Fundo azul, com uma chamada para um PlayStation 5 no centro. À esquerda, a frase “Ofertas de verdade, lojas seguras e os melhores preços da internet.” À direita, “Baixe o app do Promobit”.

“O /e/OS é o único sistema operacional que não envia dados para o Google”: Uma conversa com Gaël Duval, da e Foundation

Homem branco, de cabelo castanha curto e barba por fazer, com camiseta bege e casaco preto, olhando para a câmera. Fundo em azul/marrom claro.

Em janeiro, Aaron Gordon, redator da Vice, reclamou que seu celular, um Pixel 3 do Google, não teria mais atualizações da fabricante e, por isso, precisaria ser descartado. “O Google está me forçando a jogar fora um celular em perfeito estado”, escreveu.

O francês Gaël Duval repercutiu prontamente o artigo de Aaron. “A boa notícia agora: você pode instalar o /e/OS no seu celular”, escreveu em seu perfil no Twitter. “Com estes benefícios: 1) sustentabilidade; 2) você não envia mais dados ao Google.” Para finalizar, usou as hashtags #mydataisMYdata (meus dados são MEUS dados) e #privacy (privacidade).

A curta mensagem no Twitter resume os objetivos da e Foundation, a fundação de nome estranho que Gaël fundou em 2019 para desenvolver um sabor de Android sem o tempero do Google — ou um Android diferente do que é adotado por praticamente todas as fabricantes do mercado —, o /e/OS, que ele mesmo havia criado dois anos antes.

A crescente pressão regulatória e os sucessivos escândalos de privacidade envolvendo o Google tornaram o /e/OS e os celulares Murena, aparelhos que saem de fábrica com o sistema e vendidos pelo braço comercial da e Foundation, ainda mais atraentes desde então. “Este é um dos principais motivos pelo qual as pessoas começam a usar o /e/OS”, disse Gaël ao Manual do Usuário.

(Em dezembro, recebi um velho Galaxy S9, ressuscitado pelo /e/OS, para testar. Gostei do que vi.)

Gaël não é novato no mundo do software livre. Em 1998, ele criou o Mandrake, distribuição Linux baseada no Red Hat que ganhou notoriedade pela facilidade de uso para os recém-chegados ao sistema. Esse mesmo “ethos” se faz presente no /e/OS, embora agora o escopo — e o desafio — sejam muito maiores.

Na conversa abaixo, ocorrida por e-mail em janeiro, Gaël fala dos diferenciais do /e/OS, do estado atual da e Foundation, dos desafios que a fundação enfrenta e até de números. E, claro, não se esquece de mencionar o Brasil. O texto foi traduzido do inglês e levemente editado para melhor compreensão.

Galaxy S9 com o /e/OS na tela inicial. Ao fundo, uma colcha colorida desfocada.
Galaxy S9 Plus rodando o /e/OS. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Manual do Usuário: A primeira coisa que notei após configurar o /e/OS foi a semelhança com o iOS. Isso é proposital? Em caso afirmativo, por quê?

Gaël Duval: Não é proposital, mas claramente queríamos oferecer uma interface de usuário que fosse mais fácil de lidar do que a do Android padrão, porque estamos fazendo este sistema operacional para todos, não para um nicho de usuários experientes em tecnologia. Se você for ver a maioria dos fornecedores Android, eles também reformulam totalmente a interface do usuário para oferecer algo mais sofisticado aos usuários.

Manual: A segunda coisa que notei foi que a migração do meu celular pessoal (um iPhone 8) foi mais fácil do que eu imaginava. Você acha que as ROMs customizadas do Android têm má reputação (por serem difíceis de usar, propensas a erros e anularem a garantia do aparelho)?

Gaël: Uma parte da equipe por trás do /e/OS e dos celulares Murena também são ex-usuários do iPhone, e nós meio que temíamos também fazer essa troca! Isto foi há três anos, no meu caso, e, fora alguns detalhes, eu também fiquei muito satisfeito a ponto de não ter nenhum arrependimento nem a necessidade de desfazer a troca. Entretanto, isso também é resultado das escolhas que fazemos a fim de tornar o sistema tão fácil de usar quanto possível. Temos mais melhorias na experiência de uso em nosso cronograma.

Manual: Vocês fazem um esforço notável para reduzir ao máximo qualquer resíduo do Google no /e/OS. Os consumidores valorizam isso tanto assim?

Gaël: Absolutamente! Este é um dos principais motivos pelo qual as pessoas começam a usar o /e/OS. E esses esforços começaram a dar frutos: uma pesquisa acadêmica publicada há alguns meses comparou o /e/OS com outros sistemas operacionais móveis e descobriu que o /e/OS é o único que não envia dados para o Google.

Manual: Você pode dizer quantos celulares estão rodando o /e/OS?

Gaël: Nós não temos números exatos, porque não rastreamos nossos usuários :) Mas estimamos este número em cerca de 20 mil, no momento.

