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Em menos de um ano, o Pix já fez mais que as criptomoedas em uma década

Mulher de máscara e casaco cinza segura um cartaz amarelo em que se lê: “Me ajuda. Estou desempregada. Tenho 3 crianças. Deus abençoe. Tenho Pix [número ocultado]. Obrigado Cicera.”

Em 8 de dezembro de 2000, uma das maiores salas de reunião do hotel Hyatt Regency, perto do Aeroporto Internacional de São Francisco, estava reservada para uma reunião que exigiria bastante espaço. Lá, três das principais figuras do Vale do Silício seriam apresentadas à invenção que prometia ser o grande avanço tecnológico da década. John Doerr, sócio da Kleiner Perkins, um dos fundos de investimento em tecnologia mais influentes da história, já tinha chegado. Jeff Bezos, fundador da Amazon, chegou logo depois. Faltava um, que estava sempre atrasado: Steve Jobs só apareceu minutos depois das 8h30, quando a reunião deveria começar. A sala precisava ser grande porque o sujeito que convocou a reunião precisava fazer demonstrações fora do computador. Assim que chegou à sala com grandes pacotes embalados em caixas de papelão, Dean Kamen montou dois protótipos e deu para que Bezos e Doerr brincassem. Enquanto ambos testavam os protótipos, Jobs chegou. A tecnologia que todos estavam ali para dar seus pitacos prometia revolucionar a mobilidade urbana da mesma maneira como o PC ou o celular revolucionaram a computação pessoal.

Passo para trás para entender que eram o sujeito capaz de reunir Jobs, Bezos e Doerr numa mesma sala. Kamen tinha acumulado bilhões de dólares após inventar a tecnologia por trás da bomba de perfusão, aquela geringonça que controla a dosagem de remédios na sua corrente sanguínea quando você está internado(a). Sem se preocupar em pagar as contas, Kamen mergulhou na vida de inventor. Após anos de pesquisa, criou o protótipo de uma cadeira de rodas autônoma capaz de responder aos movimentos do corpo de quem a usasse. O segredo da cadeira era um giroscópio1. Com o protótipo pronto, Kamen entendeu que o mercado para cadeira de rodas era pequeno para um lançamento em escala. O giroscópio, porém, poderia alimentar outro hardware de locomoção, não apenas para pessoas com dificuldades de mobilidade.

O protótipo daquela reunião no hotel era isso: uma espécie de patinete de duas rodas que você controlava usando o peso do próprio corpo. Até a reunião em São Francisco, o projeto se chamava Ginger. Quando estava pronto para o mercado, Kamen o renomeou como Segway. Em 2001, o hype ao redor do Segway era inacreditável, ainda que ninguém soubesse exatamente que diabo era aquilo — nem o nome era público. Em janeiro de 2001, um mês após a reunião, vazou uma proposta secreta de livro que Kamen tinha vendido à Harvard Business School Press por US$ 250 mil. Além de relatar o investimento de Doerr, o documento tinha aspas dos presentes na reunião: Jobs dizia que a invenção “era significativa como o computador pessoal” e Bezos a classificava de “revolucionária”. O problema é que Kamen não explicava o que era aquilo e nem dizia seu nome — na proposta de livro, usava-se apenas o termo IT.

Com o estouro da bolha passando o trator no mercado de internet mundo afora, o mercado ficou alvoroçado. Kamen já tinha provado ser um inventor de sucesso e os endossos de Bezos, Jobs e Doerr davam à iniciativa um elã de inovação séria. Não era uma piada quando gente deste calibre elogiava. Durante o ano de 2001, formou-se a certeza de que, assim que o IT desse as caras, viveríamos todos em uma nova realidade.

Kamen finalmente mostrou o Segway ao mundo em dezembro de 2001, com uma apresentação ao vivo no Good Morning America, um dos programas de maior audiência da TV norte-americana. A reação da âncora, Diane Sawyer, resumiu o que seria a história adiante do Segway: “é só isso?”. Era. O hype construído meticulosamente pela equipe de Kamen, alavancado por nomes gigantes do Vale do Silício, não durou um mês depois que o produto foi finalmente revelado. Justiça seja feita, o próprio Jobs já tinha alertado Kamen das dificuldades adiante: “Se uma criança imbecil em Stanford se machucar usando o Ginger e anunciar online que a máquina é uma merda, a companhia afundaria, já que não existe forma de controlar isso ou responder se as pessoas não conseguem usar uma por si mesmas”. A história da reunião do Kamen com Jobs, Bezos e Doerr está bem documentada em um livro chamado Code Name Ginger, escrito por um sujeito chamado Steve Kemper, que presenciou por dentro a ascensão e queda do Segway. O site da Harvard Business School publicou o trecho do livro sobre a reunião.

