Frame do sexto episódio da terceira temporada de Black Mirror.

Guia Prático #102: A terceira temporada de Black Mirror


30/10/16 às 16h44

No programa de hoje, eu (Rodrigo Ghedin), Emily Canto Nunes e Samir Salim Jr. discutimos as nossas impressões sobre a terceira temporada de Black Mirror após vermos todos os seis episódios. Há meio que um consenso de que o impacto foi menor que o das duas primeiras, mas a nova leva de histórias distópicos saídas da mente de Charlie Brooker ainda consegue nos fazer refletir sobre o papel que a tecnologia tem nas nossas vidas. Para compensar semana passada (não teve!), este episódio ficou um pouquinho maior. Atenção: contém spoilers.

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11 comentários

  1. Eu gosto da serie, primeira e segunda temporadas foram incríveis por serem mais breves, tinham aquele ritmo mais frenético, uma visão mais literal do que a tecnologia pode nos transformar, as vezes mostrava de forma extremamente literal coisas que ja fazemos virtualmente. Terceira temporada senti o ritmo cair, porem percebi que estavam focando mais em detalhes, estavam sendo menos agressivos visualmente, mostrando como e o por que de tal coisa acontecer. Ainda sim não tirou o foco do principal, que é a engenharia social, mas no caso em especifico é a engenharia social virtual aplicada no cenário real, onde em alguns episódios a vida da pessoa literalmente é uma rede social, funciona como uma. Como eu disse, muitas vezes é mostrado de forma literal coisas que ja fazemos em ambiente virtual mesclado com a realidade, e é isso que cativa na serie. Meu preferido é o ultimo da segunda temporada, pois esse ano ainda cientistas criaram um bot e deram informações do falecido marido de uma das cientistas, e ele foi tão melhor que o imaginado que surpreendeu ate quem o criou. Fico imaginando que não demorara muito para estarmos falando com alguém mas não saberemos se é a pessoa de fato, ainda mais que a google anda avançando muito no setor de IA e redes neurais.
    Ai eu lhes pergunto, mas a pergunta serve pra daqui a 10 anos: O que é real?

    1. Algumas pessoas já não me parecem reais… elas agem de modo tão robotizado q custo a crer na humanidade delas.

      1. Eu, particularmente, tenho como característica observar de todos os ângulos possíveis uma pessoa, e não me refiro a fisicamente. Seria como olhar os dois lados da coisa, só que eu olho todos os lados, o que teria de fato acontecido, o que se especula que aconteceu, as inúmeras hipóteses, e por ai vai. Serve como justificativa. Cheguei à conclusão de que muitas pessoas, fatigadas mentalmente, apenas agem de modo automático, o que é relativamente comum, pois a maioria se prende à um circulo vicioso, uma rotina analógica. Porém muitas são realmente falsas, vestem um personagem que é diferente do que elas realmente são por dentro, nunca tiram suas máscaras. Mas ai entra uma reflexão: todos nós ja não usamos mascaras? quem de nós realmente é e demonstra ser aquilo que pensa, aquilo que sente, aquilo que o define?
        Todo mundo usa mascara, alguns aquelas bem leves, apenas para disfarçar, outros usam mais de uma, seja para enganar, seja para esconder marcas do passado. O mundo é um palco, quem não é ator é marionete.

        1. “Cheguei à conclusão de que muitas pessoas, fatigadas mentalmente, apenas agem de modo automático, o que é relativamente comum, pois a maioria se prende à um circulo vicioso, uma rotina analógica. Porém muitas são realmente falsas (…)”

          Se vc considerar isso como uma impressão sua, uma inferência a partir da sua subjetividade, ok, mas acho muito difícil, ou mesmo improvável, saber a razão de pessoas agirem de modo robotizado/automático… Seria necessário ver qualé a delas, mas, ainda assim, a incerteza continuaria. Me preocupa mais a consequência do agir robotizado/automático e menos a razão de ser dele, já q é algo insoldável assim superficialmente pra mim e creio q pra vc tb…

          A metáfora do palco é boa, mas ando preferindo a metáfora do jogo.

  2. Série revolucionária, daquelas que te dão soco no estômago.
    Assisti todos episódios já no lançamento. Nem sou de fazer maratonas.

    No primeiro episódio – Aquela música melancólica, seguida de uma rotina deprimente, durante quase os cinco primeiros minutos do episódio, achei incrível. Discordo das criticas de que ele foi o pior da temporada. Para mim, talvez, tenha sido o melhor.

