Alienação e aceleração
Em 1985, o educador estadunidense Neil Postman publicou Amusing ourselves to death1, uma crítica à TV e o seu poder de reduzir qualquer matéria ao entretenimento.
No livro, Postman faz o alerta de que o mundo contemporâneo não é o imaginado por George Orwell em 1984 (opressor, totalitário), mas sim o que Aldous Huxley apresenta em Admirável mundo novo, ou seja, um em que as pessoas sacrificam seus direitos voluntariamente em troca de felicidade artificial. A diferença é que em vez do “soma”, a droga sintética que dava barato no livro, a do mundo real dos anos 1980 seria a TV.
O argumento de Postman contrasta os Estados Unidos do século XIX, quando alguns bolsões apresentavam índices altíssimos de alfabetização e os debates entre políticos e figuras públicas eram acontecimentos e demoravam horas, às vezes dias, com o distraído pela TV, evocando Marshall McLuhan e sua máxima (“o meio é a mensagem”) para sustentá-lo:
A duração média de uma cena na televisão é de apenas 3,5 segundos, de modo que o olho nunca descansa, sempre tem algo novo para ver. Além disso, a televisão oferece aos espectadores uma variedade de assuntos, requer habilidades mínimas para compreendê-los e visa em grande parte a gratificação emocional.
Se trocarmos “televisão” por “TikTok” ou “Instagram”, a frase continua valendo nos anos 2020 sem demandar outras alterações.
Teria sido interessante ler as observações de Postman a respeito da internet, 40 anos depois da publicação do seu livro mais famoso. O que é impossível, visto que ele faleceu em 2003. A edição que li de Amusing ourselves to death foi a comemorativa dos 20 anos, editada pelo filho do autor, Andrew — apenas dois anos antes do iPhone. Quanta coisa pode acontecer em um intervalo tão curto.
Se a história sempre se repete, como disse Karl Marx, a da comunicação se repete num ritmo cada vez mais rápido.
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Quando criei o Manual do Usuário, o fiz influenciado pela filosofia da “slow web”. Era 2013 e, embora a internet já fosse bem rápida, era bem mais lenta que a de hoje.
A aceleração extrapola a web ou a internet. (A própria slow web deriva do “slow food”, movimento que surgiu na Itália em meados dos anos 1980 em resposta às redes de fast food.) E, no mesmo sentido em que a comunicação e a informação parecem cada vez mais céleres, todo o resto também. Temos que correr cada vez mais rápido para continuarmos no mesmo lugar.
Foi lendo um textão que salvei para ler depois, em uma das minhas lentas andanças pela web, que topei com o nome de Hartmut Rosa, sociólogo e cientista político alemão, herdeiro da teoria crítica da Escola de Frankfurt.
Apenas um parágrafo do referido textão me convenceu a lê-lo, o que fiz pelo Alienação e aceleração: Por uma teoria crítica da temporalidade tardo-moderna (editora Vozes; Amazon2).
Neste ensaio, Rosa tenta responder o que é uma boa vida e o que nos distancia dela3. A julgar pelo título, a suspeita do autor recai nos ritmos temporais. Como diz na introdução,
[…] argumento que a vida social moderna é regulada, coordenada e dominada por um regime temporal apertado e rígido, que não é articulado em termos éticos. Por isso, sujeitos modernos podem ser descritos como minimamente constrangidos por regras e sanções éticas e, portanto, como livres, ao passo que são rigidamente controlados, dominados e suprimidos por um regime de tempo largamente invisível, despolitizado, não discutido, subteorizado e desarticulado. Tal regime temporal pode, com efeito, ser analisado sob um único conceito unificador: a lógica da aceleração social.
Rosa lista os tipos de aceleração a que somos sujeitados no que chama de tardo-modernidade, com destaque para uma que nos é muito cara, a tecnológica, que ele define como “[…] o aumento intencional de velocidade dos processos de transporte, comunicação e produção orientados por metas”.
Ao falar dos efeitos dessa forma de aceleração, Rosa recorre a Paul Virilio (e lembrei-me de Stefano Quintarelli) ao afirmar que a tecnologia faz com que o tempo altere ou mesmo aniquile o espaço.
Há muitas sacadas geniais ao longo do ensaio, que abrangem aspectos problemáticos e, não raro, difíceis de verbalizar, como a aceleração da vida social (aquela história de que antes empregos eram para uma vida toda, hoje não mais), a disputa brutal por atenção e os impactos dela em várias esferas (e ecoa Postman quando trata do que é preciso para vencer uma disputa eleitoral) até a desconexão que sentimos de espaços, tempos, ações e experiências (um dos tipos de alienação redefinidos sob a perspectiva temporal).
Dentre tantos, o que mais me impactou foi o que Rosa define como “a principal força que impulsiona a aceleração social”. É a competição.
O único domínio importante de alocação [de recursos, bens e riquezas] que não é governado pelo princípio da competição são os modelos e medidas de distribuição dos regimes de bem-estar social. Logo, não é de se admirar que a sensação de aceleração social das pessoas se torne mais aguda justamente num momento em que as políticas de bem-estar social foram parcialmente reduzidas e parcialmente expostas a elementos mais competitivos.
