Na Build 2014, a Microsoft oficializa o Windows Phone 8.1 e o Windows 8.1 Update

Todo ano a Microsoft, geralmente em San Francisco, organiza a Build, uma conferência para desenvolvedores que distribui brindes tentadores (desta vez, Xbox One e um vale-compras de US$ 500) e, mais importante, apresenta as novidades das próximas versões dos principais programas da casa.

Neste ano, as atenções foram divididas entre Windows Phone 8.1 e Windows 8.1 Update. O primeiro, o sistema para smartphones; o segundo, para tablets e PCs convencionais. Na sequência, os principais anúncios feitos na Build 2014.

Windows Phone 8.1: Cortana e melhorias há muito esperadas

Desde seu lançamento, em outubro de 2012, o Windows Phone 8 recebeu três atualizações tímidas — a última, Update 3 (ou Black, para os Lumias da Nokia), detalhada aqui. Embora todas essas três tenham trazido mudanças e novidades relevantes, o Windows Phone 8.1 oficializado ontem se distancia em muito das anteriores. É uma grande atualização, afinal.

O maior destaque, e o que ocupou mais tempo da (longa, mais de 3h) apresentação, foi a Cortana, assistente pessoal vinda diretamente da franquia de jogos Halo. Ela parece unir as melhores características da Siri (personalidade) com as do Google Now (eficiência, personalização e proatividade).

Durante as demonstrações das suas habilidades, tivemos alguns problemas — ela não conseguiu converter Celsius para Kelvin, por exemplo. Tudo bem, a Cortana é um produto em beta. Além de juntar o que a concorrência oferece de melhor, algumas sacadas, como o “bloco de notas” onde ela mantém registros de informações-chave para orientar seu trabalho de assistente, são muito boas.

Cortana, nova assistente pessoal do Windows Phone.
Cortana. Imagens: Microsoft.

Outra coisa da Cortana que chamou a atenção positivamente foi a integração com apps de terceiros. No palco, foi possível adicionar programas de TV ou começar a assisti-los, via Hulu, apenas dando comandos à assistente. O Skype também já contará com essa integração logo de cara. Ela aceita tanto a voz quanto texto como entrada de dados, e responde de acordo — se você digita algo, ela presume que esteja em um lugar onde o áudio não é a melhor opção e, então, responde com texto também.

O Windows Phone 8.1 trará papéis de parede para a tela inicial. Só que em vez de mudar o fundo, que continua preto, são os blocos dinâmicos que ficam transparentes. Tenho algumas ressalvas quanto a isso. Em fotos e vídeos, a legibilidade parece prejudicada e a imagem parada atrás quando se rola a página passa uma sensação de bagunça. Talvez ao vivo, com a imagem certa de fundo, fique melhor. A conferir, juntamente com a nova tela de bloqueio, com elementos dispostos em ângulos diferentes. Essa última parece legal já pelas demonstrações.

Screenshots com algumas novidades do Windows Phone 8.1.
Papel de parede, Central de Ações e teclado Word Flow. Imagens: Microsoft.

Mais uma novidade que não é exatamente novidade, mas que há muito era esperada é a Central de Ações — o nome vem de um recurso similar, porém bem menos prático, que estreou no Windows 7. Dali será possível (des)ativar funções do aparelho, como modo avião e Wi-Fi, sem precisar recorrer às configurações. As últimas notificações também aparecerão listadas logo abaixo.

E ainda tivemos o teclado Word Flow (não sei como ou se o nome será traduzido), agora com suporte a escrita deslizando os dedos, método “swipe”. Ele ganhou o título de teclado mais rápido do mundo do Guinness, anteriormente do Swype em um Galaxy S4, mas não parece nada diferente dos tantos teclados para Android que já contam com o método. O teclado do Windows Phone, que já era bacana sem isso, fica ainda melhor.

De resto, Wi-Fi Sense, que lembra suas senhas e permite compartilhar a conexão com outras pessoas sem revelá-las, sincronia na nuvem de um punhado de configurações do sistema, como já rola com o Windows, e inclusive entre Windows Phone e Windows quando for aplicável, suporte a telas externas via Miracast ou cabo USB, e apps melhorados/alterados.

O primeiro gostinho de Windows Phone 8.1 que teremos será com os Lumia 630 e Lumia 635, com lançamento previsto para maio. O primeiro terá uma variante dual SIM, algo inédito até então para o Windows Phone; o segundo, suporte a 4G LTE. Os preços variam de US$ 159/169 (Lumia 630) a US$ 189 (Lumia 635). Ambos usam botões virtuais, outra novidade no sistema móvel da Microsoft, e contam com a tecnologia SensorCore, um sensor de movimentos de baixa potência que, pela descrição da Nokia, lembra bastante o chip M7 do iPhone 5s.

Depois, em junho, é a vez do Lumia 930, novo topo de linha da Nokia. É meio que a versão internacional do Lumia Icon, belo smartphone lançado exclusivamente pela Verizon nos EUA. A única diferença, além das redes suportadas, está nas cores. Sai o preto e branco do Icon, entram novas opções coloridas no Lumia 930.

Os atuais aparelhos, todos eles, receberão o Windows Phone 8.1 no “inverno”, a partir do final de junho.

Windows 8.1: de volta às raízes

O Windows 8 foi um passo maior que a perna dado pela Microsoft. Precoce ou errado desde o começo, ele não conseguiu encantar o consumidor. Aos fiéis, acostumados a usar o sistema com teclado e mouse, sobraram frustrações com a interface direcionada a telas sensíveis. A quem se dispôs a comprar um tablet, por que apostar em uma plataforma nova, “verde”, quando outras mais maduras e estabelecidas estão disponíveis, por preços similares, quando não mais baratas?

O trem começou a voltar aos trilhos com o Windows 8.1, mas ainda faltavam mais mudanças, faltava mais amor a quem ainda não se arriscou a aposentar o mouse, ou nem pretende fazê-lo. O Windows 8.1 Update, estranho nome da próxima atualização, chega ainda mais rapidamente que a versão 8.1: em vez de esperarmos um ano, desta vez foram só quatro meses. Pouco tempo, mas o suficiente para a Microsoft fazer bastante coisa.

Desligar e pesquisar facilitados no Windows 8.1 Update.
Imagem: Microsoft.

A tela Inicial continua lá, só está mais amigável ao mouse. Agora, botões para desligar e pesquisar aparecem proeminentes na tela, no canto superior direito, ao lado da foto do usuário. O bloco de configurações é padrão e fica mais à vista do que escondido nas configurações da Charm Bar.