Jobs foi profético. Primeiro que o Segway era proibitivamente caro: seu modelo mais simples custava US$ 5 mil. Segundo que o Segway exigia uma curva de aprendizado não óbvia e com consequências nada agradáveis: quem não se equilibra no Segway se esborracha no chão. Era uma questão de tempo até que uma crise de imagem aparecesse desencadeada pela inabilidade de algum usuário. Ela veio, mas por alguém um pouco pior que um jovem em Stanford.

Em 2003, o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, foi fotografado em um momento de folga se estabacando no chão enquanto um Segway revolto se descontrolava. Àquela altura, o Segway já mostrava que seria incapaz de preencher as enormes expectativas depositadas nele. A invenção que seria “para o carro o que o carro já tinha sido para os cavalos”, nas palavras do próprio Kamen, viraria nas décadas seguintes um gadget exclusivo de ricos entediados, tours históricos por cidades européias e meio de locomoção para seguranças em ambientes privados, como shoppings ou condomínios fechados. Aquela história de revolucionar o transporte pessoal e fazer com que tivéssemos um para comprar pão de manhã? Nunca passou de delírio na cabeça de um sujeito pessoalmente interessado em seu sucesso, uma historinha que o mercado de tecnologia comprou com gosto.

Além de ser proibitivamente caro, o delírio não levou em conta alguns outros fatores muito importantes para o sucesso de uma tecnologia. Claro, haveria uma reação da indústria “atacada” por Kamen, mas achar que as montadoras mataram o Segway é um delírio tão grande quanto. O Segway nunca chegou a ser uma ameaça séria o suficiente para que a indústria automobilística se mobilizasse contra. O Tecnocracia #44, aliás, mostra como o carro e as pessoas por trás das montadoras foram responsáveis por moldar a forma como bilhões de pessoas — eu e você, incluídos — vivem no mundo. Qual o principal motivo para o desastre? Projetar uma demanda gigantesca não a transforma necessariamente em realidade. Jobs, inclusive, ficou famoso por defender que ele inventava produtos que as pessoas queriam, mas não sabiam até Jobs mostrar para eles. Muita gente lê a frase para se inspirar e se esquece que não é o Steve Jobs, mas enfim.

Enquanto Kamen delirava e o mercado embarcava na ideia de que a grande revolução dos transportes seria um patinete de duas rodas com giroscópio para ir comprar ovo no mercadinho, a realidade se impôs. Quais foram as grandes revoluções dos transportes nos últimos 20 anos? Eu penso em duas, ambas envolvendo carros: uma é uma montadora provando que há modelo de negócios para veículos elétricos e outra é um aplicativo que faz a mediação entre passageiros e motoristas — respectivamente, Tesla e Uber.

Homem, mulher e criança, todos de capacete, andando em Segways numa rua em dia nublado.
Foto: Johny vino/Unsplash.

O Segway é um caso emblemático de como o mercado de tecnologia, em alguns momentos, decide qual vai ser a próxima onda. De onde eles tiram isso? Você sabe. Nestes casos, a realidade se impõe e dá um tapa na cara de todo mundo que caiu na historinha. É uma história constante, a gente já falou de outras aqui no Tecnocracia, como o Second Life ou as compras pela TV. Se você estiver com dificuldades de pensar em outra tecnologia dentro dessa mesma dinâmica, não se preocupe: ela está passando na sua frente agora. É bem provável que você não só tenha ouvido falar nela, mas já a use com uma certa frequência.

Há uma década, o mercado financeiro global gasta suas energias confabulando sobre as eventuais aplicações revolucionárias de moedas nascidas digitalmente e geridas por redes compartilhadas. Há uma década todos nós aguentamos aquele papo repetitivo de que moedas como o bitcoin transformarão profundamente a forma como consumimos bens e serviços. Só precisa ter um pouco de paciência, está chegando. Passa o reveillon e lá vem mais análises de publicações e influenciadores financeiros jurando que o ano é esse, não tem como escapar. Há uma década estamos esperando o Godot do bitcoin aparecer e nos levar para uma nova realidade do dinheiro 100% digital. Exceto que nunca chega. Tal qual Vladimir e Estragon da clássica peça do Samuel Beckett, ficamos ali, entretidos em nossas misérias e nossas memórias, acalentando uma promessa que nunca se realiza.