Manual: Você pode abrir números contábeis, como quantos celulares a e Foundation vende ou faturamento?

Gaël: A e Foundation não vende nada. Nós criamos uma empresa que recentemente adotou o nome “Murena” para comercializar os celulares com /e/OS e os serviços premium de nuvem. Não posso abrir números exatos, mas estamos falando de vários milhares de celulares.

Manual: Existem muitos celulares comerciais, vendidos originalmente com o Android do Google, que são compatíveis com o /e/OS, mas o processo de instalação do sistema pode ser intimidador para pessoas menos experientes ou que não conseguem ver os benefícios de abandonar o Google e usar o /e/OS em seu lugar. Como você se comunica com essas pessoas?

Gaël: Criamos um software para facilitar este processo, mas ele não suporta todos os celulares compatíveis [com o /e/OS] e eu reconheço que pode ser um processo complicado. É também por isso que muitos usuários nos pediram para vender celulares com o sistema pré-instalado.

Mas oferecer uma maneira de facilitar o processo de instalação é definitivamente algo que queremos aperfeiçoar.

Manual: Como disse, eu poderia usar o /e/OS sem maiores contratempos. No entanto, nos meus testes tive pequenas dores de cabeça, como meu app bancário funcionando de forma… curiosa — eu podia acessar algumas funções, mas a maior parte não funcionava. Como vocês enfrentam esse tipo de problema?

Gaël: Há alguns aplicativos que não são totalmente compatíveis com o /e/OS. A principal razão é que o Google está se esforçando muito para impedir iniciativas como a nossa. Em particular, eles introduziram algo chamado “SafetyNet check”, um recurso que pode ser usado por empresas e desenvolvedores que publicam softwares para detectar se seu aplicativo está rodando em um verdadeiro “Android do Google”, com todos os selos do Google.

A maioria das empresas e desenvolvedores não o usa porque é totalmente inútil, mas alguns bancos acham que ele estão aumentando a segurança dos seus aplicativos ao usarem o SafetyNet. É aqui que alguns problemas de compatibilidade podem acontecer.

Estamos trabalhando muito nisso e acreditamos que vai melhorar bastante este ano.

Manual: Há outras ROMs customizadas disponíveis, como LineageOS e Calyx OS. Você vê isso como algo positivo? Ou muitas ROMs customizadas fragmentam este (ainda) pequeno mercado de ROMs Android customizadas/não-Google?

Gaël: Há claramente um aumento [no interesse por] sistemas operacionais “degoogled” e, no geral, um aumento de iniciativas para oferecer produtos de TI com mais privacidade.

Vemos isso como um grande sinal de que o mercado está pedindo novas abordagens, produtos mais éticos, modelos de negócio que não dependem da publicidade…

Como resultado, é muito bom ter novos atores e somos receptivos quanto a isso. E não teremos que brigar uns com os outros para ficar com a maior parte do bolo, já que o bolo está crescendo rapidamente.

Manual: No momento, vocês só vendem celulares na Europa, certo? Algum plano de expansão para o exterior? Para o Brasil?

Gaël: Vendemos na União Europeia e nos EUA por enquanto. Estamos verificando regularmente a abertura de novos mercados e o Brasil está no topo da lista!

Manual: Sinta-se à vontade para dizer algo importante não abordado nas perguntas anteriores e/ou para enviar uma mensagem ao povo brasileiro :)

Gaël: Estamos muito felizes em dialogar cada vez mais com o povo brasileiro. Talvez você saiba que nosso líder de design, desde o início do projeto, é um brasileiro!

E o experimento?

Em novembro de 2021, deixei meu iPhone 8 na gaveta para usar um Galaxy S9+ com o /e/OS cedido por empréstimo pela e Foundation. Como contei aqui, a experiência foi positiva, mas teve que ser abortada por um problema técnico: o microfone do celular não estava funcionando, o que me impedia de atender ligações e enviar áudios.

Voltei ao iPhone 8 e espero continuar com ele por mais algum tempo — esse mesmo aparelho está comigo faz mais de quatro anos. Não sei para onde vou quando a troca for inevitável. Se por um lado achei a transição para o Android “degoogled” do /e/OS tranquila, reconheço que me sinto mais “em casa” no iOS — pelos aplicativos (muitos deles exclusivos), fluxos de trabalho e costume mesmo. Felizmente, ainda terei um bom tempo para refletir sobre esse dilema.

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3 comentários

  1. legal da até para pensar em comprar um S9 e instalar o sistema delas, já que não sou muito técnico me sentiria mais seguro assim, rsrsrs.

    Agora importar mais que tenha dado vontade, pelo preço atual das coisas, acho que cairia no iOS…

    Tenho um asus aqui parado, vou ver se a versão beta do sistemas dele roda e quem sabe testar… (com medinho e bricar o celular rsrsrs)

  2. descobri que tem suporte para o meu celular, quando tiver um segundo smartphone irei testar, espero que até lá esteja bem maduro, hehe.

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