Streaming nordestino apresenta modelo alternativo na relação entre plataforma e artistas

Homem branco, de boné preto e camisa xadrez azul, segura um microfone enquanto canta em um ambiente com iluminação colorida (azul e vermelha) e paredes de tijolinhos atrás.

Em 2013, Roni Maltz foi a um show do Aviões do Forró na cidade de Ipojuca, famosa pelo Porto de Galinhas, no litoral pernambucano. Era uma terça-feira e ele ficou impressionado com o público, de mais de 30 mil pessoas, e com a agenda da banda, lotada nos meses seguintes. Ali, descobriu com seus sócios, Rodrigo Amar e Allan Trope, um negócio local ligado com enorme potencial: a plataforma musical Sua Música. O trio se empolgou tanto com a ideia que comprou a plataforma. Oito anos mais tarde, eles agora dão os primeiros passos para expandir o Sua Música para muito além do Nordeste. Eles querem a América Latina.

O Sua Música foi criado em 2010, em João Pessoa (PB), por Éder Rocha Bezerra. Assíduo frequentador de shows e ainda na empresa, dentro da equipe de relacionamento com os artistas, Éder criou a plataforma para concentrar em um só local virtual as gravações ao vivo dos shows, que as próprias bandas já disponibilizavam em sites próprios e no Orkut. Desse início mambembe, o Sua Música transformou-se numa potência regional. Hoje, conta com 8 milhões de usuários, novos negócios que exploram o potencial do streaming e planos ambiciosos para os próximos anos.

“A gente entendeu que existia um mercado gigantesco de música independente no Nordeste que não estava sendo explorado pelas grandes gravadoras”, diz Roni, CEO do Sua Música, em entrevista ao LABS. Ele não revela o valor pago na compra da plataforma, em 2013, nem o faturamento atual, mas garante que o negócio cresce de 30% a 35% ao ano.

Uma empresa, duas frentes

No Sua Música, os artistas não são remunerados. Eles não só não acham isso ruim, como muitos pagam para ganhar destaque no aplicativo (Android, iOS).

Roni explica que o Sua Música herda um costume local anterior ao streaming: “Nascemos num contexto histórico no qual os artistas nordestinos faziam CDs e saíam na rua distribuindo esses CDs [de graça]. Era o material de marketing deles. Distribuíam CDs para ficarem famosos, conhecidos, e serem chamados para fazer shows”.

Seguindo essa linha, o Sua Música se posiciona como uma plataforma de exposição. “Eles [os artistas] entendem que não serão remunerados, mas sim que vão ganhar uma exposição muito grande”, diz o executivo.

Num momento em que a indústria do streaming é acusada de remunerar mal os artistas e tem que lidar com protestos incessantes, chama a atenção a relação que o Sua Música conseguiu estabelecer com os seus mais de 15 mil artistas verificados. “A gente nunca teve reclamações, pelo contrário”, afirma Roni. “Os artistas nos ligam, querendo pagar para divulgar na plataforma.”

Esses pagamentos feitos por artistas compõem o mix de receita do Sua Música. A empresa, explica Roni, é dividida em duas frentes: a plataforma de streaming Sua Música, e o negócio de serviços digitais para os artistas.

Três prints de divulgação do aplicativo Sua Música para Android.
Imagens: Sua Música/Divulgação.

Na plataforma, a empresa fatura com a veiculação de anúncios e com um plano “premium”, que custa R$ 3,90 e remove os anúncios. Atualmente, dos 8 milhões de usuários do Sua Música, 6 mil pagam pelo plano “premium”.

Já o braço de serviços digitais se subdivide em três negócios:

  1. Sua Música Digital, que distribui as músicas de artistas em plataformas de terceiros (Spotify, Deezer, YouTube etc.), coleta os royalties e repassa ao artista, além de fazer o marketing digital nessas plataformas. No momento, cerca de 150 artistas usam esse serviço e o objetivo é chegar ao final de 2022 com 500–600.
  2. Sua Música Records, que faz o chamado gerenciamento 360 do artista, ou seja, toda a produção, venda de shows, distribuição e marketing digital. Até agora, 13 artistas estão nessa, com o objetivo de terminar 2022 com 100.
    3. Sua Música Spaces, que grava e produz as músicas e, em breve, contará com um estúdio próprio em Fortaleza (CE).

A divisão de receita entre as duas frentes é quase uniforme — 60% vem da plataforma Sua Música e 40% dos serviços aos artistas.