Dentro da história do começo, se o bitcoin é o Segway, quem é a Tesla ou o Uber? Três letras: P, I, X. Lançado há menos de um ano pelo Banco Central, o Pix já se tornou mais relevante para a economia brasileira do que qualquer criptomoeda. Repetindo: em meses, o Pix já fez mais para a maior parte dos brasileiros que o bitcoin em uma década. Por quê? Essencialmente, porque o Pix se tornou uma ferramenta útil de pagamento. Você consegue comprar lapiseira, computador, aula de yoga, sessão de dominatrix, pão, pipoca e até carro usando o Pix. Até esmola o crescente número de miseráveis no Brasil recebe por Pix.

O que você compra com bitcoin? Na verdade, qual foi a última vez que você usou bitcoin ou qualquer moeda digital para comprar algo? Pode pensar, rememore das profundezas do cérebro. Bem provável que nunca, né? Taí uma diferença fundamental: o bitcoin e todas as criptomoedas que se seguiram não honram o sufixo que carregam no nome: o “coin”, moeda em inglês. Essencialmente, nenhuma delas é moeda, daquele tipo instituído no Egito Antigo como um meio comumente estabelecido de transferir valores entre pessoas e/ou empresas. Moeda exige o mínimo de estabilidade para ser útil. Na prática, porém, elas são bens especulativos, como a ação de uma varejista, por exemplo. Claro, você consegue investir em outras moedas estabelecidas para lucrar, mas nenhuma delas serve só para isso nem tem a volatilidade das criptomoedas.

“Ah, Guilherme, mas eu consigo realizar o lucro da ação da Magalu que eu comprei há anos e transformar em bens para mim.” Exato, bonitinho e bonitinha, da mesma forma que você precisa converter os ganhos em bitcoin em real ou dólar para também comprar seu bullet coffee e seu corretivo para esconder as olheiras profundas de acordar todo dia 4h30 para ver live no Instagram. Você não compra pizza ou pão com bitcoin, dogecoin ou qualquer outra coin. Já o Pix a sua tia usa para comprar agulha de tricô, crédito para ligar para as amigas e acessórios para sessões de sadomaso.

No Tecnocracia da quinzena a gente vai falar sobre uma revolução financeira que está acontecendo diante dos nossos olhos, sem uma fração do hype, mas incontáveis vezes mais prática e útil que as criptomoedas. A cada 15 dias, o Tecnocracia traz histórias, estatísticas e um humor de gosto duvidoso para diminuir a espuma que o mercado de tecnologia insiste em espalhar e ajudar a mostrar o que está acontecendo de relevante atrás dos delírios de alguns megalomaníacos de boca mole. Eu sou o Guilherme Felitti. Além de episódios como esse que você está ouvindo, todo mês eu apresento um episódio ao vivo, o Tecnocracia Balcão, dentro do grupo do Manual do Usuário no Telegram. É parte dos benefícios da campanha de crowdfunding do Manual. Custa a partir de R$ 16/mês. Se você se interessou, siga por este link.

Você, que atua na área de tecnologia, percebe quando um assunto fura a sua bolha profissional: é quando amigos e familiares, até então interessados só em celulares, vêm perguntar alguma coisa. Há alguns anos vieram perguntar a minha opinião a respeito da digitalização do dinheiro. De início, vamos tirar algo da frente: o dinheiro da bolha a que você pertence já é digital. Há uma foto clássica do Garrincha em que ele aparece na tesouraria do Botafogo, em General Severiano, recolhendo os maços de notas do seu salário. Durante um bom tempo, a mediação financeira foi feita quase que exclusivamente assim, em papel-moeda. Qual foi a última vez que você recebeu seu salário em notas para guardar no bolso ou na bolsa? Muito provavelmente, essa pergunta nem faz sentido para você, porque o sistema bancário encontrou maneiras mais práticas e seguras de transacionar volumes. O cheque a partir do século XIX, por exemplo. A partir dos anos 2000, no entanto, a digitalização do sistema bancário significou também que o seu dinheiro virou bits. Hoje, para muitos de nós, o dinheiro não é nada mais que um dado guardado em um servidor seguro em um data center refrigerado. A cada compra, o dado diminui. A cada salário, ele aumenta. Para uma parte relevante dos brasileiros, da classe média para cima, o dinheiro já é digital.