Menus de contexto na tela Inicial do Windows 8.1 Update.
Imagem: Microsoft.

A mudança mais drástica na tela Inicial aparece ao se clicar com o botão direito do mouse em um bloco: menus de contexto! Parece mais prático, sem dúvida, mas isso gera uma inconsistência enorme com os apps modernos, que não oferecem esse mecanismo de controle — neles, um clique com o botão direito abre a barra inferior ou superior. Meio estranho esse comportamento, e apenas reforça a dificuldade que é manter dois paradigmas de uso embaixo do mesmo teto.

Isso tudo vale só para computadores com teclado e mouse. O Windows (com uma ajudinha das fabricantes) é esperto e sabe o tipo de equipamento em uso. Para quem tem um tablet, essas e outras mudanças, como a barra de título nos apps modernos, com menu geral e botões de minimizar e fechar, não serão sentidas.

Outra novidade exclusiva para os usuários de teclado e mouse é a inicialização direta na Área de trabalho clássica. Isso, somado à nova barra de tarefas (no rodapé da tela) persistente mesmo em apps modernos, pode ser um prego no caixão da tela Inicial. Se para quem usa e depende de apps clássicos as visitas àquela tela cheia de blocos dinâmicos e coloridos já eram raras, as mudanças no Windows 8.1 Update devem acabar com elas. A barra de tarefas fica oculta, mas pode ser chamada em qualquer ponto do sistema. Exibe apps modernos abertos, inclusive com suporte a miniaturas e comandos nelas, bem como apps afixados pelo usuário — o da Loja do Windows, aliás, vem ali por padrão.

Barra de tarefas everywhere.
Imagem: Gizmodo.

A pesquisa do sistema, potencializada pelo Bing, agora exibe apps da Loja que não estão instalados mas que têm algo a ver com o termo pesquisado. Após a instalação de um app novo, a visualização de todos os apps destaca os recém-chegados. No Windows 8.1 era difícil separar o novo do antigo e com essa simples mudança fica mais fácil fazer a distinção.

Uma novidade importante, mas que não será sentida por quem já tem seus equipamentos, é a dieta na qual a Microsoft submeteu o Windows. Paul Thurrott diz que esse esforço, conhecido internamente como 116 (de 1 GB de RAM, 16 GB de espaço) inclui mais de 200 otimizações para permitir que o Windows rode em configurações fracas — e consequentemente, baratas. O objetivo, aqui, é conter o avanço de tablets Android e notebooks com Chrome OS. E isso, somado à gratuidade do Windows para dispositivos com telas menores que 9 polegadas, outro anúncio feito nesta Build, pode ser uma combinação decisiva para fabricantes e consumidores em potencial. Além do Windows nessa configuração, o Windows Phone também tornou-se gratuito — já tínhamos visto indícios disso na Índia.

O Windows 8.1 Update será lançado no dia 8 de abril através da Loja do Windows. Será, como ocorreu com a atualização anterior, gratuito.

Um vislumbre do futuro

Não contente em falar tudo o que pretende lançar nos próximos meses, a Microsoft ainda deixou promessas, aparentemente encaminhadas, do que virá a seguir.

novo Menu Iniciar e apps modernos rodando em janelas.
Foto: The Register.

O menu Iniciar voltará, com uma abordagem híbrida: de um lado, os apps mais usados, como era até o Windows 7; do outro, os blocos dinâmicos do Windows 8. A empresa não disse quando ou em que versão esse menu fará sua estreia, mas o prometeu para breve. Na mesma tela, outra novidade surpreendente: apps modernos rodando em janelas. E assim se completará a viagem em círculo do Windows 7 até essa futura versão que deixará tudo como era antes.

O Office, que recentemente ganhou uma boa versão para iPad, será refeito. O mesmo app rodará em computadores, tablets e smartphones, cortesia dos apps universais para Windows. Demorou, mas enfim desenvolvedores poderão criar um app apenas para Windows e Windows Phone, podendo inclusive cobrar uma única vez do usuário. As interfaces serão adaptáveis e cada plataforma poderá ter código e convenções visuais próprias. Desenvolvimento é uma área nebulosa para mim, mas as reações da plateia e de analistas foram positivas, sinal de que a Microsoft fez o dever de casa corretamente.

Você lerá por aqui análises de ambas as atualizações. O objetivo deste post, agora, era mais apresentar o que vem por aí. Parecem coisas boas, embora tenha sentido falta de novidades, no sentido estrito da palavra. O Windows Phone ainda corre para se equiparar aos concorrentes, o Windows, para resolver os erros das versões anteriores. Gasta-se muita energia para adequar os sistemas ao que o usuário quer ou espera, logo é natural que faltem braços, tempo e energia para inovar. De tudo o que foi anunciado nessa Build, a Cortana parece a coisa mais legal (e com potencial!). Enfim, melhor esperar esses produtos chegarem ao mercado para falar melhor deles.

Firefox para Windows 8 é cancelado devido à falta de interesse dos usuários

Parece que foi ontem, mas o Windows 8 já está no mercado há um ano e meio. Para qualquer empresa de desenvolvimento média ou grande, prazo generoso para portar ou criar um app. Considerando a fase de testes do sistema, que embora não trouxesse a Loja do Windows, em certa altura passou a permitir o desenvolvimento e depuração de aplicativos Metro/imersivos, lá se vão mais de dois anos.

O Windows 8, analisando bem, não é carente de grandes apps. Os principais estão lá, disponíveis na Loja: Facebook, Twitter, Foursquare (em versão exclusiva, ainda que de utilidade duvidosa, para tablets), Netflix, Skype… Com uma ou outra exceção, são apps inferiores aos equivalentes de plataformas rivais, mas marcam presença e amenizam a impressão de se estar em um deserto de apps ao iniciá-lo pela primeira vez.

Firefox Metro: desenvolvimento cancelado.
Screenshot: Mozilla.

Na última sexta-feira (14), o novo ecossistema da Microsoft teve uma baixa considerável. Johnathan Nightingale, vice-presidente do Firefox, anunciou o cancelamento do Firefox para Windows 8 em um blog oficial. A justificativa para encerrar um trabalho que vinha de longa data foi o baixo interesse dos usuários (grifo meu):

“Nos meses que se seguiram [desde o lançamento da versão beta], na medida em que a equipe testava e refinava o produto acompanhamos a adoção [da versão] Metro. Pelo que pudemos ver, ela é nula. Em qualquer dia nós temos, por exemplo, milhões de pessoas testando versões de pré-lançamento do Firefox para desktop, mas nunca vimos mais do que mil usuários ativos diários no ambiente Metro.”