Alguém poderia dizer que é só mais uma teoria que reduz um problema ao efeitos nocivos do capitalismo. Não é só isso. Na mesma passagem em que trata da competição, Rosa diz que essa extrapola a esfera econômica orientada para o crescimento:
[…] De fato, ele [o princípio da competição] é o modo dominante de alocação em praticamente todas as esferas da vida social, sendo, portanto, como ensina Talcott Parsons, um princípio central definidor da própria Modernidade.
E quase no final do livro, quando revê a alienação marxista sob uma nova perspectiva, a da teoria que propõe:
Deslocando a análise [da alienação] para uma perspectiva temporal, deixo em aberto a questão de saber se a lógica da mudança temporal é (puramente) econômica ou não. Como sugeri na primeira parte deste ensaio, realmente acredito que as forças motrizes da aceleração social na sociedade moderna excedem o âmbito do capitalismo econômico, mas essa crença não é essencial para meu argumento.
Na conclusão, Rosa se volta aos colegas pesquisadores. Para leigos curiosos como este que lhe escreve, é uma pena. Fica a vontade de entender possíveis caminhos para desacelerar o mundo. Se é que eles existem.
- Não encontrei tradução para o português desse livro. ↩
- Comprando na Amazon por este link, o Manual ganha uma pequena comissão. O preço para você não muda. ↩
- Parece auto-ajuda, mas não é; está mais para um livro teórico, voltado a pesquisadores da comunicação e sociologia, que, por acaso, é uma leitura agradável e até acessível. ↩
fiquei curioso espero que traduzam
Muito bom. Eu sempre me surpreendi por esse aspecto voluntário das pessoas cederem seus dados e privacidade para participar das redes sociais, por exemplo (tipo, pra que postar tudo que você faz?). Ao invés do Grande Irmão com a tela te espionando, você mesmo compartilha tudo o que faz. Sobre possíveis caminhos para lidar com isso, concordo com o comentário do Diego Silva (“A pior parte é que, mesmo que adotemos um ritmo mais lento, o entorno nos força a ir rápido”). Um livro interessante que vai nessa linha é o Devagar, do Carl Honoré (dele que adotei o apelido que uso aqui). Ele mergulha na filosofia slow para encontrar caminhos para desacelerar em diversos aspectos da vida, do trabalho ao sexo, do exercício físico à alimentação. Num primeiro momento também pode parecer auto-ajuda, mas o estilo do texto não vai nessa linha, é bem jornalístico. Mas, se no final das contas ajudar, por que não?
Um pensador muito rico de se mergulhar nesse tema (e sinto que muito ignorado) é o Milton Santos, principalmente quando trata do meio técnico-científco-informacional, da densidade e dos fluxos informacionais e da compressão do espaço-tempo. E um dos raros a incitar propostas de resistência, até mesmo com a apropriação da técnica da ordem vasta (o que eu discordo, mas é uma perspectiva interessante).
Esse texto e as discussões levantadas a partir dele foram um dos momentos mais enriquecedores que tive esse ano. Muito obrigado, Ghedin, por fomentar esse tipo de discussão.
Excelente texto e análise. Devidamente lido e compartilhado com quem importa!
Também tenho pensado e lido bastante sobre esse assunto, e acho que ele tá pipocando por aí em várias formas e com alguns nomes diferentes. Veja por exemplo que a expressão brain rot foi considerada a palavra do ano pelo dicionário Oxford, o que acho que tem muito a ver com essa modernidade acelerada que tá afetando a cabeça de todos nós. O mais desesperador é ver que, apesar de filósofos, sociólogos e psicólogos estarem alertando sobre isso há algum tempo, ninguém até agora foi capaz de apresentar uma esperança de que algo possa curar ou aliviar esse problema, a não ser recorrendo a drogas ou se isolando da sociedade. Outro dia no podcast Boa Noite Internet, o Michel Alcoforado tava explicando que a gente vai acabar encontrando um jeito de lidar com a aceleração, da mesma maneira que as populações urbanas nos começo do século passado aprenderam a ignorar as multidões ao seu redor nos grandes centros, pra evitar a constante distração e peso do ambiente barulhento. Eu torço pra isso, mas sinceramente agora tá um pouco difícil de enxergar essa saída.
Excelente texto! Há dez anos, lembro da leitura de um texto chamado “Slow down, you move too fast”, quando fiz um curso de inglês. Ele abordava o tema “Slow Food” e também outro chamado “cittaslow” ou “Slow City”, em tradução livre:
Quando a professora questionou sobre o que achávamos disto, acho que fui o único a demonstrar entusiasmo e ela mesma já me olhou torto, hahaha. Não introjetei a ideia e só agora, literalmente, tirei do “baú” para revê-lo e “bati a foto”, caso alguém queira conferi-lo.
É um assunto que me interessa bastante. Will Schoder também cita muito o livro “Amusing ourselves to death” e há um vídeo bem legal em seu canal do Youtube chamado “The Attention Economy”.