Por que o Pix deu tão certo? São alguns os fatores. Primeiro é que a tecnologia por trás do Pix não é necessariamente revolucionária — a Red Hat, contratada pelo Banco Central para criar o sistema por trás, orquestrou tecnologias já disponíveis no mercado2. Não tem nada de protocolos novos ou a exigência de um novo tipo de processamento. É tudo mais do mesmo e isso é bom. Uma das pecinhas encaixadas é uma tecnologia que era apontada como o futuro há décadas e que, finalmente, encontrou uma serventia prática no dia a dia: o QR Code. Quem trabalha com tecnologia sabe como, desde a virada do século, os mais otimistas diziam que o QR Code revolucionaria os elos entre o mundo real e o virtual. Demorou, mas finalmente chegou — a publicidade e a mídia têm se esforçado muito nos últimos anos para você baixar apps ou participar de promoções com o QR Code na TV, mas o Pix é seu case de inegável sucesso.

O segundo fator é que o Pix já está totalmente integrado aos bancos. Em vez de ter uma wallet separada que exige tecnologia X ou Y, é só entrar no aplicativo do seu banco, seja ele tradicional ou digital, e movimentar seu dinheiro. O terceiro fator tem relação com isso: o Pix é amplo. Você pode fazer transferência (uma vez ou recorrente) e emitir pagamento. No futuro, vai ser possível saque, parcelamento e outras coisas. O quarto é introduzir no sistema financeiro informações mundanas — você pode mandar dinheiro para um número de telefone, e-mail ou CPF. Não precisa ter um novo número na vida das pessoas. Quinto: funciona até nos celulares mais simples. Você não precisa ter um iPhone poderoso para receber dinheiro ou pagar algo. Por fim, sexto: o Pix é, na imensa maioria dos seus usos, gratuito. Você pode comprar uma pipoca na rua de R$ 3 sem se preocupar com tarifas. Há taxações, principalmente para pessoas jurídicas, mas fintechs e bancos podem escolher isentar as taxas.

Como resultado, com menos de um ano ativo, o Pix já foi usado por mais de 97 milhões de brasileiros. Para um pouco para pensar na maluquice que é isso: um país gigantesco, com um sistema bancário super regulado, conseguiu fazer uma transição para uma nova tecnologia de pagamentos eletrônicos monstruosa em menos de um ano. A adoção foi tão acachapante que já cogitam a possibilidade de o Pix matar uma instituição nacional, a jaboticaba por excelência do sistema financeiro brasileiro: o boleto. Em menos de seis meses, mais de 2 milhões de contas de clientes da operadora TIM foram pagas usando Pix.

Essa velocidade sugere uma demanda latente que estava pronta para ser suprida. Vamos dar um passinho para trás: tem algumas ondas tecnológicas que o Brasil não entra de cara, o que, em retrospecto, se mostra ótimo. O atraso tecnológico, em raras vezes, funciona a nosso favor. Foi assim com urna eletrônica, por exemplo: em vez de sairmos do papel para as urnas de alavancas que os EUA ainda usam, já fomos direto para a eletrônica. Em termos de pagamentos, o mesmo aconteceu com os apps de pagamento instantâneo que inundaram os mercados norte-americano e europeu na última década. O principal deles no Ocidente é o Venmo — o Wechat faz o mesmo na China, mas, até aí, o que o WeChat não faz, não é mesmo? O Venmo facilitou as pequenas transações, aquelas diárias que fazemos com quem moramos ou trabalhamos. Dividir um café, uma conta de luz, uma noite na balada… Para fazer isso até novembro de 2020 no Brasil, era preciso um DOC ou TED. O Venmo tirou totalmente a fricção das transações financeiras e deu um elã de mensagem instantânea — você selecionava o valor para quem e mandava uma mensagem pessoal. Pronto. Empreendedores brasileiros até que tentaram emular o Venmo por aqui — uma startup capixaba lançou um app em 2012 de pagamentos móveis que seguia as pegadas do Venmo. Três anos depois, a J&F, holding que controla, entre outros negócios, a JBS, comprou a startup e a integrou ao Banco Original — era o PicPay, cujo IPO na Nasdaq foi adiado após grande expectativa.

Trecho de um relatório de administração do Banco Original que menciona a autorização do Banco Central para que o Original tivesse participação no capital social do PicPay.