    Quarto episódio… Eu devo ter sido o único que não enxergou um final feliz. Na minha opinião elas morreram. O que estava sendo executado era uma simulação. A consciência das duas jovens deixaram de existir na hora da morte.
    San Junipero nada seria que memórias adicionadas na mente da pessoa? Ex: a simulação ocorre, enquanto isso o corpo fica “desmaiado”. Terminada a simulação, aquelas memórias são adicionadas a mente da pessoa, como se ela própria tivesse vivido.
    A partir do momento que o corpo biológico vai embora, aquilo passa a ser apenas bytes em uma máquina. Ou seja, não são as duas mulheres que estão ali. Apenas códigos fontes executando ações.
    *Caraca, enquanto escrevo me pergunto a diferença da minha consciência para um mero código fonte executando ações. :)

    Quinto episódio vocês assimilaram apenas com o nazismo… Eu já vi relação com o cotidiano muito mais próximo. Não ao extermínio (isso felizmente, está muito distante) mas a utilização de argumentos para completa cegueira para o ponto de vista do outro.
    -“A jovem é filha de petista, então seu discursos é uma farsa”
    -“O senador é um golpista, logo seu projeto deve ser combatido”

    Saindo do assunto da série:
    Já é a terceira vez que eu vejo o Ghedin falando sobre a solução de utilizar o poder estatal para regular abusos de grandes empresas. Acredito que em todas as pessoas discordaram, mas não sabiam dar uma alternativa.
    A ausência de regulação partiria do princípio de que todo mundo é capaz de escolher o melhor para si. Sendo assim, ao longo do tempo, empresas que, (por exemplo) não explorassem os dados dos usuários seriam reconhecidas e virariam lideres do mercado…
    Em um mundo onde ninguém lê os termos de uso, acredito que isso esteja anos luz de se alcançar.
    Logo, solução por interferência estatal, acredito ser a única solução plausível.

    A questão não é nem saber qual o tipo de solucao, mas: saber se é melhor mexer no vespeiro e consertar o problema, ou deixar rolar, pois os riscos de uma interferência poderia ser muito mais danoso que o próprio problema.

    1. Sobre o quarto episódio, acho que é consenso que elas morrem — ou, pelo menos, que o corpo/a matéria morre. O dilema está justamente no que vem depois, se elas aceitam a morte, o fim da vida naturalmente, ou se topam ter a consciência transferida para um servidor e continuar aquela vida perfeita que, em vida corpórea, elas experimentavam semanalmente, em sessões curtas de poucas horas.

      Uma hora a Kelly até diz: “enviada para a nuvem… parece o paraíso.” Elas vivem uma simulação, mas não é algo enxertado no cérebro delas antes de morrerem. É uma continuidade desencarnada. Alguns estudiosos teorizam se nós já estaríamos vivendo uma simulação (vide: http://www.newyorker.com/books/joshua-rothman/what-are-the-odds-we-are-living-in-a-computer-simulation ) e, com os avanços da nossa tecnologia, a ideia de separar a nossa consciência de corpos de carne e osso não é algo tão absurdo. O episódio discute justamente isso.

      O quinto episódio é bem por aí. O exemplo do nazismo talvez seja a expressão máxima da mensagem que ele transmite, mas é visível outros exemplos, em gradações mais leves, no dia a dia. Ele trata de como, ideologicamente, deturpamos a visão do outro até transformá-lo em inimigo, desumanizando-o. Ele é bastante didático, por isso, acho, a Emily e o Samir não curtiram muito, mas tem uma mensagem forte e apresenta um dilema igualmente pesado — viver feliz na ignorância ou descobrir a cruel realidade.

      Sobre a discussão do poder público, estou escrevendo algo para aprofundar a discussão. Mas, adiantando, eu acho que, sim, é preciso mexer no vespeiro, porque de outro modo nos sujeitamos a uma dinâmica de mercado que não tem o bem estar como prioridade. Deixar isso de lado é correr um risco muito grande.

