O que muda com a compra da Motorola pela Lenovo

K900, o smartphone topo de linha da Lenovo.
Foto: Lenovo/Reprodução.

Semana passada tivemos a Campus Party, vimos Rudy Huyn ser convocado pelo Tinder para criar o app oficial da rede para o Windows Phone, o início das vendas do Nexus 5 no Brasil (e que caro!), o novo nome do SkyDrive (OneDrive?), o anúncio do Paper (o do Facebook, não o da FiftyThree)… quanta coisa!

Nada disso superou o susto que foi a compra da Motorola Mobility pela Lenovo. Por US$ 2,91 bilhões os chineses levaram-na do Google e deixaram todos surpresos. Havia indícios de que algo do tipo aconteceria, mas justo a Motorola? Ninguém esperava.

O valor é bem menor que os US$ 12,5 bilhões que o Google, ex-dono da Motorola, pagou há menos de três anos. A diferença se deve ao fato de que apenas uma parte foi vendida, a de dispositivos móveis. Antes disso o Google já havia se desfeito da unidade de set-top boxes por US$ 2 bilhões e na negociação com a Lenovo ficou de fora boa parte do valioso portifólio de patentes da Motorola.

O negócio, aliás, espanta quaisquer dúvidas que porventura existissem sobre os motivos da compra da Motorola pelo Google. Eram as patentes mesmo, uma arma de defesa e ataque contra Apple e Microsoft que, no fim das contas, embora ainda hoje importante, acabou subutilizada pela diminuição da tensão na guerra fria das patentes.

Os bons frutos de uma relação estranha

A Motorola enquanto uma empresa Google conseguiu se reinventar e provar um ponto importante. Moto X e Moto G foram aclamados por público e crítica e mostraram à concorrência como se fazem smartphones bons, bonitos e baratos. Ideias simples, como usar uma variante limpa do Android e apostar em otimização em vez de processamento bruto, são pequenos detalhes que mostraram, na prática, que os anseios dos usuários mais entendidos tinham algum fundamento. E, importante, sem perder em cada venda, como acontece com a linha Nexus — ainda que não tenha lucrado ou vendido o bastante para impedir sucessivos trimestres no vermelho.

Por melhores que sejam, porém, os novos smartphones da Motorola-Google se posicionam de maneira estranha no mercado. Com a aquisição da Motorola, o Google passou a concorrer com seus parceiros. Samsung, LG, Sony, HTC, todos que confiam no Android em seus equipamentos viram com desconfiança esse affair, uma estratégia que não combina com o modelo de negócios do Android e colocava o Google em uma disputa acirrada (e arriscada) num segmento onde as margens de lucro caem cada vez mais e pouca gente faz dinheiro de verdade. Como disse o CEO Larry Page no anúncio oficial, “(…) para prosperar [no mercado de smartphones], ajuda dedicar-se totalmente à fabricação de dispositivos móveis”.

A Lenovo leva, com a aquisição, a marca Motorola e derivadas (Moto X, Moto G, Droid), o CEO Dennis Woodside e todo o pessoal da empresa, 2000 ativos intangíveis e um acordo de licenciamento das patentes, que continuam sob o domínio do Google para defender o sistema de ataques da concorrência. A promessa do Presidente da Lenovo na América do Norte é manter o que quer que esteja em desenvolvimento na Motorola.

Como será a Motorola da Lenovo

Vi muita gente preocupada e até transtornada com a venda. Calma! Acho que não é para tanto. O histórico da Lenovo, pelo menos, é animador: em 2005 comprou a divisão de PCs domésticos da IBM por US$ 1,25 bilhão e, hoje, é a maior fabricante de computadores domésticos do mundo. Há duas semanas adquiriu, também da IBM, sua divisão de servidores de entrada por US$ 2,3 bilhões. E ano passado, levou a brasileira CCE por US$ 300 milhões.

Eles não são conhecidos por aqui, mas os smartphones da Lenovo existem e são populares na China, terra natal da companhia e o maior mercado em potencial do mundo. Lá, eles só ficam atrás dos da Samsung em distribuição.