Esse dado alarmante da Mozilla, de que menos de mil pessoas por dia testavam a versão moderna do Firefox, denota um problema de longa data: o desinteresse pelos apps em tela cheia e interface imersiva que estrearam com o Windows 8.

Em maio de 2013, a Soluto, que oferece uma solução de assistência remota e otimização de sistemas para Windows, liberou dados de uso do Windows 8 colhidos de usuários do seu app. Uma amostragem pequena e que exclui o Windows RT (a versão para processadores ARM que, apesar de rodar apenas apps modernos, vira e mexe fica sem eles, como no recente caso do VLC), mas que fortalece o discurso de que os usuários ignoram apps modernos em prol dos tradicionais, aqueles que rodam na área de trabalho clássica.

Cerca de 60% dos usuários de Windows 8 em sistemas sem tela sensível a toques abre menos de um app moderno por dia a cada semana. Em equipamentos touchscreen, esse perfil responde por 44% dos usuários analisados — melhor, mas ainda preocupante se levarmos em conta que a interface ideal, a tela que aceita comandos, está presente.

De quem é a culpa? Não dá para apontar o dedo para uma única causa. Na verdade, é uma série de fatores compartilhada entre Microsoft, desenvolvedores, fabricantes. A própria ideia inicial da Microsoft, de contemplar cenários tão distintos em um único sistema, dispersa a atenção, fragmenta a experiência e joga contra todos os esforços, sejam quais forem, em promover apps modernos.

Para a Microsoft, não ter o Firefox para Windows 8 é um forte sinal de desconfiança em relação à plataforma. Mas nem sempre ter a atenção dos concorrentes é exatamente bom. Em uma das últimas versões do Chrome, o Google se aproveitou de uma abertura nas políticas do sistema exclusiva para navegadores e recriou, dentro do Windows 8, o Chrome OS. Como um cavalo de Troia, o Chrome pode ser tudo o que o usuário vê no sistema, caso ela queira limitar-se a isso.

Ser ignorado ou servir de base para um sistema concorrente? Ambas as opções são indigestas e, alguns poucos anos atrás, impensáveis para o Windows. O mundo dá voltas, e rápido.

IrfanView, o melhor app para ver imagens no Windows

IrfanView.

Minha barra de tarefas no notebook tem três ícones fixos: Windows Explorer, navegador padrão e um que, reza a lenda, é um gato vermelho atropelado na estrada. Esse último é o indefectível ícone do IrfanView, um simpático visualizador de imagens para Windows.

Não lembro quando exatamente descobri o IrfanView, só me recordo vivamente de ter simpatizado com o app logo de cara. Sua função, pelo menos superficialmente, é simples e limitada: abrir imagens. Fosse só isso ele já seria sensacional: é difícil surgir um formato que o IrfanView seja incapaz de lidar e, mesmo nesses casos, geralmente um plugin resolve a incompatibilidade.

Só que ele faz muito mais que isso.

Fruto do trabalho de um homem só, o bósnio Irfan Skiljan, o IrfanView (daí o nome) expandiu sua área de atuação ao longo de quase duas décadas de desenvolvimento ativo. Hoje, em meio a interfaces animadas e softwares cada vez mais pesados, segue fiel às premissas iniciais. É um app rápido, confiável e que faz muito mais além de abrir imagens. Um exemplo que, com este post, homenageio e agradeço os anos de companhia e bons serviços prestados. E aproveito para apresentá-lo a quem, por acaso, ainda não o conheça.

Quem precisa de Photoshop quando se tem o IrfanView?

Um monte de ícones do IrfanView.

Ainda que não tenha a pretensão de ser um editor de imagens completo, o IrfanView oferece, através de menus e dezenas de teclas de atalho no teclado, recursos simples do tipo.

Para quem apenas arranha a superfície do Photoshop, talvez esses recursos limitados do IrfanView bastem. Para mim, em grande parte das situações, eles são suficientes.

Mesmo usando-o há anos, eu ainda não me aventurei por todos os cantos do IrfanView. Alguns comandos, porém, são sempre usados por aqui e já foram incorporados no meu dia a dia.

Os favoritos da casa:

  • Com um Shift + G abro uma caixa de diálogo para fazer ajustes no brilho, contraste, saturação e correção gama.
  • Uma foto levemente borrada pode ser salva com um Shift + S (sharpen).
  • Rotacionar imagens é bem simples, basta usar as teclas R (à direita) e L (à esquerda).
  • O mesmo vale para o redimensionamento, acessível via Ctrl + R.
  • Com o mouse, posso selecionar partes da imagem e fazer recortes simples.
  • As teclas “mais” e “menos” dão/tiram zoom e com um Shift + O volto ela à proporção 1:1.
  • A tecla S salva uma nova imagem; Ctrl + S salva a mesma imagem com o mesmo nome.

Existem outros comandos, outras funções que dependendo do seu estilo de trabalho podem ser úteis — inserção de marca d’água, espelhamento, correção de cores, filtros de imagem e até ferramentas de desenho (F12). Atalhos comuns a aplicativos Windows, como Ctrl + Z/Y para desfazer/refazer e Ctrl + X/C/V para recortar/copiar/colar também funcionam. Os menus são bem organizamos e quase toda ação que afeta a imagem tem uma combinação de teclas correspondente. Dominá-las significa trabalhar com mais agilidade.

Em paralelo ao app principal, o IrfanView vem com um editor de imagens em lote. Selecione a pasta ou as imagens, aperte B para abrir a tela de configurações, defina os parâmetros que quer alterar em massa (tamanho, formato, nome dos arquivos), selecione as imagens e deixe o computador trabalhando. Economiza muito tempo.

Apreço pela eficiência

Irfan Skiljan.
Foto: Arquivo pessoal.

O monte de coisas que o IrfanView faz, e não é pouco, consome poucos recursos do computador e mesmo em configurações modestas não toma tanto tempo. Irfan, o criador e mantenedor do IrfanView, é um aficionado por eficiência.

