Desafio da boneca Momo é o resultado da soma de pais culpados e imprensa irresponsável

Na última segunda-feira (18), o site da revista Crescer publicou uma reportagem alertando os pais de que supostos vídeos da boneca Momo, em que ela ensinaria crianças a se mutilarem e a cometerem suicídio, estariam aparecendo dentro de vídeos do YouTube Kids, versão da plataforma do Google com conteúdo exclusivamente infantil.

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Positivo Kids ressuscita a questão: qual a idade ideal para crianças terem smartphone?

A Positivo anunciou um novo smartphone. Até aí, nada demais. Salvo quando aparece com uma marca nova ou promove um desses aparelhos com funk o$tentação, é só mais uma notícia corriqueira no concorrido noticiário de tecnologia. O que chama a atenção nesse novo modelo é o público a que ele se destina: crianças. Continue lendo “Positivo Kids ressuscita a questão: qual a idade ideal para crianças terem smartphone?”

Tablets para crianças: apesar das dúvidas, eles podem auxiliar o aprendizado

Tablets para crianças.
Foto: Byron P/Flickr.

Não é muito difícil encontrar um adulto com filhos que exalte a desenvoltura da prole com celulares e computadores, geralmente usando adjetivos exagerados como “gênio” ou “hacker”. Sem ter o cérebro condicionado pelo passado, as gerações mais novas, de nativos digitais, adotam essas novas tecnologias intuitivas de maneira bastante natural. Entre facilidade e utilidade, porém, pode haver um grande buraco. Tablets fazem bem para as crianças?

O assunto voltou à tona com a divulgação dos resultados de uma nova pesquisa, feita nos EUA, pela Common Sense Media. A primeira, de 2011, foi muito usada para embasar argumentações pró e contra o uso de tablets por crianças nos últimos dois anos. Os novos números, revelados mês passado, mostram que tablets e smartphones estão ainda mais populares entre esse público que ainda não sabe escrever, mas que aprende muito fácil e adora telas que respondem a toques.

  • O número de crianças menores de oito anos que tiveram algum contato com dispositivos móveis (tablets, smartphones) dobrou entre 2011 e 2013.
  • O número de crianças que têm em suas casa um tablet (dos pais ou próprio) mais que quadruplicou no mesmo intervalo — de 8% em 2011, foi para 40% em 2013.
  • O tempo diário médio gasto por elas triplicou, chegando a 15 minutos em 2013. Foi o único número temporal que subiu nesse intervalo. As outras telas (TV, video game, DVD e computadores) tiveram reduções no tempo gasto — ainda assim a TV continua líder absoluta na preferência dos pequenos.
  • Entre bebês com menos de dois anos, o salto no uso foi grande: 38% interagem com tablets, em relação a 10% na primeira pesquisa. 7% das crianças têm seus próprios tablets.

São números fascinantes (o relatório completo da pesquisa pode ser lido online) e, ainda que restritos ao mercado norte-americano, antecipam uma tendência que deve se espalhar para outros locais. O mais importante, porém, é se e como essas mudanças de comportamento afetam o desenvolvimento das crianças. Afinal, tablet para criança faz mal ou ajuda no desenvolvimento das suas capacidades?

Tablets e crianças, uma combinação potencialmente positiva

XO Tablet, do OLPC.
XO Tablet, o tablet educacional de Nicholas Negroponte. Foto: Wayan Vota/Flickr.

Dar um tablet a uma criança pode ser encarado como o equivalente do século XXI a colocá-las em frente à TV: os pequenos ficam entretidos, dão um sossego para os pais cansados e, de quebra, podem aprender alguma coisa enquanto se divertem.

Só que o tablet é uma janela muito mais ampla e atraente do que uma coleção limitada de DVDs ou a programação matutina das emissoras de TV. Se até hoje se discute como conciliar a TV com os primeiros anos de vida de um ser humano, ou se o video game é uma má influência na formação de uma pessoa, o que dizer de uma polêmica que se instaurou há menos de três anos, ainda tão nova e misteriosa?

Criança usando um tablet educacional.
Foto: Wayan Vota/Flickr.

Talvez por ser tão recente, o assunto está longe de chegar a um consenso. Os que são pró-tablets dizem que apps educacionais favorecem o aprendizado e que algumas temáticas mais complicadas de serem ensinadas por métodos convencionais se beneficiam das peculiaridades desses equipamentos. Jacqueline Cappellano, coordenadora de uma escola infantil em São Paulo, disse à Folha que “um conteúdo que você não consiga atingir por meio de uma estratégia dentro da sala de aula, usando material concreto, consegue que a criança entenda por meio da tecnologia”.