Aí entra na discussão uma instituição fundamental para entender o Pix: o banco. O Pix não só foi abraçado pelos bancos — ele foi incentivado. Hoje a tela inicial dos apps de alguns dos maiores bancos do Brasil dão destaque ao Pix. O que nos leva a pilar básico sobre o qual nós já falamos no Tecnocracia #13: nenhuma tecnologia bancária avança no Brasil sem que os bancos explicitamente tenham decidido. Foi assim com os cheques na virada do século XIX, os cartões de crédito e suas máquinas reco-reco na década de 1980, a digitalização das redes de transação, o que levou aos cartões de débito a partir dos anos 1990…

O problema é que a história não parou aí. Este episódio da primeira temporada argumentava que os bancos estão sob ataque, mas não das fintechs que você normalmente considera na discussão: o risco vem das credenciadoras de cartão de crédito. A ascensão de PagSeguro e Stone na última década atacou uma brecha que o sistema bancário monolítico brasileiro, dividido praticamente em um duopólio privado (Itaú e Bradesco), achava que estava resolvido. A Rede e a Cielo (formadas das costelas de Itaú e Bradesco, respectivamente) nadaram de braçada por tanto tempo que se acostumaram com a ideia da liderança — o mercado de tecnologia já mostrou que essa é uma péssima estratégia. Vindas de dois mercados completamente diferentes, Stone e PagSeguro cresceram como foguetes, abriram capital nos Estados Unidos e, mais do que pressionarem, passaram a valer mais que os líderes com negócios menores, indicativo que o mercado os vê como o futuro. Há um boato circulando há anos de que a Stone vai assumir a Cielo. O episódio inteiro explica melhor a questão.

Meu ponto é que não houve nenhuma mudança radical na regra que beneficiasse apenas Stone e PagSeguro. Ambas estão vencendo os bancos em seu próprio jogo, sob suas próprias regras. O que pendeu a balança aí foi uma melhor execução. Foi entender que o modelo que valia quando as regras foram definidas já tinha evoluído, que havia espaço para algo novo. Os bancos não são bestas — ninguém chega ao tamanho e à concentração que têm no Brasil hoje sendo ingênuo. O caso das adquirentes de cartão foi o que a Luciana Gimenez chamaria de “cautionary tale”: aquela historinha repassada oralmente para infundir medo no coração dos executivos. Siga os mesmos passos e sofra as consequências. A forma como os bancos adotaram o Pix deixa claro que, nos cenários adiante, mesmo uma transformação dessa escala tende a beneficiá-los. Como? Por facilitar a bancarização dos excluídos.

Para os bancos, o Pix resolve alguns problemas. Um deles é impedir que um Venmo da vida monopolize o setor. Mas talvez o principal é ajudar a trazer para o sistema bancário cerca de 34 milhões de brasileiros que ainda não têm conta bancária, segundo dados do Instituto Locomotiva de janeiro de 2021. Esse grupo, composto principalmente de informais, movimenta um montante financeiro estimado em R$ 347 bilhões, equivalente ao PIB da Croácia. A pandemia forçou uma adoção acelerada — segundo o mesmo Instituto Locomotiva, os não bancarizados eram 45 milhões em 2019. Usar o Pix é tão fácil que uma parte considerável desse grupo, já dono de celulares, ficará mais tentando(a) a abrir uma conta. Não precisa ser num banco tradicional, pode ser em uma das dezenas de startups criadas na última década para surfar a onda de fintech. Os bancos tradicionais jogam o chamado long game. Em curto prazo, o Pix terá um impacto negativo principalmente pela queda nas receitas em curto prazo de DOC e boletos e, em médio e longo prazo, na de cartões de crédito e débito. Esse efeito já começou a ser sentido. Abre aspas para o balanço do Itaú no segundo trimestre de 2021: “na visão comparativa entre os seis primeiros meses do ano, a redução foi de 4,9%, ocasionada por menores receitas com transferências de recursos, além da entrada do Pix”.

A gente vê claramente como o Pix entrou na casa e deitou na cama do DOC e do boleto, principalmente os de valor menor, quando analisamos os dados do Banco Central. Em número de transações mensais, o Pix decola e, em março de 2021, já é mais popular que qualquer outro instrumento de transferência de crédito: DOC, TED, boleto e cheque. Lembremos que cartões não são considerados instrumentos de transferência de crédito, ok? Só ver o número de transações, porém, é uma armadilha. Se pegarmos os valores, outra história emerge. O crescimento do Pix também é grande, mas aqui ele ocupa a vice-liderança. Quem lidera com uma enorme margem é o TED — você percebeu que eu só coloquei DOC e boleto entre os alvos de curto prazo do Pix, né? O TED continua e deve continuar a ser o padrão em transferências bancárias de grandes volumes entre pessoas jurídicas, dadas as “transações de altíssimo valor”, nas palavras do Banco Central. Para você ter uma ideia: o montante total transacionado por TED em agosto de 2021, o dado mais recente, foi de R$ 3,2 trilhões. O do Pix? R$ 532 bilhões, seis vezes menos, mas ainda maior que boletos (R$ 427 bilhões) e DOC + cheques (R$ 64 bilhões). Na média, o valor de cada TED feito em agosto no Brasil foi 60 vezes maior que cada Pix. Todos estes dados estão no painel sobre meios de pagamentos do Banco Central.

