aparelho. Pelo iTunes, ele pode fazer isso tudo no computador, mandando já mastigado pro aparelho.

        1. Cara, muito obrigado. Quando lançarem uma versão que deixe o 4s menos lento (8.1?) atualizo dessa forma.

  3. Tenho dispositivos com ios e android.
    Nos dias mais problemáticos do ios 8 eu considerei me livrar dos gadgets da apple e ficar apenas com os com android.
    Mas vou esperar esse tal 8.1 que promete ser a salvação da lavoura.