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A economia das senhas compartilhadas

Ambiente escuro, TV com o logo da Netflix na tela e uma luz vermelha atrás, iluminando parte da estante onde ela está.

Nunca conheci alguém que pagasse a Netflix para usar a assinatura sozinho. Regra geral, todo mundo compartilha senhas. Em tese, esse compartilhamento só pode ser feito entre pessoas da mesma família, na mesma casa. Na prática, nossas “famílias” são enormes, heterogêneas, às vezes espalhadas pelo Brasil e ter completos desconhecidos no meio.

Estima-se que ~30% dos mais de 200 milhões de assinantes da Netflix compartilhem senhas. (Se eu tivesse que chutar um percentual, seria um maior.) Toda essa galera ficou alerta dias atrás, quando alguns usuários relataram em redes sociais que a Netflix estava pedindo uma confirmação extra em novos logins compartilhados e reforçando, na mesma tela, aquela cláusula dos termos de uso que restringe o reuso de uma mesma senha à família. A farra das senhas estaria com os dias contados?

É pouco provável. Compartilhar senhas é normal, para nós e para empresas como a Netflix. É algo institucionalizado, já previsto em seus planos de negócios. A Netflix sabe quem compartilha senha com quem e, não duvido, quais as relações entre essas pessoas. Se fosse uma ameaça de fato ao negócio, não estaria empurrando esse problema com a barriga há quase uma década.

Spotify, Microsoft, Apple, Google — essas e outras empresas também têm planos familiares, e todas agem quase da mesma forma. Como é da natureza humana compartilhar o que nos agrada e satisfaz, é melhor incorporar logo essa prática do que confrontá-la, ainda que uns dificultem mais a nossa vida. O Spotify é notório pela sua política, aplicada com rigor, de restringir o compartilhamento de senhas a moradores de uma mesma residência, por exemplo.

Conceitos como “família” e “residência”, comumente usados para delimitar com quem senhas podem ser compartilhadas, são limitados nesse contexto. Eu posso compartilhar minha senha com irmãos que não moram mais comigo? Primo é família? E o amigo com quem divido apartamento, está valendo? É uma área cinzenta que, como tal, leva as empresas a fazerem vista grossa para situações diversas.

Do outro lado, às vezes o pessoal não se segura e cria coisas como o Kotas, um curioso serviço brasileiro que junta conhecidos e/ou estranhos interessados em compartilhar uma assinatura familiar. É questionável? Talvez, mas de minha parte (e embora não o use), acho ótimo! Não é como se a Netflix ou a Microsoft estivessem contando moedas para fechar as contas, e, dessa forma, ou seja, economizando nos planos familiares, mais gente tem acesso a coisas que, de repente, a preço cheio lhes seriam inviáveis.

A única maneira efetiva que já vi de combater o compartilhamento desenfreado de senhas é dobrando a aposta nele. O plano familiar da Apple, por exemplo, que permite usar os serviços da empresa (iCloud, Apple TV+, Apple Music, Apple Arcade) em até seis pessoas, concentra todos os gastos da família junto à Apple em apenas um cartão de crédito. Não é problema e na real pode até ser uma vantagem em uma família de fato, mas seria impraticável dar acesso ao cartão a um amigo. Por mais chapa que ele seja, ninguém vai ficar bancando roupinha de Free Fire de marmanjo, né?

As lojas de aplicativos estão repletas de apps para gerenciar assinaturas, como o Bobby. O próximo passo é um app para organizar assinaturas emprestadas, para sabermos as contas de quem estamos usando e quem está usando as nossas contas, calcular economia versus despesas, e mostrar se estamos sugando os outros ou sendo generosos. Algum desenvolvedor se habilita?

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Foto do topo: Thibault Penin/Unsplash.

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10 comentários

  1. Pois é, e esse esquema da Apple é muito ruim. Pois se quero comprar algo que vai servir só pra mim (um app por exemplo), não consigo escolher outra forma de pagamento, tem que ser naquela única que foi definida para toda a família. Complicado.

  2. Eu gosto de usar a qualidade máxima de imagem, o que implica uma assinatura para várias telas, então… divido mesmo.
    Preferia que houvesse um preço melhor para qualidade máxima com apenas uma tela.

  3. Nessa questão da Netflix, eu usava a conta do meu pai quando morava com ele. Quando me casei, continuei usando a mesma senha que já estava salva em meus dispositivos.
    Mas, descobri, em dez de 2019 que a prática só era permitida por pessoas que morassem na mesma casa (descobri não porque li nos termos de uso, mas porque entrei em contato com o chat da Netflix e perguntei).
    Durante muito tempo, não usei mais a conta do pai. Achava antiético.
    Mas, recentemente, passei a usar novamente por ver que, nem a empresa estava se importante com isso, será que eu realmente deveria me importar? Será que tava ficando justo demais?
    Enfim, do ponto de vista ético, gostaria de saber mais sobre o que os outros leitores do Manual pensam do assunto.
    Particularmente, ainda sinto um pouco de culpa por usar.

