Como parar de mexer no celular como se você fosse um viciado

Taiwanesas mexendo no celular no metrô.

Em 6 de dezembro de 2013, uma turista taiwanesa andava pelo pier St. Kilda em Melbourne, Austrália. O pier oferece uma bela vista do oceano, então presumi que muitos turistas sacavam seus smartphones para tirarem fotos. Como esperado, essa turista estava segurando o seu também, mas ela não estava registrando memórias preciosas — ela estava olhando o feed do Facebook. Ela andava pelo pier olhando fixamente a tela do seu celular, e foi essa distração que a derrubou. BOOM! Mulher ao mar!

Infelizmente para essa pobre turista, ela não sabia nadar. A boa notícia é que ela conseguiu boiar por uns 20 minutos até que alguém chamou as autoridades e um barco apareceu para salvá-la. Os registros oficiais do evento dizem que, depois de quase meia hora na água, a mulher ainda segurava o celular quando a ajuda chegou. Embora esses mesmos registros não mencionem, eu gosto de imaginar que os salva-vidas chegaram e gritaram a ela: “Estamos aqui para te salvar” e ela respondeu “Ah, mas com certeza vou postar isso no Instagram!”

O problema com os smartphones

É meio improvável que você caia de um pier enquanto olha absorto para seu celular, mas é virtualmente certo que você tem se distraído com ele em algum momento em que sua atenção deveria, sem dúvida, estar em outra coisa. Gostamos de pensar em nós mesmos como especialistas em como e quando usar nossos smartphones, mas a verdade é que eles estão no mercado há uns poucos anos. O uso e a adoção de uma nova tecnologia quase sempre está à frente do nosso entendimento sobre como essa tecnologia, afinal, nos afeta.

Peguemos os carros como exemplo. O primeiro carro foi construído em 1886 por um engenheiro alemão chamado Karl Benz. Demorou 30 anos para os carros ficarem amplamente disponíveis nos EUA, quando Henry Ford aperfeiçoou a linha de montagem e outros métodos de produção. Já naquela época os motoristas estavam cientes dos riscos fatais de operar uma máquina enorme e pesada em altas velocidades. E, ainda assim, cintos de segurança não foram obrigatórios em carros antes de 1968. O uso e a adoção dos carros ultrapassaram, em muito, o nosso controle dos riscos.

O primeiro iPhone foi lançado em 20071, então temos cerca de oito anos na era da tecnologia do smartphone. Estamos pelo menos cientes dos seus riscos? Vamos dar uma olhada na pesquisa já feita, bem como em alguns cuidados básicos que deveríamos tomar para garantir o controle sobre o poder dos smartphones, em vez de deixá-los nos guiar nesse passeio.

A pesquisa

iPhone 5s.

Não preciso lhe dizer que novos estudos científicos sobre smartphones, tecnologia e Internet são publicados regularmente. A tecnologia é uma área de pesquisa aquecida e esses artigos em especial funcionam bem na imprensa. O ponto do meu argumento é que a tecnologia tem efeitos psicológicos e físicos que podem ser bastante prejudiciais. Abaixo, algumas evidências:

Evidência A: “Tecnoferência”

Um estudo publicado ano passado na BYU sugere que mesmo breves interrupções da tecnologia — uma olhada rápida em uma mensagem, um gesto na tela durante uma conversa — pode gerar conflitos e “resultados negativos” em um relacionamento. Existiram correlações entre “tecnoferência” e níveis baixos de satisfação com a vida, sintomas de depressão e conflitos relacionados à tecnologia. Em outras palavras, efeitos psicológicos reais.

Evidência B: “Techneck”

Estamos familiarizados com a LER/DORT (lesão por esforço repetitivo/distúrbio osteomuscular relacionado ao trabalho) como resultado do uso do teclado. Que tal essa nova lesão relacionada à tecnologia? Pesquisadores encaram com seriedade a “techneck” (neck, em inglês, significa pescoço), definida como uma “dobra específica bem acima da clavícula que é causada por curvarmos o pescoço repetidamente a fim de olhar para a tela de um dispositivo portátil.”