Em um papo que tivemos por email, perguntei a ele como o IrfanView consegue ser tão ágil e, ao mesmo tempo, ganhar novos recursos versão após versão. Sua resposta:

“Tenho a minha própria filosofia sobre como um software deve ser… Também gosto de programas pequenos e estáveis. A ideia é não adicionar todos os recursos possíveis. (…) E quando novos recursos são acrescentados, eles devem ser compactos e o código, otimizado. A maioria dos desenvolvedores e empresas não se preocupa mais com coisas do tipo, é triste.”

Irfan trabalha exclusivamente no IrfanView, eventualmente dividindo sua atenção com alguns projetos em outras empresas. Ele vive na Áustria desde 1992, para onde foi refugiado da Guerra da Bósnia, e estudou computação na Universidade de Tecnologia de Viena.

Foi durante a graduação, três anos depois de mudar de país, que a necessidade de um pequeno visualizador de imagens em JPG o levou a criar o embrião do IrfanView. Seus colegas gostaram e deles veio o incentivo para aperfeiçoá-lo. Dali em diante o app cresceu — apenas em fartura de recursos, já que até hoje ele continua enxuto, com um instalador de menos de 2 MB.

Janela de 'Sobre' do IrfanView.

Mesmo após todos esses anos, o IrfanView continua recebendo atualizações regulares. Durante a trajetória do seu app, Irfan teve que lidar com copiadores, um grande problema nos primeiros anos — segundo ele, o IrfanView e o ACDSee eram “inspirações” para muitos clones pagos que lucravam às custas do seu trabalho — e acompanhar a evolução do Windows. Era uma época diferente, em que o sistema da Microsoft era a coisa mais popular da tecnologia de consumo. Com o tempo os clones sumiram.

Nesse ponto perguntei a ele se um IrfanView moderno, para o Windows 8, estava nos planos:

“Um novo design? Talvez algum dia, nunca fui muito fã de hypes ou interfaces ‘descoladas’… Um programa precisa ser pequeno, rápido, confiável e fácil de usar, ‘visual legal’ não é importante para mim. O que conta mais é o que está dentro, da mesma forma que para pessoas.”

Ele prefere a usabilidade do Windows XP e não acha o “visual m(r)etro” (rá!) do Windows 8 muito moderno.

O IrfanView é gratuito e uma prova de que a negligenciada arte da otimização é capaz de produzir bons frutos — disputar as primeiras posições de listas de apps mais baixados da semana, como a da CNET, e figurar a de apps para Windows imprescindíveis em 2013 no The Verge são alguns reconhecimentos desse empenho.

Hoje vemos apps para celular, antes focados e otimizados por limitações das plataformas móveis, crescerem não no melhor sentido da palavra, virando bloatwares. Fazendo um contraponto a essa cultura quase cíclica, este pequeno visualizador de imagens, feio e com um ícone esquisito, segue pequeno e ágil. Acho que dá para tirar algumas boas lições disso.

Os equipamentos e apps que uso, 2014

Por mais simples que seja uma operação, ela demanda instrumentos, padrões e um workflow minimamente estruturado. É assim com o Manual do Usuário: um blog de um homem só, um homem preparado para ler, escrever, fotografar e filmar.

É bem comum usarmos momentos de ócio no fim do ano para reavaliarmos partes da vida, refletir onde erramos e onde acertamos e, nessa, fazer pequenos (ou grandes) ajustes. Resolvi usar parte desse tempo para contar a vocês o que uso (ou pretendo usar em 2014) no trabalho que desempenho aqui. Além de útil, quero também trocar figurinhas nos comentários, descobrir apps, equipamentos etc. É um post com segundas intenções :-)

Dividi o texto em três partes. Na primeira, dispositivos móveis. Quais estou usando, como, e que apps mais abro no dia a dia.

A segunda, computadores. Sim, essas coisas antiquadas mas ainda insuperáveis na hora de botar a mão na massa e mostrar resultados.

Por fim, equipamentos auxiliares — basicamente com o que e como faço fotos e gravações.

Detalharei alguns pontos ainda nebulosos, a minha ideia é um papo sincero contigo — incluindo aí dúvidas e ignorâncias. No geral, porém, meu workflow hoje é bem enxuto e direto, e deve ser essa a parte mais interessante a você.

Smartphones e tablet

Em 2014, irei de iPhone 5.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Passei por 2013 usando um Nexus 4 como smartphone principal e um iPad 2. Para o ano que começa, uma substituição: sai o smartphone Android, entra um iPhone 5.

Já tinha visto e mexido rapidamente em vários iPhones, mas nunca tive um como aparelho principal. Será um exercício legal e, como meu perfil de uso é bem eclético — confio mais em soluções multiplataformas do que nas soluções integradas e fechadas das fabricantes –, até agora a transição tem sido suave. A maioria dos apps está presente nas duas plataformas ou tem equivalentes.

Disclaimer: Além do iPhone 5 e do Nexus 4, também estou com um Lumia 920. Não virei traficante, nem quero ostentar. A ideia é acompanhar a evolução e novos apps das três principais plataformas móveis.

Até agora ocupo apenas duas telas iniciais no iOS — descontados os apps da Apple, todos devidamente largados em uma pasta.

Como smartphone e tablet usam o mesmo sistema, a lista abaixo vale para ambos, ainda que os usos deles sejam bem distintos. O iPad é minha tábua de leitura e consulta “sofazística” de redes sociais. Eventualmente vejo alguma coisa no Netflix e brinco com jogos, mas esses últimos têm sido cada vez mais raros. O iPhone é… bem, é um celular. É o gadget que mais uso, disparado, dentro e fora de casa.

Os apps que me acompanham são:

Chrome e Gmail

Mesmo com o desempenho em JavaScript afetado por limitações do iOS (ou da Apple), acabo usando o Chrome pela sincronia que ele proporciona — meus computadores rodam Windows. Não importa onde use o Chrome, a experiência é sempre bastante consistente, e isso é importante.

O Gmail uso pela patricidade e usabilidade superior à do app de email padrão do iOS. A exemplo do navegador, é outro caso onde suprimo a velocidade em prol de outras vantagens. Não reclamaria, porém, se o Google agilizasse a abertura do Gmail…

Newsify

Para ler feeds, é a minha opção. Três aspectos me agradam muito no Newsify: a tipografia acertada, a navegação por gestos e o modo tela cheia. São suficientes para ignorar a sensível lentidão apresentada no iPad 2 ante concorrentes como Mr. Reader e Feedly — ambos bem legais também.

