Fundo azul, com uma chamada para um PlayStation 5 no centro. À esquerda, a frase “Ofertas de verdade, lojas seguras e os melhores preços da internet.” À direita, “Baixe o app do Promobit”.

Com estratégia “Kinder Ovo”, startups atacam o desperdício de comida

Caçamba de lixo repleta de melões e melancias descartadas.

Não é de hoje que o mundo produz comida suficiente para alimentar todos os seres humanos, mas a fome ainda existe em vários países. Paradoxalmente, mesmo nesses o desperdício de comida continua a ser um problema. Existe alguma maneira de fazer com que paremos de jogar comida boa no lixo?

E não é pouca comida. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), em 2019 desperdiçamos 931 milhões de toneladas de alimentos, o equivalente a 17% da produção mundial. Embora a maior parcela do desperdício ocorra dentro de casa (61%), as dos setores de serviços (restaurantes, hotéis, escolas) e comércio (mercados, mercearias) ainda são relevantes, de 26% e 13%.

Startups como a brasileira Food to Save, a mexicana Cheaf e a chilena GoodMeal tentam atacar esse problema na linha de frente. Usando tecnologia e um hábito relativamente recente — comprar por aplicativos —, elas oferecem ao consumidor o excedente de restaurantes, padarias e supermercados, produtos ainda aptos ao consumo humano, mas que antes eram descartados por motivos diversos, com descontos que chegam a 70%.

O modelo é o que Lucas Infante, fundador e CEO da Food to Save, chama de “ganha-ganha-ganha”: “Beneficio o usuário, salvando essas sacolas[-surpresa]; o estabelecimento, gerando um novo fluxo de clientes e vendas cruzadas; e beneficio o meio ambiente.”

Dois homens, fora de foco, segurando sacolas de papel da Food to Save, focadas em primeiro plano.
Foto: Food to Save/Divulgação.

As tais sacolas-surpresa são comuns às três startups. Em troca do enorme desconto, o consumidor abre mão da escolha. Lucas chama o modelo de “Kinder Ovo de adultos”. Na Food to Save, o consumidor escolhe apenas o tipo da comida, se salgada, doce ou mista, e um dos três tamanhos/preços da sacola (R$ 10,99, R$ 15,99 ou R$ 20,99).

Dentro das sacolas vão produtos próximos do vencimento ou com aparência não ideal (pense em frutas e legumes “feios”), mas ainda seguros para o consumo humano. Além de facilitar a logística dos estabelecimentos parceiros, o fator surpresa se desdobra em conscientização e chamariz: “Quero chamar a sua atenção, a de todo mundo, para a questão do desperdício de alimentos”, explica Lucas.

Entre o Brasil e a Espanha

Homem branco, careca, de barba e camisa azul claro, com os braços cruzados, sorrindo e olhando para a câmera.
Lucas Infante. Foto: Food to Save/Divulgação.
A ideia de criar a Food to Save nasceu quando Lucas estava à frente de outra empreitada, uma franquia do Carrefour em Málaga, na Espanha, onde mora com a família há seis anos. (Hoje, sua esposa toca a franquia.) “O primeiro impacto [no supermercado] são aqueles excedentes — do produto que acaba sendo rejeitado na frutaria ou aquele Danone [laticínios] que está próximo ao vencimento e acaba não sendo vendido, é jogado fora. Aquilo acabou me incomodando muito”, relembra o empresário.

Inspirado por outra startup, a Too Good to Go, da Dinamarca, fundada em 2015 e com presença na Europa e nos Estados Unidos, em outubro de 2020 Lucas correu para o Brasil para convidar seu primeiro sócio, Murilo Ambrogi, à época no iFood, para trabalharem em uma ideia similar. Em dois meses, a dupla esboçou e deu os primeiros passos do que viria a ser a Food to Save. (Lucas interrompeu o brainstorming e retornou à Espanha para acompanhar o nascimento da filha.)

A Food to Save nasceu com capital próprio (bootstraping) dos três sócios (além de Lucas, Murilo e Fernando Henrique dos Reis) e recebeu um investimento-anjo. Ao todo, R$ 800 mil já foram investidos no negócio, que agora se prepara para uma rodada seed.

No momento, o serviço está disponível em São Paulo: em Campinas, no ABC paulista e na capital.

O MVP da Food to Save foi um perfil no Instagram, lançado em maio 2020. “Começamos vendendo pelo ‘Direct’ [trocas de mensagens], uma coisa muito insana, startup total.” Depois veio o site, antes do aplicativo, o que ajudou os fundadores a coletarem dados e insights para azeitarem a usabilidade do sistema. O aplicativo para Android e iOS ficou pronto no final de 2021 e já acumula mais de 100 mil downloads.