Na medida em que você inclina mais seu pescoço, o peso a ser suportado aumenta. Faça isso centenas de vezes durante um dia e o resultado é um problema que “deteriora os músculos das costas e do pescoço ao ponto de ser necessária cirurgia.” E lembre-se, estamos realmente absortos nos smartphones faz apenas alguns anos.

Evidência C: A escala PUMP

Uma escala real foi idealizada para mensurar o tamanho do impacto negativo que os celulares podem ter em nosso comportamento. O acrônimo “PUMP” significa, na sigla original, “Uso Problemático de Telefones Móveis.” A pesquisa sobre o PUMP aponta similaridades críveis entre o abuso de substâncias viciantes e o uso exagerado de tecnologia — a ponto de dizer que “embora o uso problemático de smartphones não seja, até o momento, reconhecido como uma condição diagnosticável, especialistas na área estão debatendo sua inclusão como tal.”

As soluções

Uma observação interessante sobre a tecnologia é que às vezes as pessoas mais produtivas que conhecemos são, na verdade, as maiores culpadas da “tecnoferência” e de outros pecados dos smartphones. Às vezes confundimos produtividade com olhar seus celulares, o que não passa nem perto de ser verdade. Como esses aparelhos moldam hábitos fortes, as melhores soluções são ações que podemos tomar para enfraquecer o poder desses ciclos habituais. Aqui estão duas das que melhor funcionam comigo:

1) Enfraqueça o ciclo habitual

Celulares têm uma variedade enorme de gatilhos e eles são praticamente inescapáveis. Você talvez tenha alertas sonoros específicos para diferentes apps, padrões de vibração e notificações na tela. Mesmo quando o smartphone está no modo silencioso, dá para vez a luz da tela (ou do LED de notificações) se acender a metros de distância e, instintivamente, acabamos indo a ela. Para enfraquecer esse ciclo habitual, desative os gatilhos.

No meu smartphone eu desabilitei todas as notificações, exceto as de mensagens de texto e ligações, que são os meios de comunicação primários com outras pessoas. Até as notificações do e-mail foram desativadas, embora eu tenha deixado o badge para ver quantos não lidos ainda tenho. A vida é ótima sem notificações — os gatilhos externos se foram. Entretanto, ainda existem os internos que me fazem recorrer ao meu celular, como quando estou entediado. É para isso que temos a segunda solução.

2) Coloque o celular em seu lugar

Desde o início, a grande característica dos telefones móveis sempre foi a que está em seu próprio nome: a mobilidade. Nossos celulares podem ir a qualquer lugar conosco. Se os gatilhos são o principal motivo para o vício nos smartphones, a mobilidade é um segundo lugar que chega bem próximo do topo do pódio. As antigas linhas fixas permaneciam em um lugar; para fazer uma ligação, você tinha que se colocar em um local e ficar parado nele durante o papo.

Uma das melhores formas de reduzir o impacto negativo do smartphone é definir um lugar para ele. Quando estiver em casa, defina-o em uma mesa, ou uma estante fora do seu alcance. No trabalho, deixe-o em sua bolsa, afastado de você. Quando não se determina um lugar para o smartphone é quando as coisas saem do controle. No sofá? Você mexe no celular. No banheiro? Você mexe nele enquanto faz o número dois. Na cama, antes de dormir? Mesma coisa, e com outras implicações à sua saúde e sono.

Se tiver um lugar para o seu smartphone, e sempre deixá-lo lá, você minimiza os danos. Mantê-lo fora do alcance o afastará do impulso de recorrer a ele quando estiver entediado.


Max Ogles escreve sobre mudanças comportamentais, psicologia e tecnologia no MaxOgles.com. Ele publicou um guia de apps gratuito e tem uma newsletter semanal, também de graça. Este texto foi publicado originalmente em seu blog e traduzido e republicado com sua permissão.

  1. Sim, já existia smartphone antes disso. Uso o iPhone apenas como ponto de referência para a adoção em massa da tecnologia.

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36 comentários

  1. Ola, fui assaltada ha dois anos… me tomaram meu smartphone. Fiquei muito assustada depois. Mas logo me “esqueci”. So que Hoje não consigo mais ter celular. No sentido de ficar mexendo… tipo em WhatsApp, e todas as outras redes, mas especialmente NO celular, fico com crises de ansiedade. Tirei o hábito de mexer nele “atoa” e vi muita melhora.