      1. O segundo, o quarto e quinto muito me impressionaram até agora. Ainda não vi o último, mas provavelmente vem coisa boa aí.
        Todos os cenários, como nas outras temporadas, são altamente possíveis e, em vários casos, terríveis.
        Fico imaginando, no quarto episódio, um condenado a uma prisão com aquelas penas de vão uns 200 anos, pode, finalmente, cumpri-la integralmente num mundo em q sua consciência sobrevive. E parece fazer muito, mas muito sentido dar sobrevida À consciência do q ao nosso corpo orgânico. Mas o q me parece o dilema e a fantasia aí é justamente isso: nossa consciência se descolaria do nosso corpo orgânico de que forma!? A consciência ainda é um mistério total, então… como ficção-científica, tá show de bola pensar nas implicâncias.
        O quinto episódio é ultra simbólico e não apenas como referencial do nazismo, já q muitos conflitos étnicos tiveram desdobramento após a segunda-guerra e levaram milhões de pessoas à morte. O q me impressionou ali foi essa releitura do mito da caverna com uma simples intervenção, essa sim bem mais crível, de maquiar a realidade com essa camada onírica. A ideologia por de trás disso estaria restrita às esferas de comando, fazendo tropa e pessoas acreditarem numa ilusão q dispensa o convencimento ao remeter ao monstruoso… Kafka e Platão no mesmo episódio! Me pareceu um desdobramento daquele episódio do grão, mas um desdobramento mais terrível, já q vai para o campo da manipulação da realidade e das memórias. No outro episódios o cidadão ainda tinha a opção e o controle das próprias lembranças, apesar disso tb ter sido uma maldição pra ele.
        Em suma, gostei do papo de vcs!

      2. Quarto episódio:
        Sabe aquele episódio (S02E01) em que a mulher tem um protótipo do namorado falecido em forma física? Naquele episódio ninguém acreditou que era o próprio namorado dela que estava naquele corpo sintético.
        Seria aquilo de uma forma melhorada, ao invés de puxar nas redes sociais as informações sobre padrões de comportamento, faria isso diretamente da mente.
        A diferença é que elas poderiam acessar essa simulação enquanto estivessem vivas. Seja “ao vivo”, seja com memória implantada simulando ter passado por aquela experiência. Seria praticamente impossível diferenciar.

        Enfim, eu enxerguei como uma duplicação simulada da consciência delas e não como uma transferência.

        1. São situações próximas, mas fundamentalmente diferentes. No S02E01, a empresa que fornece o serviço recria a pessoa falecida com base em traços deixados na Internet. Isso já é possível, de certa forma (rudimentar) — esta história é assombrosa nesse sentido: http://www.theverge.com/a/luka-artificial-intelligence-memorial-roman-mazurenko-bot

          No S03E04, o processo é mais desenvolvido. Não se trata de recriar a consciência, mas de duplicá-la. Por um breve momento, talvez, a corpórea e a virtual coexistiram, mas no momento em que os corpos das mulheres morreram, suas consciências continuaram vivendo armazenadas em um servidor.

          Consegue ver a diferença? No primeiro caso não há uma consciência propriamente dita e o morto não tem qualquer poder decisório sobre o que é feito com os rastros que ele deixa neste mundo quando morre. A “entidade” que surge simula a pessoa que deixou de existir. No segundo, a consciência transcende a morte corpórea numa decisão tomada por ela mesma e que não diz respeito a ninguém mais.

    2. Não tem como não passar pelo controle do governo… do contrário, só pelo mercado, q já faz uma brutal e desproporcional interferência nas regulações, as pessoas individualmente não teriam força pra demover certos interesses… por mais q elas se juntem e tal, não é o suficiente pra convencer legisladores q são alvo de interesse de grandes empresas. Só o governo, monitorado pela imprensa e pelas pessoas (partes com interesses divergentes, diga-se), pode trazer alguma chance de equilíbrio nesse mundo consumista q vivemos… É só notar q onde há forte desregulamentação e controle mais forte do mercado, as chances de crise e instabilidade social aumentam (a crise financeira de 2008, por exemplo). Dão o exemplo das privatizações q foram “bem” sucedidas aqui, como é o caso das telecomunicações, mas veja como o serviço é ainda precário em mutias partes onde não há interesse em levar o serviço e como ele custa caríssimo às pessoas (especialmente às mais pobres).
      Esse lance de que ‘ninguém lê os termos e por isso tem q se lascar mesmo’ é totalmente equivocado, pq primeiro a empresa tem a OBRIGAÇÃO de explicar claramente ao cliente o q ele está comprando ou usando e, depois, a empresa pode colocar o q ela quiser nos termos, mas se eles confrontarem as leis locais, por mais q vc tenha concordado, ainda assim continua sendo algo ilegal. Então qdo assinamos um contrato de adesão, ao qual vc não pode refutar nenhum item ali presente, vc está protegido pelas leis q indicam q tal e tal ponto são abusivos ou confrontam as leis… As pessoas não são obrigadas a saberem escolher o melhor pra si, elas precisam, a meu ver, estarem cercadas de opções seguras e não abusivas (por isso o combata a propaganda enganosa é crucial nesse mundo de consumo desenfreado) e q não as levem ao prejuízo total ou até mesmo à morte como é o caso de muitas indústrias q se deixar, amigo, não fariam nunca um recall de vários e vários itens q elas soltam no mercado sem se certificarem de q são seguros pro consumo…