Dependendo da consultoria a Lenovo já figura, sozinha, em terceiro lugar no ranking de smartphones. Agregar os números da Motorola não ajuda muito a se aproximar de Apple e Samsung (~17% e ~30%, respectivamente, contra ~6% da Lenovo-Motorola), mas permite fincar um pé nos EUA e em regiões menos maduras e mais sensíveis a preços, como América Latina e leste europeu, onde aparelhos como o Moto G se saem muito bem.

No fim, todos ganham. A Lenovo reforça a sua oferta de produtos “PC Plus” e ganha presença nos mercados mais fortes do planeta, e o Google volta a fazer as pazes com as fabricantes-parceiras do Android, a focar no desenvolvimento do sistema e apostar em segmentos inexplorados e futuristas, como termostatos inteligentes, robôs corredores e carros que andam sem condutor.

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5 comentários

  1. Não tenho tanta certeza de que no fim, todos ganham. As empresas realmente saíram no lucro, mas como fica o usuário final? O futuro da Motorola, que me animava, agora só desperta dúvida. Ela fazia software ruim antes do Google (Oi, Motoblur), passou a fazer software bom durante o Google e ninguém sabe o que vai ser agora. Pode passar a simplesmente estampar sua marca em aparelhos como esse http://i.imgur.com/JsSq74S.jpg.

    Sabendo que Android focado no usuário com boas personalizações são exceção, acho que eu tenho todo o direito de ficar desconfiado. Só o tempo dirá se a Lenovo irá manter a qualidade que a Motorola tem apresentado em seus aparelhos recentes.

    1. Um pé atrás é até saudável — eu não colocaria a minha mão no fogo pela nova Motorola-Lenovo. Só acho que o histórico recente, das duas, não dão indícios de uma “recaída” pelo Motoblur ou similares.

      Do lado da Motorola, sua operação inteira será migrada para a Lenovo e dado o bom trabalho, reconhecido por mídia e público, é pouco provável que os chineses interfiram drasticamente no que está sendo feito lá dentro — o próximo Moto X ou Moto G ou Moto-qualquer-coisa.

      A favor da Lenovo, temos a compra da divisão de PCs domésticos da IBM. A linha ThinkPad não perdeu sua aura de equipamento de qualidade, outras linhas mais simples despontaram desde 2005 e, não por acaso, hoje é a maior fabricante de PCs do mundo.

      Claro, claro, podem forçar essa interface esquisitona aí da Lenovo nos próximos smartphones da Motorola. O risco existe. Só acho que ninguém lá está muito a fim de corrê-lo.

  2. Eu, como muitos, fiquei espantado e um pouco chateado com essa transação. No ato da compra, achei que a Motorola seria vendida assim que possível já que ela foi adquirida do nada no auge da guerra de patentes. Depois, quando o Google colocou seu nome no logo da Motorola eu pensei: pelo jeito, viram uma oportunidade em manter um braço na produção de hardware “tradicional” e irão investir nisso. Logo depois, vendem do nada. :(

    Apesar da surpresa acho que as pessoas reagiram exageradamente: a Motorola não estava com aparelhos tão ruins pré-Google e nem tudo que foi feito será desmantelado de uma hora para a outra. Acredito que o Google tinha um “vibe” interessante de ser focada em usuários como a Apple mas sem exagerar no luxo e restrições dos produtos, mas vamos torcer para a Lenovo antes de ficar chorando haha

  3. Concordo com o Henrique. Talvez esse tempo do Google com a Motorola tenha sido para apresentar as reais possibilidades do Android.
    E espero que a venda para a Lenovo tenha sido amarrada para garantir as qualidades colocadas na linha Moto.

  4. Acho que ao desenvolver o Moto X e Moto G antes de vender a divisão mobile, a Google(company), queria mostrar aos parceiros do Android o que ela espera de um bom aparelho Android: Preço competitivo, design inteligente e o mais importante: um sistema operacional fluído com poucas mas úteis alterações.
    abs.

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