Fundo azul, com uma chamada para um PlayStation 5 no centro. À esquerda, a frase “Ofertas de verdade, lojas seguras e os melhores preços da internet.” À direita, “Baixe o app do Promobit”.

Uma derrota para o telemarketing

Telefone vermelho com fio.

Não houve quem não comemorasse a notícia de que, agora, ligações de telemarketing precisam ser feitas a partir de números iniciados com 0303. (Por ora, apenas as originadas de celulares; em junho, as de fixos também.) Mas, se ninguém gosta dessa importunação, por que ela existe?

É duro admitir, mas o telemarketing existe porque, em alguma medida, funciona. E deve ser uma medida que compensa os gastos e o arranhão à imagem das empresas que se utilizam dessa estratégia para conquistar novos clientes.

A necessidade de bater metas, ou seja, vender mais que a média, leva as empresas a saturarem todo canal com potencial de conversão, inutilizando-o no longo prazo. Mesmo que considerássemos a ligação não solicitada para a oferta de produtos ou serviços um mecanismo aceitável, o volume com que são feitas extrapola qualquer razoabilidade.

Virou uma praga, ninguém aguenta mais. E não é a primeira vez, nem será a última, que isso acontece. Já foi com o e-mail (spam), com os anúncios na web (pop-ups), e de novo com os anúncios na web e em aplicativos, desta vez por serem invasivos.

Parte dos abusos são corrigidos por outros atores sem relação direta, pelo Estado ou pelos próprios consumidores — que, em qualquer caso, são peça fundamental para pressionar por mudanças.

No caso do spam, por exemplo, uma coalização de empresas do setor estancou o problema em meados dos anos 2000 com uma série de medidas sistêmicas. No dos banners em pop-ups, que afogavam usuários em suas telas de computadores diminutas no final dos anos 1990, foram os navegadores que fecharam passaram a bloqueá-los. (Lembra quando navegadores eram feitos por empresas de software, e não por empresas de publicidade? Bons tempos.)

O telemarketing lembra um pouco a situação — ainda pendente — da publicidade invasiva na web. Em ambos os casos, a iniciativa na contenção dos abusos partiu dos usuários/consumidores.

Não é por acaso que bloqueadores de anúncios são tão populares: eles tornam a web navegável outra vez. Estudos como este francês, que demonstrou que 70% do consumo energético no acesso a sites noticiosos do país derivam de anúncios e códigos de rastreamento, comprovam o absurdo. Que me perdoe o jornalismo que precisa de recursos para sobreviver, mas o caminho não é por aí.

No telemarketing, tínhamos duas armas para revidar o abuso: as listas de “não perturbe”, que funcionam em muitos casos, mas não sempre, e ignorar ligações de números desconhecidos — um “bloqueador” de ligações manual. Há sempre o risco de perder uma importante, mas considerando a relação sinal–ruído, é mais provável que aquele número estranho na tela do celular seja de uma empresa incômoda do que alguém querendo dar uma boa notícia.

A nova obrigatoriedade imposta pela Anatel de que o telemarketing adote o prefixo 0303 é promissora. Pode ser a última pá de cal em um comportamento abusivo e inadmissível das empresas.

Se o 0303 for amplamente adotado, como a agência espera, não só será possível ignorar ligações de telemarketing sem precisar atendê-las, como bloqueá-las na raiz, com aplicativos como o Yet Another Call Blocker (Android) e o Number Shield (iOS), ou solicitando o bloqueio prévio dessas chamadas à operadora (sem paywall) — um aspecto importante e pouco citado da nova regra da Anatel.

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7 comentários

  1. Lembrando galera que ligações de telemarketing são diferentes de ligações de cobrança, então se você está com dívidas, vai continuar recebendo ligações de todos os DDDs do Brasil.

  2. Por aqui o que percebi desde a data em que a medida entrou em vigor foi o aumento absurdo na quantidade de ligações e sem o prefixo 0303. Acho que só hoje já recebi e bloqueei umas 20 chamadas.

    1. Por ora, a regra só vale para ligações iniciadas de celulares. As de fixo precisam ter o prefixo a partir de junho. E há exceções — campanhas beneficentes, por exemplo, não precisam aderir ao número.

      1. As que recebi foram todas de números de celular e nenhuma era cobrança ou beneficência.

  3. Eu não sinto firmeza no que vai fazer valer a regra, no link da Folha diz que “pode haver aplicação de multas”. Na prática, qualquer empresa ainda pode continuar a perturbar com qualquer número, porque não existe como impedir essa violação.

    Não sei se pela iminência de publicação da regra só hoje fui incomodado por 9 ligações de 9 números diferentes, atendi várias delas (para saber de qual empresa era e xingar quem estivesse do outro lado) mas era daquelas que caem logo que atendemos.

    Tenho a possibilidade de bloqueá-las por padrão no app Telefone do Google, que é muito eficiente em identificar a maioria deles como spam, apesar de não todos, além colocar alguns que não são como sendo (como telefones que as empresas usam para entrar em contato com o cliente na resolução de problemas), mas tive que ativar essa opção de filtragem devido o excesso. Infelizmente o discador original do aparelho, da Samsung, apesar da beleza, está associado a um serviço horrível chamado Hiya que não funciona de fato, não reconhece corretamente as empresas e nem os números de spam. A quem possui aparelhos da marca fica a dica de substituir pelo do Google.

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