Não, as Smart TVs da Samsung não espionam suas conversas

Smart TVs da Samsung em exibição.

No começo de 2015 a Samsung descobriu o estrago que uma frase mal formulada pode causar. A política de privacidade das suas Smart TVs dizia (tradução livre):

Por favor, atente que se suas palavras faladas incluírem informações pessoais ou sensíveis, essas informações estarão entre os dados capturados e transmitidos para um terceiro através do uso de Reconhecimento de Voz.

A Internet descobriu e teorias começaram a surgir misturadas com doses (justificadas, eu diria) de revolta. Em pouquíssimo tempo alguém traçou o paralelo com 1984, o célebre romance distópico de George Orwells — e foi daí para pior.

Comparação entre política de privacidade da Samsung e 1984.
Imagem: @xor/Twitter.

Por motivos que me fogem o assunto voltou a circular nas redes sociais agora, um ano depois do escândalo. (Um dos posts originais da polêmica, da BBC, de fevereiro de 2015.) Fora do timing ou não, é uma boa oportunidade para revisitar o tema e entender o que acontece de fato.

Sua TV te ouve — e está tudo bem

Essas informações de voz podem ser e são mesmo transmitidas, porém não para fins nefastos. Não é o objetivo da Samsung saber as fofocas contadas na sala da TV; a coleta, o envio e o processamento do que é falado tem um objetivo bem específico, que é viabilizar e aperfeiçoar os comandos de voz para controlar a TV.

Faz alguns anos que não só a Samsung, mas várias fabricantes permitem esse tipo de interação. Como nem todas têm expertise ou infraestrutura para coletar e processar por conta própria a avalanche de dados que o uso gera, terceiros especializados são contratados. É o caso da Samsung.

Note que, hoje, com assistentes pessoais presentes em diversos equipamentos, esse tipo de coleta e análise é recorrente. A Siri da Apple, o Google Now, a Cortana e o Xbox One da Microsoft, a Alexa da Amazon, todos trabalham com comandos por voz que, para funcionar cada vez melhor, sem exigir que mudemos a sintaxe da linguagem natural para uma lista de comandos pré-determinados robóticos, analisam o que é falado.

Todos esses, inclusive a TV da Samsung, também têm outra similaridade: eles não ficam gravando o áudio ao redor ininterruptamente. Cada sistema tem uma palavra-chave que ativa os “ouvidos” virtuais do assistente/sistema de reconhecimento vocal. É o “Ok Google” do Google, ou o “E aí Siri” da Apple. No caso das Smart TVs da Samsung, “Hi TV” (obviamente, em inglês; não sei como funciona no Brasil).

Havia uma justificativa, pouco comentada durante os protestos do ano passado, mas relevante nessa questão. Uma política de privacidade é um documento sério que regula os limites da empresa na relação com o cliente. Ainda que a Samsung não praticasse essa vigilância constante, o mero fato dela estar prevista na política era bem ruim. A pressão, embora pelo motivo errado, surtiu efeito e, hoje, a política traz um texto bem diferente:

Você pode controlar sua Smart TV e muitas de suas funções através do comando de voz.

Caso você habilite a função Reconhecimento de Voz, você poderá interagir com a sua Smart TV utilizando sua voz. Para fornecer o recurso de Reconhecimento de Voz para você, alguns comandos de voz podem ser transmitidos (juntamente com informações sobre seu dispositivo, incluindo, mas não se limitando a, a identificação do dispositivo) para um prestador de serviços (atualmente, Nuance Communications, Inc.) que converte os comandos de voz para texto e para um formato de arquivo que seja necessário para o funcionamento do recurso de Reconhecimento de Voz. Adicionalmente, a Samsung pode coletar e seu aparelho pode capturar comandos de voz e textos associados para proporcionar a você o recurso de Reconhecimento de Voz, assim como avaliar e melhorar esse recurso. A Samsung irá coletar seu comando de voz somente quando você realizar uma pesquisa a Smart TV, ativando essa função pelo controle remoto ou pela tela e falando pelo microfone do seu controle remoto.

Caso você não habilite o Reconhecimento de Voz, não será possível utilizar o recurso de Reconhecimento de Voz, embora você possa controlar sua TV através de controles de voz específicos pré-definidos.

Você pode desativar a coleta de dados do recurso de Reconhecimento de Voz a qualquer momento acessando no menu a opção “configurações”. Entretanto, isso pode impedi-lo de utilizar alguns dos recursos do Reconhecimento de Voz.

As empresas de tecnologia podem ser cruéis e compactuarem com algumas práticas reprováveis, mas, nesse caso, era apenas uma falha de redação.

Foto: Maurizio Pesce/Flickr.

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11 comentários

  1. Só pra constar, a Microsoft já vende (ou pelo menos tem o direito de vender, segundo as configurações padrão do sistema e política de privacidade) seus dados utilizados com Cortana no Windows 10.

    O Google já utiliza seus hábitos de pesquisa no Google Now para lhe oferecer serviços e “publicidade personalizada”.

    Para a samsung começar a ganhar dinheiro com suas informações basta apenas uma cláusula no contrato de privacidade, essa já existe e já foi aceita tacitamente ao utilizar o serviço. A frase não foi mal escrita, simplesmente foi escrita como tantas outras pensando que seria ignorada (como geralmente são).

  2. Eu não gosto desses assistentes pessoais, nem no smartphone quem dira na TV(ou Smart TV, melhor dizendo). Acho que está faltando ideias boas para jogar para as massas e uma forma de cobrir isso é ficar colocando essas assistentes.

  3. As pessoas ficam muito entusiasmadas em vislumbrar qualquer distopia no dia de hoje, 1984 é uma das preferidas do pessoal e, nesse caso, a metáfora é perfeita apesar de ser um jeito bem ruim de praticar vigilância nos dias de hoje dessa forma: é caro, trabalhoso e ineficiente. A NSA faz bem melhor haha

    Eu acho interessante como 1984 se aproxima da realidade não necessariamente por grandes artimanhas de governos ditatoriais, mas por vontade própria ao se enclausurar em determinados grupos que só a internet possibilita. Hoje dá para ter qualquer opinião, por absurda que seja, já que sempre há um grupo de apoiadores que acabam num círculo “virtuoso” de validação.

      1. Que ótimo quadrinho! Das distopias clássicas, sempre achei “Admirável Mundo Novo” a mais próxima da realidade, mas considerando o que ando vendo por ai, dei mais valor ao dupli-pensar.

        Ontem mesmo, entrei em uma discussão política no Tecnogrupo (quem nunca fez essa cagada né?) e li esse argumento. Não é exatamente o dupli-pensar, mas é insano alguém usar esse argumento tão sem noção provavelmente para encaixar o mundo nas suas crenças.

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