Sobre esse aspecto negativo da TV / Entretenimento, acredito que o livro “Graça Infinita”, do David Foster Wallace trate desta questão. Faz anos que quero ler, mas é bem caro, tem mais de 1000 páginas e não animei de pegar a versão para Kindle por conta de supostos erros nas Notas de Rodapé (ouvi dizer que elas fazem parte da narrativa e são gigantes, numa espécie de metalinguagem).
Mano, como adoro e acho um máximo aqui: o site se chama Manual do Usuário, mas não tem manuais, fala de tecnologia, mas contesta esse “afã” acelerado que o próprio tema impõe! Desde sempre, infelizmente, tudo está nesse ritmo: corrido, cansado, corroído.
Imagina hoje, com boa parte das coisas dependentes de tecnologia?
Não à toa que a palavra do ano elegida pelo dicionário Oxford é “brain rot”, ou seja, “cérebro apodrecido”. Não há massa encefálica que aguente!
Até nossa memória histórica é afetada por essa massificação e “presentismo”. Tem um autor da pós em História que tô fazendo, se chama Ulpiano Bezerra de Meneses (com “s” mesmo), que em seus textos falada que a “memória tem passado e presente, a memória tem história”.
Mas, hoje, com essa velocidade e volume de informações, estamos cada vez com uma memória empobrecida, desesperada pelo instante, mas não pelo momento presente (vide story, vídeos do Tiktok e por aí vai).
Que memória produzimos? Que passado queremos deixar? Por que esse desespero pelo futuro? Por que não pensar no futuro?
Já pensou hoje?
Excelente texto, Rodrigo!
Bem colocado. Parece que a efemeridade reina soberana hoje e o conteúdo é muito disperso. A pior parte é que, mesmo que adotemos um ritmo mais lento, o entorno nos força a ir rápido. Brinco muito com um amigo que manda com frequência “hard news” sobre conflitos internacionais, sempre com especulações de que o País A “pode” fazer tal coisa ao País B. Digo a ele para me mandar somente quando a “tal coisa” acontecer, de fato.
Belo texto e reflexões Guedin, acho incrível que textos “antigos” já que estamos acelerados conseguem delinear tão bem o caos que é a vida de hoje com as redes sociais, internet e tudo mais.
Gosto de acompanhar alguns filósofos e sempre tem textos de Platão, Aristóteles e cia que conseguem explicar o que acontece hoje.
Alguns vídeos da prof. Lucia Helena Galvão ela compila estas informações e fico impressionado como tudo se encaixa hoje em um texto de 3000 mil anos atrás.
https://www.youtube.com/watch?v=Ktxu6zxXkYk
Salvei aqui pra assistir mais tarde
Acho bem curioso que existem textos desde o século XIX que reclamam da vida moderna cada vez mais acelerada (!) Estive lendo o Campo e a Cidade na Literatura Inglesa, do Raymond Williams, para a minha tese, e uma das soluções que os escritores do século retrasado pensavam para a vida acelerada da metrópole era “trazer” o modo lento do campo da cidade, ou mesmo se mudar para o campo, sempre há um tom nostálgico de que deixamos algo para trás e que precisamos recuperá-lo. Pulando para hoje, vejo que não é a toa que partes da direita compreenderam isso e se valem de um discurso conservador, nostálgico, de retomar um tempo perdido em virtudes das grandes transformações do nosso tempo, comparáveis com o que as pessoas vivenciaram no séc XIX. Não acredito que a solução seja essa, de voltar no tempo. Creio que está mais para imaginarmos um uso ‘crítico’ das tecnologias, como é o próprio site do Manual.
O mais curioso é que o discurso aceleracionista é de direita per se. A ideia do capitalismo que leva duas dinâmicas que não são realistas: (i) crescimento infinito em ambiente finito e (ii) crescimento de ganho em PG com crescimento de custo em PA.
Basta ver o tal do “Manifesto Otimista” do Andresseen e as ideias do movimento TESCREAL dentro das startups
Atribuo o conservadorismo mais a necessidade de estabilidade do q nostalgia (muitos jovens entram nessa história conservadora sem ter vivenciado nada da época, q aliás nunca existiu, não do jeito que descrevem)
E esse fator está mais relacionado com a liquidez das relações como já apontou Bauman. Quando tudo é incerto e muda constantemente, nos apegamos a ideias de estabilidade ilusória
Ótimo texto! Lembrei do livro “O Aroma do Tempo” do Byung-Chul Han, que ele fala muito da atomização do tempo. Acho que é impossível achar o livro em PTBR, mas traduzi um trecho que tenho anotado:
“O tempo cai [stürzt fort], como uma avalanche, precisamente porque não contém mais nada a que se agarrar dentro de si. O rompimento do tempo, a aceleração sem direção dos processos (que, por causa da falta de direção, não é mais realmente uma aceleração), é desencadeada por aquelas presenças pontuais entre as quais não há mais nenhuma atração temporal. A aceleração no sentido próprio da palavra pressupõe um curso que direciona o fluxo.”
Ele fala sobre a atomização do tempo, em particulas, ao invés de uma “linha do tempo”, e a atomização destrói o senso de continuidade.
Não sei explicar, é melhor ler o livro kkk