Roni destaca a sinergia das duas frentes de atuação. Os serviços digitais alavancam joias brutas descobertas na plataforma Sua Música. E eles já têm casos de sucesso quem validam a estratégia.

“Você já ouviu falar do João Gomes?”, pergunta Roni. Há dois meses, João tinha 5 mil seguidores no Instagram, onde postava fotos da sua rotina de trabalhador rural. “Ele foi descoberto numa batalha que a gente fez, nos stories do Sua Música nas redes sociais, e assinou com a nossa empresa. A gente distribuiu a música dele no YouTube, no Spotify, no Sua Música… e a música explodiu”, conta o executivo.

Em dois meses, João Gomes passou de 5 mil para 4,2 milhões de seguidores no Instagram e, segundo Roni, tornou-se o maior artista brasileiro em número de streams no Spotify e YouTube. “É um artista que há dois meses não existia. Ele comprova a nossa tese de que um artista, hoje, consegue chegar ao topo no Brasil de forma independente, sem precisar de uma grande gravadora.”

O sucesso de João Gomes e de outras pérolas lapidadas pelo Sua Música, como Tarcisio do Acordeon, evidenciam a relação amistosa que a empresa mantém com outras plataformas digitais. O Orkut teve um papel determinante na fundação do Sua Música; hoje, as mais populares são exaustivamente usadas pelo Sua Música para diversos fins. “É um canal [redes sociais] onde a gente divulga conteúdo, cria conteúdos de entretenimento — não só de música —, se relaciona com o público, capta artistas para a nossa empresa de serviços ou mesmo para a plataforma”, explica Roni.

Com os gigantes do streaming, como Spotify e YouTube, a relação é de parceria e rivalidade. “De um lado a gente está competindo com o Spotify, por atenção, mas do outro lado, na nossa empresa de serviços, a gente é um parceiro”, resume.

Além do Nordeste

Homem branco, de barba, com camisa branca e braços cruzados, em uma sacada de um prédio amarelo.
Roni Maltz, CEO do Sua Música. Foto: Sua Música/Divulgação.

O modelo de negócio do Sua Música permitiu que a empresa crescesse durante a pandemia de COVID-19. Em 2020, o crescimento foi de 25% e em 2021, até o momento, já é de 45%. Roni atribui o bom desempenho à capacidade de reinvenção da empresa, que após o abalo inicial causado pela chegada do coronavírus ao país, lançou mão de “lives” e acelerou o desenvolvimento do negócio de serviços digitais aos artistas.

Por outro lado, o executivo reconhece e lamenta o impacto negativo que as restrições necessárias para o combate ao coronavírus teve na receita dos artistas. Afinal, o modelo de negócio deles é ganhar notoriedade para gerar receita com shows.

Embalado pelo bom momento, o Sua Música está em processo de captação de recursos, cuja conclusão deve ocorrer em até três meses. A tese vendida aos investidores é a da complementariedade dos dois braços do negócio, o da plataforma de streaming e o dos serviços digitais aos artistas. E o foco continua sendo Nordeste, mas não só: “A gente quer replicar isso para outras regiões, outros gêneros e também no exterior”, afirma Roni.

A empresa já detém a marca “Tu Música”, em espanhol, e o objetivo é começar a expansão internacional no final de 2024. Antes, no início de 2023, será feita a expansão regional e de gêneros musicais, ainda dentro do Brasil. Até lá, o Sua Música continuará como referência em música do Nordeste, o que não significa que sua base de usuários esteja restrita à região. Embora a maior fatia dos 8 milhões seja de lá, principalmente do Ceará e da Bahia, São Paulo é a terceira maior praça do Sua Música e o Rio de Janeiro, a quinta.

Foto do topo: Sua Música/Divulgação.

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6 comentários

  1. Costumava acessar o Sua Música para baixar músicas pra minha mãe, nem imaginava que tinha aplicativo, muito menos que era tão grande assim.

    Muito legal a matéria!

  2. Incrível. Lembra de certa forma a história do KondZilla, que começou de forma acanhada e nas periferias, transformando-se em uma das maiores potências de entretenimento no país.

    1. Bom ponto.

      Na música eletrônica, geralmente noto que a divulgação acaba na mão dos DJs e rádios, e a distribuição é menor – os ganhos dos criadores de músicas acabam mais na revenda de direitos das músicas para uso na discotecagem por exemplo.

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