Gráfico “Instrumentos de Transferência de Crédito - Quantidade Mensal”, do Banco Central, de outubro de 2019 a agosto de 2021. Em março de 2021 o Pix supera o boleto e continua crescendo vertiginosamente.
Gráfico: Banco Central/Reprodução.

Se colocarmos os cartões de crédito e débito na roda, o Pix já movimenta mais dinheiro que ambos em volume financeiro. Os dados consolidados mais recentes são do primeiro trimestre. O que ainda não passou é no número de transações.

Mas muitos desses novos bancarizados precisarão de outros serviços financeiros que não apenas o Pix. As startups conseguem supri-los até um limite. As únicas instituições com um cardápio de dezenas de serviços financeiros, de investimento em ações a empréstimo imobiliário, são os bancões. Isso sem contar a capacidade de oferecer condições melhores para empréstimos, um dos seus produtos mais lucrativos, pela gordura financeira mantida há décadas — a maioria das startups têm margens bem menores e são incapazes de brigar no preço. Ter mais gente no sistema aumenta as chances de que, em algum momento, alguns deles precisem dos serviços dos bancos. Todos os rios aqui correm para o mesmo mar: o da centralização bancária. Ainda que algum player se destaque, os bancos têm bolso fundo e incontáveis trimestres seguidos de lucros gordos para comprá-lo. Do atual cenário de fintech no Brasil, os bancos só não têm mandíbula para morder e estômago para digerir um player: com tanto dinheiro estrangeiro e um IPO já engatilhado nos EUA nos próximos meses, o Nubank deverá se colocar, em uma estimativa conservadora, ombro a ombro com o Santander na terceira colocação entre os bancos privados do Brasil. Depois do caso das adquirentes de cartões, os bancos deram os anéis para não perder os dedos e, lá na frente, voltar a comprar tantos outros anéis. E isso não é segredo para ninguém: os próximos executivos falam abertamente. “O Pix vai trazer reflexos importantes no mercado financeiro e deve beneficiar o Itaú com a bancarização de uma parte importante da população. Por outro lado, é de se esperar que boa parte dessas pessoas passe a usar o Pix ao invés de TEDs e DOCs. Isso deve ter um impacto inicial nas receitas com conta corrente do banco. Mas essas receitas representam menos de 1% e esse impacto deve ser moderado”, disse o então presidente do Itaú, Candido Bracher, para a Folha de S.Paulo3.

Transferência primeiro, todo o resto depois

A transferência de valores pelo Pix é só o primeiro serviço. O Banco Central já deixou claro que encara o Pix como uma plataforma, onde outros serviços financeiros serão acoplados. “O calendário de ações da instituição prevê, para o segundo semestre deste ano, o Pix Saque, que permitirá o saque de dinheiro em estabelecimentos comerciais, o Pix Troco, por meio do qual o consumidor poderá fazer uma compra com um valor maior que o da transação e receber o troco em espécie do comerciante, e o Pix Agendado, para pagamentos programados”. Além destes três, pelo menos outros três estão sendo implementados: por aproximação, offline e Garantido, para pagamentos parcelados.

Ao avançar sobre outros serviços financeiros, o Pix deixa de ser um experimento e vai aos poucos assumindo o papel a médio prazo de malha do sistema bancário brasileiro. De novo: esse movimento está muito longe de ser desprezível em um mercado altamente regulamentado e concentrado como o bancário no Brasil. Claro, existem uma série de dúvidas ainda a serem esclarecidas, muitas práticas e algumas estratégicas. A principal: há alguma chance de os bancos desenvolverem o famoso “cold feet” e abandonarem o Pix?

