Pessoa de sexo não identificado, com cabelo roxo e pele azul, segurando uma xícara de café com vários ícones em alusão ao Manual do Usuário na fumaça e um celular na outra mão. Embaixo, o texto: “Apoie o Manual pelo preço de um cafezinho”.

Astrologia genética

Astrologia genética, por Natalia Pasternak n’O Globo (talvez tenha paywall):

E por que as aspas [em “terras ancestrais”]? Porque os testes não podem ser levados a sério. Não há como, empregando a metodologia dessas empresas, aferir com precisão a ancestralidade de alguém. 99,9% do nosso genoma é igual ao de qualquer outro ser humano. O que essas empresas fazem é pegar essa pequena fração de diferença, e comparar com bancos de dados. Usam-se regiões do genoma onde se sabe que existem variações de um indivíduo para outro, e essas regiões são comparadas a pedaços de DNA de de origem geográfica conhecida. Isso quer dizer que os bancos de dados contêm amostras de genomas “típicos” da Itália, ou da Espanha, etc. Mas como saber se as amostras de referência são mesmo típicas? Primeiro problema: o banco de dados é autorreportado, são os doadores que se declaram isso ou aquilo. Não há como checar se aquele 0,1% de DNA variável realmente representa o que se vê num país. Então, a interpretação de “DNA originário da Irlanda” é no máximo, uma aproximação: o que permite é dizer é que o DNA do cliente é parecido com o de irlandeses que contribuíram para aquele banco de dados específico.

O marketing macabro do Apple Watch

Quando a Apple revelou o oxímetro presente no Apple Watch Série 6, em setembro de 2020, o fez de maneira elegante (ou precavida), sem mencionar em momento algum a pandemia de Covid-19. Um dos sintomas mais graves da doença é o comprometimento dos pulmões. A evolução do quadro é feita com o auxílio do oxímetro, um pequeno dispositivo preso ao dedo do paciente capaz de detectar o nível de oxigenação no sangue.

Faltou elegância, tato e sensibilidade no último comercial do Apple Watch Série 7, publicado no último sábado (1º). Na peça de um minuto, ouvimos (em inglês) três ligações a serviços de emergência feitas pelo Apple Watch por três usuários do relógio que se viram em situações de vida ou morte: uma que capotou o carro e está prestes a se afogar; um que estava surfando e foi levado pelo vento oceano adentro; e um que caiu e fraturou a perna, sozinho em uma fazenda.

Nenhum ser humano aparece no comercial. Em vez disso, vemos apenas paisagens vastas, etéreas — uma estrada no entardecer, o oceano e um descampado —, que intensificam o isolamento e a sensação de desespero inerente aos diálogos.

Ao final, a Apple diz: “Com a ajuda dos seus Apple Watches, Jason, Jim e Amanda foram resgatados em minutos.”

A mensagem, explícita, é que você pode literalmente morrer sozinho se não tiver um Apple Watch no braço, um produto de luxo, vale lembrar, que no Brasil custa no mínimo R$ 2,6 mil (na versão mais defasada à venda, a Série 3; ou R$ 5,7 mil na Série 7, a mais atual).

É um tipo de marketing macabro, de extremo mau gosto e, o que é pior, enganoso: o recurso milagroso que salvou as três pessoas foi a boa e velha ligação telefônica, coisa que qualquer celular, até aqueles de R$ 100, fazem.

O Apple Watch encontrou sua vocação como dispositivo de saúde, com muitas histórias de consumidores que detectaram problemas cardíacos com a ajuda do relógio. Geração após geração, a Apple inclui mais sensores e cria novos recursos de saúde e bem-estar, e não faz muito tempo passou a posicionar o Apple Watch como monitor para estudos científicos e uso em hospitais.

Não surpreende que, mais uma vez, a indústria proponha a solução de um problema coletivo — a saúde pública, no caso — no campo individual, de modo excludente e lucrativo. Se você não tem dinheiro para um relógio da Apple ou não se interessa por ele, azar. Morra aí sozinho.

As pessoas salvas pelo relógio inteligente, em número reduzido a ponto de poderem ser catalogadas e festejadas em coberturas individualizadas pela imprensa, talvez pudessem descobrir esses mesmos problemas pela via tradicional, com exames regulares, fossem esses mais difundidos e, no caso dos Estados Unidos, mais acessíveis.

E nem entramos na paranoia que o Apple Watch gera. Em um estudo publicado em setembro de 2020, apenas 10% das pessoas que procuraram atendimento médico após serem alertadas pelo relógio da Apple de que havia algo errado com seus corações acabaram descobrindo que de fato tinham um problema cardíaco.

Elizabeth Holmes, da Theranos, é condenada por fraude e conspiração

Saiu nesta segunda (3) o veredito do julgamento de Elizabeth Holmes, fundadora e CEO da Theranos, startup do Vale do Silício que prometia revolucionar o mercado de exames médicos, levantou quase US$ 1 bilhão de gente rica e poderosa e, no fim, era uma enorme fraude desmascarada por reportagens de John Carreyrou no Wall Street Journal. O júri considerou Elizabeth culpada de três acusações de fraude e uma de “conspiração para fraudar investidores”. Ela pode pegar até 20 anos de prisão. A sentença ainda não foi proferida e não tem data marcada. Via BBC Brasil (com um bom histórico do caso) e The Verge (em inglês).