Pocket

É bem melhor ler um longo artigo sentado ou deitado no sofá do que na minha mesa de trabalho, encarando o notebook. Para tanto, apps do tipo “leia depois” são indispensáveis. A minha escolha é o Pocket: ele é rápido, tem uma boa tipografia e alguns recursos sociais que encontram o difícil equilíbrio entre utilidade e ruído.

Recentemente dei uma chance ao Instapaper, é um belo app também. De lá, gostei muito do refinamento da interface e dos filtros por tempo — dá para, por exemplo, puxar artigos que podem ser lidos em menos de cinco minutos, algo bem útil para matar o tempo sem correr o risco de deixar um post lido pela metade.

Pocket e Newsify são, de longe, os apps que mais uso no iPad. Tenho ambos instalados no iPhone também. Vez ou outra abro-os no smartphone.

Simplenote

Rápido, com sincronia com a nuvem e cheio de apps para diversas plataformas (até web), o Simplenote é a minha escolha na hora de fazer anotações. Uso ele para tirar da cabeça ideias de posts, anotar referências e links para pautas em andamento e escrever mesmo os posts em Markdown — é bem mais confortável que usar uma barra de atalhos ou marcações em HTML.

Tweetbot 3

Não sou o que se consideraria um heavy user de Twitter, tanto que sempre me virei bem com o app oficial. Isso até a última atualização que colocou DMs em destaque e as menções em um ícone de notificações. Ela é desastrosa, para dizer o mínimo.

Em vez de chateá-lo apontando tudo o que há de errado com o app oficial do Twitter (é muita coisa), vamos falar algo bom, do Tweetbot. Apresentação linda, animações suaves, diversos gestos… Vale cada centavo.

No iPad continuo com o app oficial. Ele não mudou e, além disso, o Tweetbot para iPad ainda não foi atualizado para o iOS 7.

Dropbox

Nada de iCloud, SkyDrive ou Google Play. Mantenho os arquivos que preciso no Dropbox, que é acessível e amplamente adotado por desenvolvedores. O bom é que preciso pouco dele já que a maior parte do que faço é na web.

Bônus: desde que ativei o backup automático de fotos no app do Dropbox nunca mais conectei meu smartphone a um computador para passar essas imagens. Mão na roda, e funciona muito bem.

Alguns outros apps que tenho instalado, mas que ainda não explorei ou uso para lazer (em ordem alfabética):

  • Facebook, Instagram, Vine, Tinder, Tumblr: dispensam explicações, né? Tumblr e Facebook em ambos, os demais apenas no iPhone.
  • Facebook Messenger, WhatsApp: são os dois apps de mensagens que uso. Está bom, né? Só no iPhone.
  • Foursquare: assim como o Snapchat, o Foursquare também sofre com problemas de imagem — muita gente acha que é um facilitador para stalkers e ladrões. Não é. Há muito a apreciar ali e as coisas no Foursquare estão crescendo mais e mais. Apenas no iPhone.
  • IFTTT: com muito potencial, devo gastar uma tarde explorando e criando novas receitas — tenho poucas cadastradas, todas muito úteis e eficientes. Apenas no iPhone.
  • Netflix, YouTube: se a TV da sala for objeto de disputas recorrentes, o iPad é a melhor tela que você tem à mão. Netflix apenas no iPad, YouTube em ambos — embora dê para contar nos dedos as poucas vezes em que o utilizei no iPhone; reflexo da falta de integração entre apps do iOS, ponto onde o Android é melhor.
  • Rdio: nunca usei o app de música do iOS — e, no ano passado, do Android. Apenas no iPhone.
  • Snapchat: é divertido, intimista, muito mais que sexting — que, aliás, (in)felizmente nunca recebi. Só no iPhone.
  • Timehop: velho conhecido, deixei de usar quando a versão por email foi descontinuada. Com o iPhone posso, novamente, ler as barbeiragens que publiquei neste mesmo dia em anos anteriores. Sempre uma viagem. Só no iPhone
  • Yahoo Tempo: é um app muito bonito e com informações mais que suficientes para quem só quer saber se vai chover. Apenas no iPhone.

E, sim, tenho alguns joguinhos instalados. No iPad, um punhado de princesas e da Toca Boca para minha afilhada. No iPhone, no momento em que escrevo isso apenas três: Dots, Proust e Triple Town.

Notebook e desktop

Samsung Série 9, fechado.
Foto: Rodrigo Ghedin.

No começo de 2013 reduzi o papel do meu desktop, que é bem poderoso, ao lazer. Conectei ele à minha TV e desde então suas funções se resumiram a Steam e Netflix.

Minha principal ferramenta de trabalho, pois, passou a ser e ainda é o notebook. Tenho um Ultrabook Série 9, da Samsung, de segunda geração. Detalhei-o mês passado, mas resumidamente: é leve, rápido o bastante para quem navega e escreve, tem um bom teclado, um ótimo touchpad e uma tela incrível. É o suficiente para mim.

Ele roda o Windows 8.1 que, apesar de todas as notáveis melhoras em relação ao Windows 8, trouxe algumas chateações. As principais é a imprevisibilidade na reconexão após voltar da hibernação e as configurações do touchpad que se perdem quando o sistema reinicializa, coisas que a essa altura devem ter sido resolvidas por drivers atualizados. Devo tirar uma tarde para mexer nisso, mas é triste ver que o Windows ainda não conseguiu superar esse tipo tão bobo de problema.

Muito do que uso é web-based, então de apps mesmo, são poucos os que tenho instalado:

Chrome

Há quem reclame que o Chrome tenha ficado pesado, lento e instável, seguindo a infectível lei do Geek & Poke. Concordo que ele já foi mais rápido e estável, mas ainda não chegou a um estado tão alarmante que me faça procurar alternativas.

O grande atrativo do Chrome é a comodidade. A Omnibox se adapta muito bem a mim e os dados do meu uso vão para a nuvem e são replicados, sincronizados com outros dispositivos. O motor de renderização é muito bom, o que previne algumas dores de cabeça. Não é algo legal se pensarmos em padrões web e compatibilidade (não era na época do IE hegemônico, não é com o Chrome ou qualquer outro), mas é o que temos, infelizmente.

App de notas secreto

Ainda não posso falar muito deste porque ele não foi lançado. Boa parte do que escrevo passa primeiro por ele. É um app extremamente rápido e confiável de anotações que sicnroniza com o Simplenote — mais uma vez a sincronia com a nuvem e outros dispositivos conta pontos.

Espero poder falar mais desse app em breve. O mundo precisa conhecê-lo!