“Eu era parte do problema”

Homem branco, de cabelo curto e barba pretos, vestindo camisa xadrez azul e branca, sorrindo e olhando para a câmera.
Rodrigo Haydar. Foto: GoodMeal/Divulgação.
Rodrigo Haydar passou os últimos anos trabalhando com multinacionais de alimentos e bebidas na América Latina e Ásia. Em entrevista ao Manual do Usuário, disse que era “parte do problema do desperdício de comida”:

“Em boa parte do tempo, me vi forçado a tomar decisões que, por fatores externos, como regulações governamentais, alterações em tabelas de especificações ou mesmo um erro menor em um documento de exportação, acabaram em toneladas de comida perfeitamente boa sendo desperdiçada.”

Diante desse cenário, ele voltou ao Chile e fundou a GoodMeal, não sem antes fazer uma profunda pesquisa de campo. Com seu sócio, Maximiliano Acosta, começou a pesquisar por soluções em outras partes do mundo. Em paralelo, passou duas semanas conversando com 200 donos de restaurantes chilenos. “Chegamos a uma conclusão clara: ninguém queria jogar comida fora, porém não havia soluções disponíveis que não criassem um impacto importante nas operações deles, então eles não tinham escolha a não ser o desperdício.”

Disso veio o MVP, nesse caso um marketplace via WhatsApp com duas confeitarias. Em uma semana, já havia mais de cem pessoas na lista de espera para adquirir as sacolas-surpresa. A startup trouxe, então, José Castro como cofundador e CTO e desenvolveu uma versão beta do aplicativo em apenas um mês, alcançando a marca de 1 mil transações no mesmo período. Gabriel Lara, COO, completa o time de fundadores.

A GoodMeal também nasceu com capital próprio e com o auxilio do Start-Up Chile, a aceleradora estatal chilena que não pede equity em troca dos investimentos. Com esse incentivo, a GoodMeal alcançou 100 mil transações mensais e fechou acordos com as três maiores cadeias de restaurantes do país (Starbucks, Juan Valdez e Dunkin’).

Por ora, a GoodMeal atua na capital Santiago e em Viña del Mar.

Homem branco, de óculos redondos e barba por fazer, vestindo jeans e camisa branca, segurando um celular. A seu lado, uma sacola de papel da Cheaf.
Kim Durand. Foto: Cheaf/Divulgação.
As histórias de todos esses fundadores são similares, e não por acaso. No caso da de Kim Durand, engenheiro aeroespacial fundador da mexicana Cheaf, ela partiu de outro aplicativo de delivery, a Uber. “Depois de passar sete anos na Uber, e dois responsável pelo UberEATS no Norte e Oeste do México, decidi me envolver em uma causa e usar minhas habilidades para maximizar o impacto”, conta ao Manual.

O piloto do Cheaf nasceu também no WhatsApp, em um grupo criado em julho de 2020. Ao validar o modelo e descobrir que havia demanda, Kim contratou um gerente de comunidades, um desenvolvedor e alguém para cuidar do comercial e lançou a primeira versão do aplicativo em 29 de setembro de 2020 — a data não foi ao acaso; foi o primeiro Dia Internacional sobre Perda e Desperdício de Alimentos, estabelecido pela ONU. Elena López juntou-se em março de 2021 como COO e cofundadora.

Até o momento, a Cheaf levantou US$ 3,55 milhões em duas rodadas de investimento, uma em janeiro de 2021 (US$ 550 mil) e outra em novembro (US$ 3 milhões). Entre os investidores estão GFC, 500Startups, Kima Ventures e Soriana.

Por enquanto, a Cheaf atua apenas no México: Guadalajara, Monterrey e na capital Cidade do México.

Tanto a GoodMeal quanto a Cheaf também usam o conceito de sacolas-surpresa para distribuir os excedentes, com a mesma promessa de descontos de até 70% em relação aos preços de prateleira. O que varia entre elas é a taxa cobrada dos estabelecimentos.

A GoodMeal não abre o percentual, diz apenas que coleta “uma pequena taxa” de cada transação, mais uma taxa administrativa anual para cobrir custos operacionais. Na Cheaf, a comissão cobrada é de 20%. Já na brasileira Food to Save, varia entre 30% e 40%.

O percentual cobrado pela Food to Save é superior ao de plataformas tradicionais de delivery, como iFood e Rappi. Lucas, fundador e CEO da startup, defende-se: “O iFood vende o produto que você [dono do estabelecimento] acabou de produzir, com a sua margem lá em cima. Eu estou vendendo um produto que você jogava fora.”

