Museus abrem o caminho ao fediverso no governo federal
Em abril, após ataques de Elon Musk no X (antigo Twitter) direcionados ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, o presidente Lula, membros do alto escalão do governo federal e parlamentares retaliaram o bilionário — que é dono do X — criando perfis no Bluesky, uma rede social rival criada em cima de um protocolo aberto, o AT.
Se dependesse do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), o destino teria sido outro protocolo descentralizado, o ActivityPub.
José Murilo Costa Carvalho Júnior, coordenador da Coordenação de Arquitetura da Informação Museal (CAINF), tem “brincado” com o ActivityPub desde 2023. Diferentemente do protocolo AT, o ActivityPub tem o endosso do W3C, consórcio que define padrões web, e já é usado por uma multiplicidade de softwares — Mastodon (o mais popular), Lemmy, Pixelfed, WordPress, entre outros.

Foi um sucesso. “Gerou um diálogo sobre os acervos [dos museus] que a gente sempre quis”, disse-me em uma conversa no início de junho. “Esse diálogo com os museus… poxa, é fonte de pesquisa. Se você puder guardar isso e saber que tipo de conversa a sociedade gera a partir do seu acervo, é um dado muito importante e interessante.”
O Brasiliana é feito em cima de outras tecnologias abertas, o publicador WordPress turbinado com o plugin Tainacan, criado pelo governo federal em 2016 graças a uma parceria entre o Ibram e a Universidade Federal de Goiás. Hoje, o desenvolvimento do Tainacan tem o apoio de grupos de pesquisas de outras universidades públicas.
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José Murilo é das antigas. Conheci ele em 2009, em uma conferência de software livre em Foz do Iguaçu (PR) que contou com a presença de Matt Mullenweg, co-criador do WordPress.
À época membro do Ministério da Cultura (MinC) na gestão de Gilberto Gil, José subiu o primeiro site governamental em WordPress do Brasil, ele me relembrou. “Foi um site que serviu demais à política do Gil no MinC. Ele que cantava aquela música, ‘Fazer minha home page…’ e queria fazer a mesma coisa no Ministério.”
Aquele trabalho incipiente deu origem ao Cultura Digital BR, uma plataforma online de debates, também feita com o WordPress, que serviu à população por sete anos e foi palco de debates importantes, como os que culminaram no Marco Civil da Internet, aprovado em 2014.
Com o desmonte do MinC, em 2016, José foi levado — junto ao Tainacan — para o Ibram, que àquela altura já usava o software como base de um projeto de preservação da memória digital.
“A gente conseguiu passar todos esses [2016–2022] ali, meio escondidos no Ibram, mas desenvolvendo o projeto”, relembrou.
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O interesse pelo “fediverso”, neologismo que define a grande rede de sites interconectados pelo protocolo ActivityPub, trouxe de carona um reencontro do governo federal com o software livre, relação que começou a ruir no governo Dilma Rousseff e que coincidiu com investidas mais agressivas das big techs pelo Brasil, que asfixiaram (com muito dinheiro) alternativas livres que vinham sendo desenvolvidas aqui.
Para José Murilo, o fediverso tem se revelado um ponto de reencontro “da galera lá dos anos 2000”.
O MinC, esvaziado a partir do governo Michel Temer (chegou a ser extinto) e reduzido a secretaria no de seu sucessor, Jair Bolsonaro, voltou a ter força (e status de Ministério) em 2023, no terceiro mandato de Lula. Apesar do prestígio recuperado, “a retomada sempre é complicada”, explicou José. “Difícil retomar os processos que foram estacionados, se perderam… enfim. Estão tentando.”
Nesse contexto, a persistência do Ibram e dos anos da turma do José “meio escondida” na estrutura burocrática do governo coloca o órgão em uma espécie de vanguarda do software livre na esfera pública.
Além da expansão do Tainacan, em vias de ser adotado por museus do México e da Colômbia, o Ibram subiu uma instância do Mastodon, a social.museus.gov.br, que José espera se torne “uma Wayback Machine dos museus”, em referência ao projeto de preservação digital do Internet Archive. “Toda instalação de museu que entrar ficará, de alguma forma, amparada por esse ‘framework’.”
Há outras propostas de desenvolvimento para os museus no digital. A mais ambiciosa é a que cria agentes especialistas dos museus capazes de marcar conteúdos que circulam na internet aberta a fim de gerar conversas e guardar as obras e debates para a posteridade.
“A gente pensa que isso traz uma ‘institucionalidade’ de que a gente sente falta no digital. Essa coisa de ‘andar rápido e quebrar coisas’ não funciona no institucional”, ressaltou, resgatando um famoso bordão da Meta de quando a empresa ainda se chamava Facebook. “Não faz sentido, né? Para um museu quebrar coisas. O desafio é exatamente o oposto do de uma startup.”
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Em outra frente, a Associação Alquimídia lançou, no final de junho, a campanha FediGov no Brasil. Ela emula iniciativas similares em locais como Portugal, França e a União Europeia e tem como objetivo fomentar a adoção de plataformas federadas por instituições públicas no Brasil.

Antes do FediGov, a Alquimídia já havia colocado no ar o Observatório do Fediverso, um espaço em seu site que reúne materiais de apoio, notícias e que organiza palestras a respeito do ActivityPub e aplicações compatíveis.
A campanha se sustenta em quatro pilares que justificariam o que chama de “comunicação ética” para as instituições públicas no digital: soberania, proteção de dados, dinheiro público e certeza legal.
Entre os materiais destacados está um modelo de e-mail para enviar a gestores de todas as esferas públicas, pedindo pelo uso de redes sociais descentralizadas e abertas para a interação com o público.
“Se um governo começa a usar [o fediverso] para se comunicar, gera um incentivo para que mais pessoas usem também”, explica Thiago. “Então é estratégico para a gente que essa campanha seja divulgada e ampliada.”
Thiago e a Alquimídia — que não tem sede física, mas tem a maioria dos seus membros em Florianópolis (SC) — têm aberto diálogos com pessoas da Secretária de Comunicação Social (Secom) do governo federal e com o Ibram, de José Murilo, que é um “case” no FediGov e, para Thiago, “o principal órgão [público], hoje, de olho no fediverso”.
Ele reconhece que o trabalho de conscientização e convencimento é difícil, pelas peculiaridades das redes descentralizadas, mas não só. “Tem esse desafio, [porque] não é uma plataforma, não é uma rede; é uma rede de redes. Tem todo um conceito. Quando eu paro para falar, as pessoas entendem. A gente tem feito um trabalho de formiguinha.”
viva a iniciativa!
Muito interessante, torcendo para a iniciativa perdurar
Interessante, que esta iniciativa vingue.