IrfanView

Este não sincroniza com nada, mas mantém outra característica primordial e compartilhada com outros apps da lista: é rápido.

O IrfanView é um visualizador simples de imagens. Não, é mais que isso. Ele abre um leque enorme de formatos de arquivos e, de quebra, possui pequenos recursos de edição que agilizam muito o trabalho e dispensam ferramentas mais elaboradas, como o Photoshop. Girar, redimensionar, mexer em brilho/contraste/saturação? Para que gastar mais de mil Reais e recursos da máquina se um app gratuito de 1 MB chega aos mesmos resultados?

Audacity

Para editar podcasts, uso o Audacity. É um app gratuito e de código aberto que, embora não seja o mais prático do mundo, apenas… funciona.

É difícil domar algumas funções, a interface não é amigável. Com dedicação e paciência para ver alguns vídeos no YouTube, porém, dá para aprender o básico da edição e fazer coisas audíveis.

7-Zip

Mais um gratuito e de código aberto. O 7-Zip traz, no nome, o formato de arquivo com que trabalha por padrão, e vai além: ele abre um punhado de outros, incluindo ZIP e RAR, e compacta em ZIP. A interface, como é de praxe em apps de código aberto, é espartana, mas ele é (olha aí de novo) rápido e confiável.

Notepad++

Não que eu goste, mas cuidar de (todo) um site exige que eu, às vezes, mexa em código. Coisa simples — HTML, CSS, alterar algum valor em um JavaScript.

O Notepad++, outro gratuito e de código aberto, colore o código, permite abrir vários arquivos em abas, compará-los lado a lado e tem uma busca (com substituição de termos) poderosa.

Possível troca: tenho lido muita coisa boa sobre o Sublime Text. Devo dar uma chance a ele qualquer hora.

Dropbox

Pelos mesmos motivos que o uso no iPhone.

FileZilla

Tal qual o Notepad++, mais um que a manutenção do blog exige que eu tenha instalado. Também gratuito e também open source, é uma ferramenta funcional.

E… bem, é isso. De resto, tenho o VLC que, aqui, raramente uso, o Office 2010, outro que acumula poeira e o Java, desativado quase sempre, ativado apenas para emitir notas fiscais. De apps modernos, do Windows 8, os que uso são o Skype e o Netflix — esse último um raro caso de app não só bom, mas melhor que os de outras plataformas móveis.

Todo o resto

Sony NEX-5R.
Foto: Rodrigo Ghedin. (Esta foi feita com o Lumia 920.)

As fotos e vídeos do Manual do Usuário são feitos com uma NEX-5R, câmera mirrorless da Sony, usando a objetiva padrão, uma 16-50 mm/F3,5-5,6. A qualidade é soberba e o manuseio bem bom, graças aos dois discos que facilitam controles manuais. Sempre rola algum estresse para conseguir foco em fotos próximas (a lente não é adequada para isso), mas essas histórias quase sempre terminam com um final feliz — seja usando o foco manual, seja com o rápido foco automático.

O único acessório que utilizo com a câmera é um tripé. Desses baratinhos, sem marca e, claro, ruins. Ele range e embora seja leve, é também duro, o que dificulta tomadas de transição suaves ao fazer vídeos. Compenso deixando-o de lado e usando objetos incomuns, como potes de margarina, como apoio para conseguir o que quero.

Por fim, utilizo um headset da Microsoft, o LifeChat LX-3000, para gravações de áudio — podcast e as falas que, depois de gravadas e tratadas no Audacity, importo para o software de edição de vídeos. É o segundo que tenho em um intervalo de cinco anos e tirando o controle no fio, grande e desengonçado, de resto ele é bem bom.

Faço a edição dos vídeos no desktop, ligado à TV mesmo. O poder de processamento ultrapassa o incômodo de trabalhar no sofá — por mais confortável que essa frase soe, não é muito legal na prática. O software de edição é o Movie Studio Platinum 12, também da Sony. É uma variante mais simples (e mais barata) do Vegas Studio, com recursos suficientes para o nível de qualidade que almejo.

O tratamento das fotos faço com o IrfanView.


Enquanto escrevia este post me veio à cabeça o longo e doloroso processo pós-reinstalação do Windows a que me submetia alguns anos atrás. É engraçado porque naquela época, com menos responsabilidades e coisas para fazer no computador, instalava bem mais aplicativos — a maioria pouco usada, mas me sentia na obrigação de tê-los à mão. Hoje? Quanto menos, melhor, e esse foco em resultados se reflete até na cara do sistema, que raramente vê um tema ou wallpaper diferente do padrão.

Essa lista não é imutável, estou sempre de olho em novos apps e gadgets que possam, de alguma forma, melhorar o meu fluxo de trabalho. Na minha mira, por exemplo, está um tripé melhor. Existe muita coisa no mercado e a toda hora surgem novidades; é preciso pesquisar e considerar bem novas aquisições. Além do custo, integrar algo diferente à minha rotina precisa ser mais que um mero capricho.

Fico por aqui e reforço o convite para que você, leitor, dê seu pitaco nos comentários.

Imagem do topo: OZinOH/Flickr.

Com o Windows 8.1, a Microsoft tenta novamente levar seu sistema à Era Pós-PC

Como adaptar um sistema com mais de 20 anos para um novo segmento de hardware que tem menos de três? Essa era a missão da Microsoft com o Windows 8: levar seu icônico sistema operacional para o novo mundo de telas sensíveis a toques. O caminho escolhido foi conciliar passado e presente, juntar tudo e oferecer aos usuários um pacote “sem concessões”.

Um ano depois, a aposta não parece ter sido tão bem sucedida. Com o Windows 8.1, lançado oficialmente no mundo inteiro “hoje” (na realidade, amanhã, mas como o parâmetro é a meia noite na Nova Zelândia você já pode baixá-lo), a Microsoft tem à sua frente mais uma chance. Esse hiato foi suficiente para corrigir os problemas da versão anterior?

É difícil avaliar um sistema assim, “2-em-1”, porque é preciso considerar dois cenários bem distintos entre si ou, como espera a Microsoft, um utópico em que eles sejam unificados e trabalhem em harmonia. É sob essa última ótica que a análise abaixo se pauta.