  2. Eu acharia interessante uma matéria sobre como o uso da internet pode afetar nossa habilidade de se concentrar. Já li em outros sites mas acho que o manual do usuário poderia adicionar algo mais, haha, gosto de como vocês escrevem!

  3. Eu frequento um bar aqui na minha cidade, que tem uma placa bem humorada, com o símbolo do wifi e escrito assim: “Não temos wifi. Conversem entre vocês…” Quer dizer, estão percebendo a distância que está havendo nas relações pessoa-a-pessoa com o advento da comunicação constante via celular.

  4. Legal! Interessante os comentários da galera também! =)

    Há um tempo atrás, quando meu projeto era apenas uma ideia, me deparei com esse artigo do próprio Rodrigo ((http://www.papodehomem.com.br/movimento-slow-web-a-diferenca-entre-uma-namorada-possessiva-e-um-bom-amigo/) e caiu como uma luva. Me ajudou muito!

    Eu estou trabalhando há um tempo num aplicativo que estimula a socialização entre as pessoas e principalmente, tenta evitar justamente que as pessoas troquem a conversa real pelo celular. Situação muito corriqueira em restaurantes, bares, shoppings, e que gera muito desconforto em quem está sendo “ignorado”.

    Eu não sou muito adepto do “merchã” descontextualizado, mas acho que não é o caso. Eu criei o Olah! justamente nos moldes da Slow Web. Com ele as imagens enviadas de uma pessoa a outra ficam borradas até que elas se encontrem fisicamente. Também há pontuação por encontros e por manter o celular sem uso durante alguns minutos enquanto se está com outra pessoa. Enfim, caso haja interesse em nos ajudar e testar o app, baixa aqui para Android (https://goo.gl/5zUIUF). Valeu.

  5. Depois de dois anos com um Android 2.3 e mais um mês com Windows Phone meu Moto G 5.0 infelizmente se tornou meu melhor amigo.
    Tenho ele a um mês e foi tipo redescobrir a tecnologia, meu eu anti-social não desgruda dele, e isso que nem instalei facebook…
    Cheguei a instalar o Forest, mas é tão duro deixar ele de lado que prefiro nem abrir o app do que ver minhas arvorezinhas morrerem.
    Vou tentar tirar todas as notificações, deixar o bichinho mais longe da minha mão, e até aceitar a dica aí dos comentários e voltar a usar relógio…

  6. Algo que faço é desabilitar os dados móveis.
    Sim, o pessoal acha que é mão de vaquice, mas aquela porcaria acendendo o tempo todo, Whatsapp e Viber pipocando, e-mail, Instagram e afins, estavam me dando uma certa ansiedade.

    Hoje, só utilizo o 3G quando eu preciso me comunicar com alguém. Até porque, se for algo urgente, a pessoa irá me ligar.

    Depois que fiz isso, vi que fiquei bem desencanado com smartphone. Tenho um Lumia 820, e quem tem sabe que a bateria dele é bem sem vergonha.
    Antes, tinha que carregar ele no trabalho, pois não aguentava um dia inteiro de uso. Hoje, consigo dois dias de uso sem maiores problemas.

    []s

  7. São belas dicas mesmo e meu Moto X tem uma configuração semelhante para a Moto Tela, só aparece notificações de aplicativos de mensagens. São tantos que vai saber qual será utilizado. O resto eu até deixo normalmente, principalmente por que durante a semana meu celular fica sempre no silencioso, com isso não sou incomodado, só olho notificações quando quero.
    Vi o pessoal comentando do relógio. Eu voltei a usar relógio depois do Moto X. Sei lá, a Moto Tela me mostrou que não preciso ficar olhando o aparelho sempre em busca de notificações e não olhar para ver as horas ajuda mais ainda.
    Mas agora gasto dinheiro com acessórios porque gostei de voltar a usar relógios.

    1. Tenho smartphone, mas não utilizo redes sociais. Não consigo entender como tanta gente acha normal usar Facebook, WhatsApp, Instagram e etc.

