O iPhone esmola

Detalhe no Touch ID de um iPhone SE branco.

O jornal Folha de S.Paulo teve acesso a mensagens de uma rede interna usada por procuradores da República em que eles reclamam do celular funcional que receberão para trabalhar, um iPhone SE, cujo preço sugerido começa em R$ 3,6 mil. O aparelho foi chamado por um deles de “esmola”.

O contrato da Procuradoria Geral da República (PGR) com a Claro prevê linhas a 1,2 mil procuradores e 650 servidores comissionados, a um custo individual de R$ 219,90 por mês, com celulares iPhone SE fornecidos em regime de comodato, ou seja, que devem ser devolvidos ao final do contrato de 30 meses.

Marco Tulio Lustosa Caminha, procurador que atua no Piauí, é o mais revoltado nas mensagens divulgadas. Nelas, ele argumenta que 40% do seu trabalho é feito no celular e que após três anos com um iPhone 7, que estaria “ultrapassado, processador lento, bateria ruim, tela pequena”, não aceitará passar 30 meses com um iPhone SE. “Isso é um insulto!! Não quero esmola! Acho que ninguém aqui quer esmola!!”, escreveu.

Em outro trecho, Marco Túlio diz que os procuradores têm a opção de receber apenas o chip da Claro e colocá-lo no aparelho que bem entenderem ou receber o celular com o chip, “COM O ALERTA QUE SE A OPÇÃO FOR ESTA ÚLTIMA O APARELHO SERÁ UM IPHONE SE!!!” — as maiúsculas e exclamações são dele.

A Folha apurou que a remuneração total de Marco Tulio em janeiro de 2021, que inclui gratificações por acúmulo de ofícios, chegou a R$ 102 mil.

Qualquer que fosse o celular oferecido pela PGR, o xilique dos procuradores seria revoltante. Fica mais feio pelo aparelho ser um de ponta, acima do que a maioria dos brasileiros tem condições de comprar.

O iPhone SE foi lançado em abril de 2020. Ele traz o penúltimo chip da Apple, o mesmo que equipa a linha iPhone 11, e roda a última versão do iOS. A tela é realmente menor que a dos modelos mais premium — 4,7 polegadas contra 6,1 do iPhone 12 e 12 Pro e 6,7 do iPhone 12 Pro Max, celulares que custam a partir de R$ 8 mil, R$ 10 mil e R$ 11 mil —, mas é perfeitamente usável, e digo isso por experiência própria. Bônus: o sistema de biometria, por impressão digital, funciona melhor nesses tempos pandêmicos que o reconhecimento facial dos iPhones mais modernos, que se torna inútil quando o usuário usa máscara. Ademais, o visual do iPhone SE está datado (é o mesmo do iPhone 6, de 2014), mas isso não deveria importar no desempenhar das funções, certo?

Para mim, o iPhone SE é o celular perfeito: tem um design testado e comprovado, é cheio de acessórios compatíveis, seus componentes foram barateados pelo tempo e, consequentemente, é vendido a um preço mais acessível, que fica ainda menor com os descontos comuns do varejo. (Nesta quarta, ele saía por R$ 2,5 mil, segundo o comparador de preços Zoom.) Não é à toa que a Apple reaproveita o mesmo projeto há tanto tempo.

Os procuradores, como muitos da casta de profissionais intelectuais, estão trabalhando de casa. “Estamos há quase um ano trabalhando de casa, celular, notebook, internet, energia… Que bagunça é essa??”, questiona Marco Tulio. Além do “celular esmola”, eles têm direito a um iPad (a partir de R$ 4 mil) e a um notebook de até R$ 4,5 mil.

Perguntei à PGR o que os procuradores tanto fazem no celular. Por e-mail, a assessoria se limitou a dizer que os equipamentos “são imprescindíveis para a realização do trabalho, sobretudo no contexto da pandemia de COVID-19, em que o modelo virtual de trabalho passou a ser regra, inclusive, para garantir a continuidade de procedimentos judiciais e extrajudiciais”.

Insisti. Queria saber das tarefas que, aparentemente, só podem ser feitas no celular. Afinal, eles estão trabalhando de casa e com um iPad e um notebook à disposição; deve haver uma justificativa para que 40% do trabalho seja feito no menor aparelho, no mais desengonçado. Até o fechamento deste texto, não havia recebido resposta.

Questionei, também, o que motivou a PGR a escolher o iPhone SE. “A escolha desse modelo ocorreu por tratar-se de aparelho intermediário, que atende às necessidades a um custo adequado para a Administração”, disse a assessoria, e que “[o iPhone SE] possui sistema operacional reconhecidamente mais seguro; há uma cultura de uso na instituição; e tem compatibilidade com outro equipamento (iPad) fornecido pelo MPF”.

Parece coerente.

A reportagem da Folha só nomeia três procuradores que se manifestaram contra o novo celular funcional. Talvez esse grupo de mimados seja minoria, uma exceção ruidosa e desavergonhada em um universo de mais de 1,2 mil profissionais. Torço para que seja isso. A PGR afirmou ao jornal que o contrato do iPhone SE com a Claro está mantido, apesar da choradeira desses (poucos?) procuradores. Menos mal.

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6 comentários

  1. Todo dia uma decepção nova. Essa birra só existe porque esse dinheiro todo não sai do bolso deles.

  2. Em um ano de MPF/GO, só vi procurador usar o iPhone funcional para tuitar – o que não deixa de ser “trabalho”, já que o mais famoso da casa buscava no Twitter as polêmicas que motivariam suas ações (banimento de perfis de direita pelo Facebook, por exemplo).

  3. Com um notebook você já descartaria a necessidade de um iPad, mas a pergunta real é qual a necessidade de um telefone top de linha? Existem muitas alternativas abaixo dos 2mil reais para o uso de trabalho. Fora que estamos falando de procuradores, não jornalistas que precisam cobrir o dia a dia, situações inesperadas e precisam de uma câmera boa em mãos.
    Esse pessoal vive em outro mundo, já ganham um salário daqueles, já tem uma série de benefícios muito além do brasileiro comum e reclamam de algo que já está muito além do normal.

    1. Posso estar falando besteira, mas promotores também precisam fazer registros de fotos e vídeos para provas e averiguações, então de fato a regra da câmera boa também é válida – isso vale para qualquer profissional de segurança e legislação, pois falamos de produção de material para uso na justiça.

      No entanto, vale seu último parágrafo.

  4. Sabe o que mais enoja? É saber que vai ficar por isso mesmo e, após tantos biquinhos, vão mudar o modelo do aparelho para agradar um bando de mimados. Esse é o Brasil que queremos, onde uma casta faz o que quer enquanto a outra paga a conta. Sério, nem se voltássemos a 1.500 pra devolver pros índios e pedir desculpa isso aqui não teria jeito. O mais desestimulante são as desculpas encontradas para justificar o injustificável. É pra sentar e chorar. Pobre de nós.

    1. Exatamente. Esse pessoal está tão acostumado a ter regalias e a ganhar tanto dinheiro que vivem em uma realidade paralela à do brasileiro “comum”.

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