Ignorando a porção moderna, o Windows 8.1 funciona como qualquer outra versão recente do sistema. Não traz nada exatamente novo ou revolucionário, mas funciona — e encare isso como um elogio. Os novos apps em tela cheia, a parte feita para tablets, porém, ainda precisa melhorar. Muito. Mas vamos devagar…

Com o Windows 8.1, você ganha muitas arestas aparadas, mais atenção a detalhes, apps nativos melhorados e mais respeito a quem, por necessidade ou comodidade, prefere ficar na parte “velha” do sistema, na área de trabalho clássica. E o melhor de tudo, sem colocar a mão no bolso.

Atualização gratuita

Quem já roda o Windows 8 pode fazer a atualização gratuitamente via download através da Loja. É só baixar (3,63 GB para a versão Pro) e mandar instalar, como se faz com qualquer sistema da Era Pós-PC.

A atualização aparece na Loja do Windows 8.

Usuários que estão em versões antigas terão que pagar, e pagar bem: o Windows 8.1 custa R$ 410, e a versão Pro, R$ 699. Tanto a versão via download, quanto a física, em “caixinha”/DVD, estarão disponíveis, e elas são completas — ano passado a Microsoft só comercializou, a princípio, versões de atualização do Windows 8.

O processo de atualização varia dependendo da versão pré-instalada:

  • A partir do Windows 7, rola a atualização e todos os arquivos permanecem intactos. O usuário perde apenas os aplicativos instalados.
  • A partir dos Windows Vista ou XP, não tem jeito: o processo de atualização é, na realidade, uma instalação limpa. Faça um bom backup dos seus arquivos antes de começar.

Onde o Windows 8 pecou

A maior parte das críticas ao Windows 8 tinha como alvo a confusa interface moderna. Em configurações dependentes de teclado e mouse, é preciso utilizar os cantos da tela para revelar comandos vitais ao seu funcionamento. Com uma tela sensível a toques, gestos a partir das bordas cumprem esse papel.

Sem indicadores claros, ainda hoje é comum se deparar com usuários de longa data de versões anteriores do sistema que, no comando da penúltima, não conseguem alternar entre aplicativos, ou voltar à Tela Inicial.

Em usabilidade, isso decorre da falta do que se chama “discoverability”, ou seja, a capacidade de uma interface se fazer entender, de ser intuitiva. É uma das premissas de dispositivos baseados em toques: embora criticado e abandonado recentemente pela Apple, o esqueumorfismo do iOS original tinha muitos nuances que reforçavam sua natureza touchscreen, elementos da interface que diziam, sem falar muito, “toque-me, eu faço alguma coisa”. Coisa da qual o Windows 8, em grande parte, carece.

Como o Windows 8.1 tenta corrigir os erros do passado

Que pese a verdade, o Windows 8.1 não resolve por completo esse problema, ele apenas se mostra mais preocupado com o usuário incauto. A nova versão pega na mão de quem o usa pela primeira vez e o conduz em um tour, aparentemente completo, pelas suas estranhas convenções. Itens familiares que retornam e muitos indicadores e tutoriais cumprem esse papel introdutório.

O botão Iniciar, por exemplo, antes oculto por padrão no canto inferior esquerdo e ativável com o passar do mouse, volta a ser fixo. Quem não retorna é o menu Iniciar; a função do botão continua sendo levar o usuário à Tela Inicial, cheia de blocos dinâmicos com informações atualizadas em tempo real.

Bem-vindo de volta, botão Iniciar.

Outra providência tomada pela Microsoft foi a produção de tutoriais em vídeo e flechas destacadas indicando os cantos quentes da interface nos primeiros momentos de uso. Alguém pode encarar isso como uma falha grotesca de design, seguindo a lógica de que indicadores tão explícitos para ações tidas como básicas sinalizam uma interface quebrada para início de conversa. Como seria bem difícil a Microsoft voltar atrás em certas decisões, a mim a mais acertada parece ser mesmo tentar consertar o estrago já feito.

Setas indicam ao usuário os cantos de ação.A impressão, no geral, é de que com o Windows 8 havia uma confiança exacerbada por parte da Microsoft. Confiança de que o sistema venderia feito água como as últimas versões (incluindo até o desastroso Vista que, até o lançamento do Windows 7, já tinha vendido 400 milhões de cópias) e de que as pessoas aprenderiam a usar uma interface bem diferente da qual estavam acostumadas, baseada em gestos e ações incomuns com o mouse. Em seu review, David Pogue revela que um executivo da Microsoft disse algo nessa linha na época do lançamento do Windows 8:

“Se o Windows 8 não for fácil o bastante para ser entendido sem a leitura de telas de ajuda, então nós falhamos.”

Dicas e informações de uso do Windows 8.1.

Pelas mudanças vistas no Windows 8.1, a versão anterior falhou e falhou feio. Nenhum sistema baseado em gestos caiu no gosto popular ainda, e não foi o Windows que conseguiu quebrar essa tradição.

Mais amor ao clássico e à personalização

Deixando de lado a atenção com esse atrasado porém válido adendo à experiência básica do sistema, o Windows 8.1 aposta em refinamentos. Como comentei no hands-on da versão Preview quando ela estava fresquinha, em junho, a porção moderna está mais rica em recursos e parece mais madura.

A primeira leva desses novos apps era vergonhosamente limitada. A nova ainda não parece fazer frente aos apps clássicos em utilidade e desenvoltura, mas é definitivamente mais robusta, a ponto de a Microsoft classificar o app de email nativo, um dos mais criticados (e com razão), como “a melhor experiência de email em um tablet”. O de fotos agora permite edições simples, e há novos e bem-vindos apps, dos básicos (calculadora, alarme, gravador de áudio) a uns bem peculiares (lista de leitura, um de receitas, outro controverso de saúde). O sistema como um todo está mais atraente e flexível, o que, para um negócio tão largamente usado e com tantos perfis diferentes no comando, é algo bem-vindo.

Temos os tutoriais, o botão Iniciar de volta, apps nativos mais robustos. Vale destacar, também, os novos itens de personalização. Em um ano de Windows 8, raras foram as vezes em que me aventurei pela porção moderna do sistema — e esse cenário, pelo menos com usuários com quem converso vez ou outra, gente mais próxima, está longe de ser exceção.

A área de trabalho clássica, no Windows 8, parece uma coisa desleixada, uma parte renegada que a Microsoft teve que engolir para não afetar tanto clientes corporativos. No mundo real, ela deve ter visto via telemetria e em pesquisas de opinião que, não, ainda não é a hora de abdicar dela. Sendo assim, é bom ver mais amor ao clássico no Windows 8.1.

Novas opções amigáveis para a área de trabalho clássica no Windows 8.1.