Droga Raia e Drogasil desistem de pedir biometria para liberar descontos

A Raia Drogasil, dona das farmácias Drogasil, Droga Raia e Onofre, interrompeu a coleta da impressão digital após ser questionada pelo Idec e pelo Procon-SP. O dado, considerado sensível pela legislação brasileira, era pedido com base nela própria: atendentes das lojas eram orientados a justificar o pedido impressão digital por tratar-se de uma suposta exigência da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O condicionamento de generosos descontos à cessão da impressão digital deixava muita gente sem alternativa, mesmo sendo “opcional”.

A LGPD prevê situações excepcionais e específicas para a coleta de dados sensíveis em seu artigo 11. Em nota, ao tentar explicar a necessidade de uma farmácia coletar a impressão digital dos clientes, a Raia Drogasil foi evasiva: “O uso da identificação biométrica ocorreu com o único objetivo de garantir a praticidade e a segurança desse processo.” Via Uol Tilt.

No futuro, Apple Watch poderá ter medidores de glicose e álcool no sangue

O caminho é longo, mas venha comigo. A Rockley Photonics, uma startup do Reino Unido, enviou a papelada à SEC, nos Estados Unidos, para abrir seu capital em Nova York. No material, a Rockley revelou que sua maior cliente é a Apple. A startup é especializada em desenvolver “sensores ópticos não-invasivos”, aqueles usados no Apple Watch para aferir dados biométricos do usuário.

Dito isso, e considerando a escala do Apple Watch e a importância da Apple nos balanços da Rockley, já se especula que o relógio da Apple deva ganhar, no futuro próximo, recursos como medidores de pressão sanguínea e dos níveis de glicose e álcool no sangue. O Apple Watch se torna cada vez mais um robusto auxiliar de saúde preventiva àqueles que podem comprar um — o mais barato no Brasil neste momento, o Series 3, sai por R$ 2,6 mil (e precisa de um iPhone para funcionar) . Via MacRumors (em inglês).

Relógios inteligentes podem detectar COVID-19 no período pré-sintomático

Pesquisas independentes descobriram que relógios inteligentes, como o Apple Watch, conseguem detectar a COVID-19 no período pré-sintomático, ou seja, antes do infectado apresentar sintomas. A variabilidade da frequência cardíaca é o que aponta a infecção: variações muito elevadas coincidem com o dia da infecção. Não confundir com frequência cardíaca acelerada; são duas métricas distintas. Nos aplicativos, a variabilidade da frequência cardíaca costuma ser indicada pela sigla HRV. Via CBS News (em inglês).

5,05% dos brasileiros baixaram o app que avisa quem teve contato com infectados pelo coronavírus

No início da pandemia, Apple e Google se uniram para criar um sistema de rastreamento de contatos (depois, rebatizado para notificação de exposição) em celulares a fim de ajudar a identificar e isolar pessoas que tiveram contato com infectados pelo SARS-CoV-2, o novo coronavírus. Apesar do esforço, quase um ano depois a sensação geral, aqui e lá fora, é de que a solução “prometeu muito e não entregou” (em inglês).

Parte dessa promessa não cumprida tem a ver com a baixa adesão dos usuários. Estudos apontam que, para ser eficaz no controle da pandemia, pelo menos 60% dos habitantes de um país precisam baixar e usar o app oficial compatível com o sistema da Apple/Google, mas que mesmo adesões mais modestas, na casa dos 20%, ainda têm impacto positivo na luta contra a COVID-19. O problema é que nem mesmo essas porcentagens menores foram alcançadas na maior parte do mundo.

No final de dezembro, pedi ao Ministério da Saúde os números da notificação de exposição no Brasil. (Por aqui, cabe sempre lembrar, o recurso está embutido no app Coronavírus SUS.) Segundo a pasta, até 21 de dezembro o app teve 1,99 milhões de downloads no iOS e 8,7 milhões de downloads no Android, ou seja, 10,69 milhões de downloads (que não é o mesmo que usuários ativos), ou 5,05% da população brasileira.

Questionei, ainda, se havia números relacionados à notificação de exposição no país, como o de alertas emitidos. Em resposta, o Ministério da Saúde informou que “as notificações de exposição aos usuários são realizadas uma vez ao dia”, e que “para manter os usuários seguros, a apreciação do quantitativo de notificações ainda não estão sendo divulgadas.”

Esta é uma daquelas situações que explicitam as limitações da tecnologia ao lidar com problemas complexos de ordem social, neste caso potencializadas pela divulgação tímida do app, talvez fruto do descaso do governo federal no enfrentamento da pandemia. Para piorar, a notificação de exposição tem um impacto severo na autonomia dos celulares — no meu, um iPhone 8 com três anos de uso, ele devora ~17% da bateria.

Vazamento de senha do Ministério da Saúde expõe dados de 16 milhões de pacientes de COVID-19

Inacreditável o vazamento de dados de 16 milhões de pacientes de COVID-19, revelado pelo Estadão. O funcionário do Hospital Albert Einstein confirmou à reportagem que enviou a planilha com senhas ao seu perfil no GitHub como parte de um teste e que esqueceu de removê-la. Hospital e Ministério da Saúde vão apurar o caso, e talvez a primeira pergunta a ser feita é por que uma senha importante dessas estava salva em texto puro numa planilha. Via Estadão.

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