Parece altamente improvável por uma simples razão: um ambiente concorrencial equilibrado joga a favor dos bancos. Eles já têm base de clientes, estrutura técnica, cardápio de serviços financeiros e a inércia ao próprio favor. Um exemplo: 20% de todos os Pix são processados por um player, o Itaú. Historicamente, os bancos no Brasil nunca abraçaram uma tecnologia sem a certeza de que, ao fim do ciclo de mudanças, tudo estaria mais ou menos igual. A perda de receita por DOC é uma dor de cabeça temporária para se ganhar bem adiante. Outro ponto: o Pix é a introdução do open banking, uma iniciativa do Banco Central que facilitará a portabilidade de serviços financeiros para outras instituições. O compartilhamento de dados pelo open banking já começou em agosto.

Frente a essa mudança sísmica no sistema bancário brasileiro, sentiu falta de um termo? E o bitcoin? As criptomoedas? Você está ouvindo há anos que elas são o futuro. Aí a gente volta ao Segway. No começo da década passada, o mercado esperava uma revolução em transportes com um patinete de duas rodas com giroscópio. Esperava-se uma revolução. O que impediu? A realidade. As mudanças mais relevantes do setor nos anos seguintes foram incrementais em tecnologias já existentes: o motor elétrico e a coordenação em tempo real entre demanda e oferta. A revolução do Segway nunca veio – quer dizer, até veio, mas acabou nichada em um grupo minúsculo.

Da mesma forma, não houve tema sobre tecnologia e finanças na última década mais discutido e aventado que as criptomoedas, quase sempre explorando os impactos positivos. Eu acho que elas têm um potencial financeiro muito maior do que o Segway tinha em transportes. O ponto é que as criptomoedas viraram nosso Godot: estamos há uma década esperando a enorme revolução enquanto todas não passam de brinquedos nas mãos de uma galera que forma o cerne dessa cultura tóxica de empreendedorismo digital na qual estamos afundados (olha o bulletproof coffee e os coletinhos acolchoados sem mangas aí de novo).

Não quer dizer que, em médio ou longo prazo, alguma expectativa não se cumpra, ainda que de forma atrasada. Eu não estou tirando o potencial das criptomoedas. Meu ponto é que, ao mesmo tempo em que esperamos Godot, já há uma mudança em curtíssimo prazo com potencial de transformar o sistema bancário brasileiro e da qual você, muito provavelmente, já faz parte. É essa a mudança que deverá balizar como você transita seu dinheiro nas próximas décadas, algo tão grande (ou até maior) que a introdução dos cheques e dos cartões.

Pode parecer contraintuitivo, mas agora você vai precisar tirar o olho do Segway para não se estabacar no chão.

Foto do topo: Guilherme Felitti/Manual do Usuário.

Nota do editor: Ocultamos o número de telefone da Cícera, na foto do “abre” desta coluna, para preservar a privacidade dela. Eu e o Guilherme doamos uns trocados para ajudá-la. Se você quiser doar também, entre em contato que passamos o número em privado.

  1. Giroscópios são dispositivos que mantêm o eixo de rotação estável sempre na mesma direção, ainda que forças externas o force para um ou outro lado.
  2. No site da Red Hat você consegue baixar o “case” que dá detalhes técnicos da implementação do Pix.
  3. O Bradesco também tem falado publicamente em revender serviços não financeiros como forma de compensar a queda, como já fez com o Disney+, algo que o CEO Octavio Lazari chamou em conferência com investidores de “Bradesco as a service”.

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12 comentários

  1. Parabéns pelo artigo, explorou muito bem o contexto e previsões do Pix. Tenho como afirmar que a importância que tem o Pix dentro das instituições (pelo menos de uma grande) é enorme. Na minha opinião o Bacen evitou o “Venmo” no Brasil ao segurar a regulamentação das transferências via Whatsapp. Antes do lançamento do Pix alguns bancos já estavam rodando o piloto dessa feature, mas o Bacen sabiamente segurou para lançar sua plataforma primeiro e após a adesão maciça liberou o Whatsapp.

  2. Eu gostei muito do episódio, imaginei que fosse encontrar alguma discussão sobre a viabilidade do bitcoin. Mas não teve nada nos comentários o que é um pouco triste. Mas não tem problema, com esse episódio eu vi o potencial do bitcoin que seria se tornar o “pix” internacional. A única falha do pix que é um tanto grave e não vejo muita gente comentar é o controle/poder que dá ao estado. Como exemplo do cara que teve as chaves suspensas, tirando o fato do crime dele, essa ferramenta pode se tornar uma censura/opressão contra dissidentes e oposição (em uma extrapolação autoritária)

    1. Fala, CryptoFreak, há 2 pontos aí: a viabilidade do Bitcoin ainda depende de uma simplificação enorme do seu uso. Para ele ser adotado em escala como o Pix no Brasil, a galera não técnica precisa usar sem dor de cabeça e agora nem mesmo a galera técnica consegue direito.