    1. Não se culpe por isso, Fernando. Claro que é discutível, mas não me parece ser antiético usufruir de um serviço que está sendo devidamente pago e que não incomoda a empresa que está fornecendo esse serviço. A vida tem uma infinidade de questões mais importantes e urgentes para nos preocuparmos.

    2. Culpa exclusiva das empresas que pulverizaram o sistemas de streaming a ponto de ser impagável pela maioria das pessoas. Para os liberais, isso é apenas o mercado de arrumando e encontrando um meio perto do “ótimo” para se manter.

    3. Fernando,
      Acho que deveríamos realmente nos importar.
      É uma regra da empresa e, no meu ponto de vista, deveríamos seguir, independemente de ter alguém fiscalizando ou de haver punição.

      Entendo o ponto de vista do Ghedin. Inegável que temos problemas maiores, mais importantes e mais urgentes. Mas se não tivermos este (da senha compartilhada indevidamente), é um problema a menos.

      Paulo,
      não consigo concordar com o fato de que a pulverização torna impagável. Claro que era mais cômodo quando só havia Netflix, com um preço bom (pra ganhar mercado) e tal, mas isso não se sustentaria no longo prazo. Os preços vão se reajustanto e isso é esperado. Tá dando dinheiro, mais gente quer participar da festa (vide caso da empresa cielo, das maquinhas de cartão: tinha “monopólio”, ganhava muito dinheiro; depois caiu a barreira legal, teve inúmeros novos entrantes, muita gente competindo por preços, ficou mais barato para os lojistas e melhor para os clientes).
      Enfim, a oferta de inúmeros serviços não “te obriga” (veja as aspas hein hehehe) a assinar todos eles simultaneamente. Aqui mantenho assinatura contínua do Amazon Prime e fico um tempo com Netflix, depois cancelo, assino outro e fico mais uns meses e assim vai.
      Surgiu até uma alternativa decente para TV por assinatura (directv go).

      Bem,
      acho q meu ponto principal é que devemos seguir as regras do contrato que “assinamos”; por outro lado, tá mais que na hora de rever essas regras. Os rearranjos familiares, e sociais como um todo, mudaram muito. Seria mais adequado talvez cobrar até um pouquinho a mais em planos “familiares”, mas que você pudesse dividir com qualquer pessoa que lhe interesse.
      Eu sempre penso nisso em relação aos clubes: tenho +18, pais separados e mãe novamente casada, com quem eu moro. Se quiser ir ao clube com minha mãe e meu padrasto, seriam 3 “títulos”/”jóias” + 3 mensalidades, o que inviabiliza frequentarmos um clube…..

      Bem,
      acredito que essas regras serão ajustadas num futuro próximo, mas que não ficará pior, mas apenas vão adequá-las à realidade social.

      1. Eloi, se a Netflix não se importa com isso (e ela não se importa, pois sabe quem compartilha senha com quem não mora na mesma casa e não faz nada a respeito), por que a gente deveria se importar?

        Regras, de modo geral, existem para condicionar ou mesmo forçar certo comportamento. Essa da Netflix, ao que parece, é mais uma garantia prevista em contrato (caso algum dia +70% dos usuários compartilhem senhas com estranhos, por exemplo) do que uma imposição de fato. Não é crime, não é pecado; no máximo, você pode perder a sua conta, e olhe lá (não é do interesse da Netflix afastar clientes pagantes). Não entendo a vantagem, a moralidade, nem mesmo o suposto benefício em abdicar de um arranjo para economizar que, importante frisar, é aceito pelo fornecedor. Dar mais dinheiro pra Netflix? 🤨 Melhor pegar essa grana e doar para algum projeto independente ou ONG…

  4. Ótimo texto!
    Fiquei pensando se há uma comunidade de compartilhamento de senhas. Algo do tipo “Troco senha do Amazon Prime por GloboPlay. Mais informações via direct”. Assim, além de pagar 9,90 no Amazon teria também uma assinatura de 19,90 sem custos.
    Pesquisei o termo “Compartilhar senhas” no Facebook e num achei nada parecido com o que queria. Mas tenho certeza que é capaz de existir algo similar.

    1. meio que faço isso com minha namorada, eu pago o Disney, ela a amazon,o irmão dela spotify e a mulher dele o globoplay

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