      1. tava lendo ontem na Época sobre aplicativos que cairam no esquecimento.
        o Secret fechou as portas e ninguem mais lembra do tão polemico Lulu…

  8. Notificações eram legais em 2011, 2012, mas depois de um tempo o negócio está invasivo e chato. Sem contar que se deixar tudo ativado, a produtividade vai pro espaço.

    No trabalho só deixo notificação do wazap ativada pra msg da esposa e meus pais. Quando to em casa, só pros meus pais.

    Email, eu olho no fim da tarde e pronto, até pq email foi feito pra isso.

    Twitter vejo no navegador, não uso instagram. Facebook eu olho 1 vez perdida.

    Quando eu to no ônibus, ligo um podcast ou o spotify e observo a janela. Quando tem combustível no carro, podcast e spotify..

    Bateria do meu xiaomi aguenta tranquilamente.

  9. Bom! Depois deste artigo, vou começar a colocar em prática tais dicas, apesar de raramente utilizar durante o dia aplicativos de chats instantâneos. Contudo, percebo nitidamente que às vezes fico olhando pro celular torcendo para alguém me mandar alguma mensagem.

    Ótimo artigo! :)

  10. Bom! Depois deste artigo, vou começar a colocar em prática tais dicas, apesar de raramente utilizar durante o dia aplicativos de chats instantâneos. Contudo, percebo nitidamente que às vezes fico olhando pro celular torcendo para alguém me mandar alguma mensagem.

    Ótimo artigo! :)

  11. Eu uso tão pouco meu aparelho que consigo 2 dias de uso numa só carga. De madrugada eu deixo em modo avião, nao deixei sicronizar contatos e desabilitei notificaçoes. Nem whatsapp eu uso, pois usava só pra falar com o pessoal da banda e isso eu posso fazer pelo facebook.
    já a minha namorada me irrita em certos momentos. as vezes ela está no PS3 e fica com o jogo pausado por um tempão, pois está grudada no whatsapp…. porra, ou joga ou mexe no celular! eu até já consegui educar ela a deixar em modo avião tambem, pois detesto ficar ouvindo o aparelho vibrar com notificaçoes.
    na rua me irrita os pedestres que não tiram o olho da tela. dá vontade de dar um tapa no celular.

    1. alias, até comprei um relógio digital bem vagabundo, só pra ver se eu me acostumava a usar novamente.
      me acostumei e já nao dependo do smartphone pra ver as horas….

      1. Boa, apesar de gostar do relógio como objeto, já trabalhei em relojoaria, sou meio contra seu uso desde que tenho celular por que acho que não faz sentido, mas vou tentar voltar a usar para diminuir o costume de puxar o smartphone do bolso.

  12. Uma prática que tenho adotado no trabalho é deixar o smartphone sempre na mochila, com notificações sonoras apenas para ligações e mensagens. Percebi que me deixa muito menos ansioso, e que pego o celular 2 ou 3 vezes apenas para conferir se há algo (se deixasse à vista seria bem frequente as checadas).

  13. No ônibus algumas pessoas sempre estão mexendo no celular. Muitos não puxam assunto, a frieza aumenta. Às vezes ao nosso redor acontecem coisas tão legais, mas o uso do smartphone quebra esse contato com o mundo externo.

    As redes sociais são lugares solitários. Acredito que esse acolhimento dos nossos amigos virtuais seja apenas uma ilusão.

    1. Eu não gosto de conversar no ônibus, até por que eu corro o risco de ter minha manhã estragada (a ponto de eu querer chorar) por gente falando em inferno, em diabo, em ‘golpe comunista’, etc…

      1. Sim, eu também receio. O ônibus foi um exemplo dessa frieza, gelo absoluto em que muitos olham para o smartphone ou sequer olham para você numa conversa.

  14. Também adoto práticas parecidas. Quase todos os aplicativos com notificações desativadas, mas isso tem um ponto negativo, quando se está com o telefone na mão, fica-se o tempo inteiro conferindo o Whatsapp pra ver se não tem algum recado, por exemplo. Durante o dia, como já trabalho no computador direto com vários emails e telefone da empresa tocando, o celular fica na gaveta.

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