Ao reaproveitar e gerar receita a partir do que antes virava lixo, as startups cuidam de toda a operação. Lucas conta que a Food to Save oferece opções de retirada no local e entrega por motoboys (em parceria com startups de logística), mas que incentiva a retirada: “Além de ser algo mais sustentável, você se permite conhecer novos estabelecimentos, pode gerar uma venda cruzada, faz uma caminhada, algo que é muito mais saudável do que pedir que um motoboy te entregue”, diz.

Nos casos da Cheaf e GoodMeal, a opção de delivery não é oferecida. O cliente precisa ir até o estabelecimento resgatar sua sacola-surpresa.

Os aplicativos de delivery tradicionais, aliás, não são encarados como rivais. Pelo contrário, podem ser aliados no combate ao desperdício e embora haja sinais de que ações nesse sentido estejam no radar dessas gigantes, ainda há muito a ser feito.

“No México, os aplicativos [tradicionais de delivery] estão bem posicionados contra o uso de plástico e embalagens não-recicláveis”, conta Kim, “mas pouco ainda é feito quando se fala do desperdício de comida. A Cheaf não pretende ser a solução, mas parte da solução — e esperamos que mais atores tomem parte disso.”

Para a GoodMeal, as grandes plataformas não só não são competidores diretos, mas podem tornar-se aliadas. “O problema do desperdício de comida é enorme e em escala global”, conta Rodrigo. “Apenas uma solução não será suficiente e quanto mais soluções disponíveis, maior o impacto.”

Resultados e planos futuros

Os três fundadores entrevistados não abrem o faturamento nem outros números contábeis, reflexo do momento incipiente em que estão, mas escancaram e se orgulham de uma métrica que, no contexto de impacto em que se inserem, lhes parece mais importante: as toneladas de comida livradas do lixo.

Em sete meses de operação, a Food to Save resgatou 40 toneladas de alimentos, compradas com desconto por cerca de 80 mil usuários ativos (a startup considera ativo quem comprou alguma coisa nos últimos três meses), de estabelecimentos como a padaria Bella Paulista e as redes Rei do Mate e O Tradicionalíssimo, de donuts.

Já os 100 mil usuários da Cheaf resgataram 150 toneladas de comida de 600 estabelecimentos.

A GoodMeal, com 25 mil usuários pagantes e 800 estabelecimentos parceiros, afirma ter resgatado 250 toneladas de comida.

Além do aspecto ambiental, o socioeconômico está na raiz da atuação dessas empresas. “Olhando para o Brasil, o nosso modelo tem apelo no atrativo do desconto e de evitar que esses produtos sejam descartados em um cenário onde mais de 20 milhões de pessoas passam fome”, diz Lucas.

Em 2021, o Brasil voltou ao mapa da fome, resultado da destruição de políticas públicas por parte do atual governo federal, um retrocesso inédito, sem paralelo no mundo.

As três startups têm metas ambiciosas para o futuro próximo. Querem aumentar exponencialmente as toneladas de comida salvas do lixo e expandirem-se geograficamente.

A GoodMeal quer expandir seus canais em 2022 para, no ano seguinte, chegar a outros países: “Nosso objetivo é ser uma plataforma líder de otimização de recursos para a indústria alimentícia do mundo todo”, afirma Rodrigo.

A Cheaf, sem especificar datas, também quer ir além das fronteiras mexicanas e mira, a princípio, outros países latino-americanos. Não só: quer atuar em mais pontos da cadeia alimentícia, como a produção e o transporte: “Queremos nos posicionar como um aplicativo de sustentabilidade líder na América Latina, tomando ações contra qualquer desperdício que cause impacto ambiental ou injustiça social”, diz Kim.

A Food to Save está focada no Brasil, por ora. Em 2022, além de chegar a 500 toneladas de comida salva, quer iniciar sua expansão no país pelas cidades vizinhas a Campinas (SP) e no Rio de Janeiro (RJ).

Em sua apresentação à imprensa, Kim, o fundador da Cheaf, diz que seu maior êxito seria se, no longo prazo, o serviço da startup não fosse mais necessário.

Foto do topo: Katia Mello/Núcleo Editorial/Flickr.

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6 comentários

  1. Vi uma matéria sobre essas startups há cerca de um mês num “Pequenas empresas grandes negócios”. Achei bem bacana a atitude. Vai resolver por completo? Óbvio que não, mas já ajuda.

  2. Fico imaginando os desafios disso, como fazer para isso não virar um garimpo de lixo? O controle da validade de alimentos, principalmente prontos como será? Vejo bastante pontos críticos que poderíamos levantar sobre isso.

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