Privacidade é a nova norma no Facebook

Na Slate, Will Oremus repara na guinada pela qual o Facebook passa. De defensor da abertura e do fim dos segredos, agora o site abraça e estimula a privacidade.

Em resposta a um investidor, quarta-feira passada, que questionou se o Facebook estaria passando por tal mudança, Mark Zuckerberg disse:

Uma das coisas em que mais focamos é criar espaços privados para as pessoas compartilharem coisas e terem interações que não poderiam ter em outros lugares.

Embora seja creditado como um dos fatores do seu sucesso, o histórico da rede social nunca foi abalizado pela privacidade — lembra do papo de que o público é a nova regra, de 2010? Só que estamos em 2014 e a julgar pelas últimas investidas do Facebook, parece que a abordagem lá dentro mudou. Recapitulando:

A declaração e essas ações demonstram, de fato, uma mudança de posicionamento. Além de estar na moda graças a apps como WhatsApp, Whisper e Snapchat (que, mais de uma vez, o Facebook tentou copiar), essa visão renovada sobre o que até pouco tempo era visto como vilão pode ser explicada por uma epifania que deve ter ocorrido lá: de repente Mark descobriu que não precisa de informações públicas para minerar dados, basta apenas que elas sejam geradas em suas plataformas. (Coisa que, aliás, o Google sabe desde 2004 com o Gmail.)

Oi é multada pelo Navegador, da Phorm. Antes tarde do que nunca?

A parceria da operadora Oi com a empresa Phorm, que tem sede em Londres, para utilização de uma ferramenta de identificação de preferência dos usuários na internet para fins publicitários está levantando dúvidas nos órgãos federais que avaliam ou monitoram o assunto. O tema está sob análise tanto do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) quanto do Ministério da Justiça […]

O parágrafo acima é de uma notícia de 2010, mas somente nesta semana a Oi foi multada em R$ 3,5 milhões por ferir os princípios da boa fé e transparência na oferta do Navegador, uma tecnologia da inglesa Phorm que monitora os hábitos de navegação do usuário de banda larga para construir perfis de consumo e vendê-los a empresas de publicidade.

A parceria entre Oi e Phorm terminou em março do ano passado. A Oi disse que recorrerá da multa.

LG apresenta o KizON, um gadget vestível para monitorar crianças

Kaylene Hong, no The Next Web:

O KizON é projetado principalmente para pais monitorarem a localização de seus filhos em idade pré-escolar e no Ensino Fundamental. Usando GPS e Wi-Fi, a pulseira consegue fornecer informações de localização em tempo real a um smartphone, de modo que os pais saibam onde seus filhos estão.

O KizON também tem um botão “Discagem Em Um Passo”, que permite aos pais entrarem em contato com seus filhos facilmente. Se a criança não atender a ligação de quaisquer números pré-definidos em 10 segundos, o KizON completa automaticamente a chamada para que o pai consiga ouvir o que se passa através do microfone embutido. As crianças também podem discar para um número pré-configurado caso precisem falar com um adulto.

É uma variante interessante dentro da tendência de gadgets vestíveis e, junto a eventuais dispositivos que miram o público idoso, tem hoje mais aplicação prática do que as soluções generalistas, como as que usam Android Wear.

Não sou pai e talvez isso limite o meu julgamento a ponto de suscitar tal debate, mas me chama a atenção esse monitoramento precoce, especialmente o microfone que entra em ação mesmo contra a vontade da criança. Para as novinhas, nada muito grave, mas crianças no Ensino Fundamental me parecem já ter alguma vida própria e a percepção de, com esse trambolho no pulso, estarem sendo monitoradas.

Andar com o KizON não poderia, de alguma forma, naturalizar ou relativizar a ideia de vigilância constante  nessas crianças e, por consequência, diminuir a importância que a privacidade teria quando chegarem na fase adulta?

As pesquisas em redes sociais financiadas pela Darpa

Ben Quinn e James Ball, no Guardian:

Pouco antes da controvérsia do Facebook emergir, a Darpa publicou uma longa lista de projetos financiados sob o programa SMISC (Comunicação Estratégica em Mídia Social), incluindo links para os resumos e papers completos.

A lista de projetos inclui um estudo sobre como os ativistas do movimento Occupy usaram o Twitter, bem como um apanhado de pesquisas de monitoramento de memes na Internet e algumas sobre a compreensão de como o comportamento de influência (curtir, seguir, retuitar) acontece em um grupo de plataformas de mídias sociais como Pinterest, Twitter, Kickstarter, Digg e Reddit.

A reportagem faz uma boa recapitulação de projetos fascinantes (e meio assustadores) da Darpa e especifica alguns dos divulgados nessa lista. Desses, destaque para dois: um, com a participação do Facebook, que analisou como as pessoas assimilavam e consumiam informações no Twitter. Outro, sobre o espalhamento de informações no Twitter, por incitar comportamentos através da interação direta em vez de apenas observar os pesquisados.

Pesquisas do gênero não são novidade, nem nada do outro mundo. No Brasil, nomes como Alex Primo e Gabriela Zago há anos analisam comportamentos em redes sociais, especialmente no Twitter, e escrevem artigos a respeito. Só que no caso das pesquisas financiadas pela Darpa, há um ingrediente extra que pode azedar a mistura: a finalidade.

Pode parecer roteiro de filme B dos anos 1980, mas suspeitas reforçadas pelos vazamentos de Edward Snowden, ano passado, apontam que as agências de inteligência podem estar usando os resultados dessas pesquisas para propaganda governamental, propagação da desinformação e outras práticas questionáveis.

Em janeiro de 2012, a política de uso de dados do Facebook não continha a palavra “pesquisa”

Ótimo achado de Kashmir Hill, da Forbes:

Críticos disseram que o Facebook deveria obter o “consentimento” [dos usuários] para um estudo desses — perguntar às pessoas se elas aceitariam ser parte de um estudo e então dizer a elas posteriormente o que estava sendo estudado. Defensores disseram, “Hey, o feed de notícias é manipulado o tempo todo. Qual a novidade?” Ambos apontaram que a “permissão” do Facebook veio da Política de Uso de Dados, que entre suas milhares de palavras informa as pessoas que suas informações podem ser usadas para “operações internas”, incluindo “pesquisa”. Entretanto, estávamos todos confiando no que a política de dados do Facebook diz hoje. Em janeiro de 2012, a política não dizia nada sobre usuários sendo potencialmente transformados em ratos de laboratório para terem um dia miserável em nome da ciência, nem que “pesquisa” era algo que poderia ocorrer na plataforma.

Ao final, uma citação bem clara de Pam Dixon, do Fórum Mundial da Privacidade, sobre o principal problema de toda essa polêmica envolvendo o estudo conduzido pelo Facebook:

“Eles na verdade fizeram um teste para ver se teria efeitos nocivos em seus usuários. Isso não é teste A/B. Eles não queriam apenas mudar o comportamento dos usuários, eles queriam mudar o humor deles.”