De pronto, duas mudanças tornam a integração clássico-moderno mais suave. O papel de parede da área de trabalho pode, agora, ser replicado no fundo da Tela Inicial. É um detalhe quase bobo, mas que une sutilmente duas partes do sistema tão distintas em todos os demais. Outro bacana é a possibilidade de entrar direto na área de trabalho após o logon. Isso pode relegar a Tela Inicial a um ostracismo ainda maior àqueles que só clicam no bloco da área de trabalho após ligar o equipamento, mas de qualquer forma é bom ver a vontade do usuário prevalecer.

A Tela Inicial também recebeu melhorias. Novas animações para o fundo, flexibilização do padrão de cores para a interface, dois novos tamanhos para os blocos. A exibição de apps em lista pode ser definida como padrão, um formato mais funcional para mouse e teclado. Nada muito drástico, mas pequenas mudanças que agregam.

Novos tamanhos para os blocos dinâmicos no Windows 8.1.

Apps modernos podem ser colocados lado a lado nas proporções que o usuário quiser, e mais de dois dividem a tela numa boa — dependendo da resolução que você usar. As amarras foram afrouxadas, e os supostos problemas que levaram a Microsoft a engessar tanto o Windows 8 não se verificam na prática. Tudo bem, tudo bem: às vezes o redimensionamento de um app fica estranho (Twitter, por exemplo), mas isso é Windows. Você pode fazer o que quiser, só que sem a garantia de que tudo vá funcionar como o desejado. Melhor que seja assim.

As peças mais importantes: SkyDrive e Bing

Sempre achei o SkyDrive um negócio muito legal e pouco aproveitado pela Microsoft. De um ano para cá, a empresa vem dando mais atenção ao serviço. E não é por menos: se ser uma empresa de serviços e produtos é o novo foco da Microsoft, ter uma solução “tudo-em-um” na nuvem é essencial.

No Windows 8.1, o SkyDrive vira o local padrão para salvar arquivos. O app moderno é o Windows Explorer moderno. Ele vem pré-instalado, melhor integrado na porção clássica do sistema (nada de dois apps para a mesma coisa) e usa um mecanismo pra lá de genial chamado Smart Files que borra as linhas que separam o armazenamento local do na nuvem.

Com os arquivos inteligentes, o SkyDrive torna indexável todo o conteúdo existente em sua conta, na nuvem, sem que eles estejam armazenados localmente. Arquivos na nuvem são sincronizados parcialmente, apenas com pré-visualizações (imagens) e meta dados, habilitando pesquisas e outras atividades gerenciais. Quer usar um? Abra-o e o sistema fará o download instantaneamente, liberando o acesso offline. Vai ficar longe da Internet e precisará de um arquivo específico? Clique com o botão direito e marque-o para estar disponível nessa situação.

Em desktops, com HDs que extrapolam a casa do tera byte, não é algo de muito impacto, mas em tablets com até 16 GB, isso pode vir a calhar. Conceitualmente é um mecanismo similar ao do Google Play Music, app/serviço do Google para Android que faz um cache dinâmico das suas músicas armazenadas na nuvem.

Pesquisas completas e contextualizadas com o Bing.

O Bing Smart Search é o equivalente ao Spotlight, da Apple, no universo Windows. Ele pesquisa conteúdo local, na nuvem, na web, contextualiza e faz umas tabelinhas espertas com apps como o Xbox Music, SkyDrive e o da Wikipedia. A exemplo de todo mecanismo de busca em sistemas modernos, ele deixou de ser um app dedicado para ser embutido no sistema. Quer usá-lo? Abra a Charm bar e comece a digitar. Como deveria ter sido desde o começo.

Está bom, mas pode ser melhor

Não tem sido raro ver produtos chegando ao consumidor precocemente, sem a lapidação que se espera de um lançamento comercial. A Microsoft teve três anos para construir o Windows 8 a partir do 7, mas ainda assim parece ter faltado tempo. Um ano a mais, esse ano gasto para a realização do Windows 8.1, poderia ter sido útil para uma recepção menos azeda. Recepção essa que pode sair cara para a Microsoft: dá para recuperar a confiança perdida? Ou a primeira impressão é a que fica?

Tela Inicial do Windows 8.1.
Foto: Rodrigo Ghedin.

As reclamações dos usuários devem ter tido um papel importante no processo de atualização para o Windows 8.1, logo é provável que nem com todo o tempo do mundo a Microsoft acertaria de primeira. Agora, com atualizações aceleradas, lançadas anualmente, ainda há muito trabalho a ser feito. Mesmo melhor com o lançamento de hoje, frente a iOS e Android o Windows ainda fica devendo.

Agradar a usuários de notebooks e computadores e, ao mesmo tempo, de tablets, é difícil. São cenários diferentes e, um ano depois, sejamos francos: essa história de sistema sem concessões é simplesmente ruim. Existem concessões, várias delas, e os passos que o Windows 8.1 dá para trás a fim de agradar usuários insatisfeitos confirmam essa teoria. É um diferencial de mercado, e um bem curioso, mas como discutia dia desses no Twitter, não é por ser um diferencial que uma decisão de design se torna necessariamente boa para quem importa, ou seja, para mim e para você.

Talvez estejamos em uma era primitiva, em uma equivalente ao que o Android era até 2011, ou à que o próprio Windows foi antes do XP. De repente, com SoCs poderosos em equipamentos leves e confiáveis, daqui a dois, três anos o que o Windows 8 se transformar será a melhor solução para o consumidor médio. Hoje, ele se apresenta como um sistema confuso, tentando conciliar dois universos muito distintos entre si, trazendo mais dor de cabeça do que vantagens para consumidores, de desktops/notebooks e de tablets/telas sensíveis a toques.

Se você tiver grana para um bom ultrabook e um tablet, os dois separados, vá com esse combo. É uma solução bem mais acertada e confortável de usar do que um híbrido desengonçado com Windows. E se nem o Surface, carro-chefe da plataforma feito por quem faz o software, impressiona, o que esperar dos demais?

O Windows 8.1 dá passos firmes na direção certa, resolve várias complicações da versão anterior, mas ainda sofre de decisões de projeto impossíveis de serem mudadas agora. O ritmo anual de atualizações e essas com a promessa da gratuidade formam uma base sólida para que as mudanças necessárias sejam implementadas, mas talvez o problema seja mais profundo, talvez seja irremediável. O futuro pode ser promissor, mas o presente, embora melhor, ainda não convence.

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