A proibição parece uma medida extrema que corre o risco de cair naquela ideia, quase sempre acertada, de que os extremos são perigosos. Não é como se o tablet fosse a encarnação do mal para uma criança e, sejamos francos, cedo ou tarde elas terão contato com a tecnologia. Sendo assim, não é melhor tê-lo em casa, sob a supervisão dos pais em um ambiente controlado?

O mapa do tesouro — ou as dicas de ouro — dos tablets para crianças

Tablets para crianças.
Foto: Arne Kuilman/Flickr.

Vários especialistas são favoráveis aos tablets para crianças, mas com ressalvas. De todos os cuidados, três são listados recorrentemente como imprescindíveis: ter apps adequados, monitorar constantemente o uso e limitar o tempo destinado ao tablet.

O mercado de apps e jogos móveis encoraja compras impulsivas, desafios desnivelados e itens chamativos, tudo para direcionar o usuário à compra de itens dentro deles. Esses, de pronto, não devem figurar uma lista de apps infantis. Mesmo os que se dizem estar nessa categoria precisam ser analisados previamente — nem sempre o conteúdo corresponde às promessas da embalagem.

Na mesma reportagem da Folha, Christine Bruder, diretora da Primetime, escola também de São Paulo que atende crianças de até três anos, comentou o trabalho que foi chegar a apps lapidados para crianças:

“Até os três anos, eles aprendem pondo a mão na massa, vivendo, experimentando, com liberdade. E muitos aplicativos fechavam o bebê em ‘aperte aqui’, ‘aperte agora’, incentivando a rapidez dos movimentos ou queriam ensinar a criança a ler, a reconhecer letras, números. Demorei tempo para achar conteúdo que fizesse sentido para apresentar a um bebê.”

Existem alguns apps exemplares, como os da Toca Boca, mas é preciso garimpar bem a App Store para encontrar outros bons exemplos. O auxílio do adulto vai além dessa fase de preparação; é preciso estar presente para guiar e dividir as descobertas dos pequenos. Como disse Jim Steyer, diretor executivo da Common Sense Media, ao Estadão:

“Tablets podem ser excelentes ferramentas educativas, mas não devem ser usadas como babás eletrônicas. Tanto o conteúdo, como o tempo de uso, devem ser vigiados de perto.”

O monitoramento se relaciona intimamente com o tempo que é permitido às crianças para brincarem com iPads. Deve ser complicado fazer esse controle se elas são “donas” do tablet, um cenário não tão alienígena nos EUA como a realidade brasileira e de outros países nos faz supor, e que mesmo aqui dá sinais de força — a tendência dos tablets de verdade para esse público, não aquelas calculadoras gigantes da Xuxa/Hot Wheells, é forte entre as fabricantes nacionais. De qualquer forma, sendo propriedade da criança ou não, recomenda-se limitar o uso diário do tablet.

Um desafio (e pessoas) em formação

Três crianças brincando em um tablet.
Foto: Eric Peacock/Flickr.

O iPad abriu a era dos tablets modernos no começo de 2011. Estamos falando do impacto de uma tecnologia super recente em pessoas tão ou mais recentes que ela. Ben Worthen, em matéria no Wall Street Journal, compara crianças munidas de iPads a cobaias:

“De muitas maneiras, uma criança pequena que usa um iPad é uma cobaia. Embora o iPad tenha sido posto à venda há dois anos, estudos científicos rigorosos sobre a maneira como um dispositivo desse tipo afeta o desenvolvimento da criança geralmente levam de três a cinco anos.”

Algumas instituições desse campo se lançam com recomendações estritas. A Academia Americana de Pediatria desencoraja quaisquer tipos de telas para menores de dois anos, por exemplo. Se isso é certo? Difícil dizer com certeza. Faltam estudos sobre os impactos do uso de tablet por crianças nessa faixa etária, e não só os educacionais: o uso dele piora o desenvolvimento das aptidões sociais? Atrapalha o convívio familiar? Incentiva o sedentarismo? Atrofia a criatividade?

Há muita experimentação rolando, pesquisas sendo feitas e apps, bons e ruins, nas lojas. O tablet pode ser um punhado de coisas, incluindo um poderoso auxiliar do aprendizado. Como diz Bruna Figueiredo Elias, do Colégio Brasil Canadá, em São Paulo, “As atividades com tablet não podem substituir explicações do professor; as brincadeiras com tablets não podem e não devem substituir as entre as crianças; o contato físico com amigos reais é mais importante — e imprescindível”.

Substituir todas essas atividades por um tablet está fora de cogitação. Ignorar a sua existência, também. A grande dúvida, que só o tempo e muito estudo poderão responder, é em que medida podemos deixar ele entrar na vida dos pequenos para que seus efeitos positivos sejam sentidos e os negativos, minimizados.

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