      Segundo ponto: não tem como o Bitcoin se tornar um Pix internacional se a tecnologia não for adotada pelos países e pelo sistema bancário e, se (quando?) for, ela vai ser regulamentada.

      Não existe um cenário futuro palpável de sistema bancário descentralizado que não passe necessariamente por Bancos Centrais e instituições bancárias.

      Abs,

    2. Vejo que o Bitcoin poderia ser algo como o ouro do mundo virtual, finito, porém não possui valor ou utilidade física real, o problema é que a maioria das pessoas vive no mundo real.

      O ouro possui uma utilidade física, pode ser utilizado para fins diversos e é essencial em algumas áreas, tais como eletrônica, médica e espacial. Assim, nunca irá perder completamente seu valor.

      É finito, e tudo que é finito pode ser concentrado ou possuído em grandes quantidades e concentrado em apenas um portador majoritário, o que imediatamente lhe garantiria grande poder e controle. Na prática se isso acontecesse e o ouro fosse a única moeda, ao se concentrar com esse portador, muito provável que perderia seu uso como moeda, sería substituído por outro objeto com poder de troca ou até mesmo por papéis ou documentos de promessa de propriedade(de bens físicos reais) como garantia, são títulos ou papéis/dinheiro (acho que já vimos isso acontecer antes).

      O Bitcoin poderia ter função de moeda ou papel(bit) de garantia?

      Acredito que não, pois em sua definição já encontra o primeiro obstáculo, é finito. Ser finito permitiria que um grupo, uma sociedade, um país gerasse mais bitcoins para controlar sua demanda interna e em consequência se submeteria a outras economias ou a um poder centralizado, perderia soberania, o que como sabemos é muito difícil de acontecer.

      Esse sonho de uma ordem mundial, poder decentralizado, é por enquanto, ficção.

      Eu, pessoalmente, considero Bitcoin um experimento social científico, ou uma brincadeirinha virtual que pode tomar proporções elevadas e inclusive machucar bastante gente, mas que num futuro não muito distante vai ser lembrado apenas como tal.

      Alguma moeda virtual pode sim emergir mas ainda não é esse teste de tecnologia inicial que vai ser escolhido para esse fim.

      1. adicionando alguns números à conversa:
        O Bitcoin hoje tem US$200.000.000.000 alocados em 40.000.000 de carteiras individuais.
        200B em 40M de carteiras, realmente ainda tá na mão de pouca gente.
        E ainda tem mais US$90B alocados em moedas DeFi.
        Em 2021 não tem ng lamentando a morte da máquina de escrever, da carta, ou da fita k7, exatamente pq o que substituiu é mais barato e prático.
        Vamos ver oq o futuro nos reserva.

  3. É um texto muito bem feito e deve ter dado bastante trabalho, mas eu achei o argumento meio sem sentido. É como comparar laranjas com bananas.

    1. Da mesma maneira que charretes, locomotivas a vapor, veículos e Segways usam tecnologias essencialmente diferentes, mas todas servem a transporte e algumas tiveram uma maior penetração e importância à sociedade que outras, Pedro.

      O ponto do episódio não é se ater às especificações técnicas de X ou Y, mas ao uso delas para movimentar seu dinheiro. E não há tecnologia mais falada sobre a digitalização do dinheiro na última década que as criptomoedas, ainda que, até agora, os resultados práticos disso sejam restritos a um nicho MUITO pequeno.

    1. Realmente é isso mesmo que você falou, são coisas diferentes. Eu acho que a discórdia aqui é a maneira como cada um de nós vê o Bitcoin e demais criptomoedas.
      Eu pessoalmente acho que o Pix faz hoje o que o Bitcoin em si nunca vai fazer. Isso é somente o esperado. Não consigo ver uma economia descentralizada tão cedo.
      Assim como os Segways ainda são usados até hoje, por mais que minoritariamente, e as charretes ainda carregam pessoas e cargas. Acredito que o as pessoas se empolgaram demais e muito cedo.
      Talvez a importância de uma invenção não deva ser qualificada somente pela usabilidade, mas também nas possibilidades que cria.

      Grande abraço!

  4. Adorei esse episódio e pretendo citá-lo num artigo científico que estou produzindo.
    Pode informar qual o número deste episódio?
    A ABNT exige “lugar” se eu tiver: posso citar São Paulo?
    Atenciosamente, Paulo

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