Fundo azul, com uma chamada para um PlayStation 5 no centro. À esquerda, a frase “Ofertas de verdade, lojas seguras e os melhores preços da internet.” À direita, “Baixe o app do Promobit”.

Revisitando o Instagram e o Facebook

Foto de um prédio abandonado, à meia luz, com janelas quebradas e chão sujo.

Um dos elementos que compõem o atual inferno astral (e financeiro) do Facebook/Meta, revelado no último bate-papo dos executivos da empresa com investidores, é ter perdido usuários pela primeira vez em 18 anos de história. Na contramão dessa boa notícia, em janeiro eu voltei a usar o Facebook. E antes disso, em dezembro, a ter um perfil no Instagram.

Os motivos foram diferentes para cada rede social. Do Instagram, senti falta das pequenas atualizações cotidianas, triviais, de amigos e familiares. Do Facebook, foi mais uma curiosidade em ver a quantas anda aquela pocilga. No espírito da abordagem mais afetuosa, mas ainda com um gostinho amargo, recriei os perfis, adicionei algumas dezenas de pessoas, instalei o Instagram no celular e contive o Facebook a uma aba isolada no Firefox do computador e voltei a usá-los.

Foram três anos longe desses ambientes. O retorno tem sido como revisitar lugares já quase esquecidos, mas de que ainda me lembro, só que agora com evidentes sinais de decadência — uma pintura descascada, vidraças quebradas, goteiras aqui e ali e, no caso do Facebook, uma camada fina de poeira cobrindo tudo, reflexo da falta de uso generalizada.

Uma vantagem inesperada de recriar perfis em redes sociais e limitar quem sigo (dezenas de pessoas, sem perfis de marcas ou de interesses) é poder sempre chegar ao “fim” do Instagram. Gasto entre 10 e 20 minutos por dia e vejo todos os stories e posts.

E é ali, na falta do que me mostrar, que o Instagram revela sua compulsão desesperada por engajamento, com sugestões de posts supostamente interessantes que viralizaram, e sua sede por dinheiro, com muita, mas muita propaganda sendo jogada na minha cara — e, pior, propaganda mal calibrada; o algoritmo ainda acha que sou uma grande gostosa. Talvez em perfis mais povoados haja uma diluição dos anúncios, mas no meu, não. Eles se destacam. São muitos, são ruidosos e, pela repetição e/ou pelo conteúdo, frequentemente desagradáveis.

O Facebook, por outro lado, é uma cidade fantasma ou, fazendo jus ao conteúdo radioativo que costumava jorrar ali dentro, uma Chernobyl digital. As únicas partes que seguem ativas são os stories (republicados do Instagram) e os grupos, que dominam tanto o feed, mesmo em pequeno número (estou em quatro, só dois ativos), que tive que tirá-los do feed para conseguir ver outras coisas.

Do universo de contatos que tenho lá, mais ou menos a mesma quantidade que no Instagram, alguns poucos sustentam o feed com atualizações mais diversificadas: memes, memórias (posts antigos reciclados) e fotos importadas do Instagram. Aliás, senti ainda mais uma espécie de homogeneização das plataformas do Facebook. Parece tudo a mesma coisa, com os mesmos conteúdos. Talvez o objetivo seja esse mesmo, tornar Facebook, Instagram e WhatsApp uma coisa só, e, se sim, parabéns, estão conseguindo.

Há menos anúncios no Facebook do computador que no Instagram do celular, mas o conteúdo “sugerido” do Facebook permeia posts orgânicos e patrocinados, não ficam num local à parte — portanto, ignorável — como no Instagram. E é um tipo de conteúdo intrigante (veja prints abaixo). Quase sempre vídeos, quase sempre apelativos, como aquelas esquetes mal encenadas e com plot twists constrangedoras que se tornaram populares em outras plataformas, como o Kwai.

Duas postagens, lado a lado, de publicações sugeridas no Facebook. Na da esquerda, a legenda é “Ele confundiu a patroa com a faxineira e algo inesperado acontece!!”; na da direita, “Esse entregador foi GENEROSO. Resolvi ajudar!”
É esse tipo de coisa que o Facebook sugere. Imagem: Facebook/Reprodução.

Não há nada nas duas plataformas que seja exclusivo, imperdível ou impossível de replicar em outros ambientes. E ainda assim nos submetemos à publicidade agressiva e às armadilhas/“dark patterns” do Facebook para nos manter grudados à tela, dando atenção a uma das empresas mais nocivas e corruptas do século XXI.

Em paralelo, sigo usando redes que considero mais saudáveis, como o Mastodone o HalloApp, na esperança de que em algum momento, por qualquer motivo, mais gente acorde para isso e busque alternativas melhores. O Facebook está numa espiral fatal e aparentemente irreversível, mas o Instagram segue sendo aquele bar horrível, com cerveja quente, música ruim e um gerente desprezível, mas onde todos os seus amigos estão. Um dia, espero, isso mudará.

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Foto do topo: Taton Moïse/Unsplash.

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11 comentários

  1. estou um pouco relutante em excluir o FB, os grupos (alguns secretos e exclusivos a assinantes de alguns sites e serviços que assino).
    quanto ao IG, a melhor coisa que fiz foi enxugar quem sigo, ter uma conta privada e mudar para o app Lite que, por mais que não seja polido, me entrega um total de zero propaganda

  2. Eu criei uma conta fake (utilizando um email criado no Relay) apenas para quando os amigos mandam links de vídeos (geralmente memes) do Instagram.

    Já o Facebook, não penso voltar tão cedo!! Para se ter uma ideia, tive que criar uma conta usando o email do trabalho no Facebook Developers, usando até um nome diferente do que eu usava na época (já tem uns 5 anos que não tenho conta no Facebook). Todos os dias recebo recomendações de amizades de pessoas que conheço mas que não de maneira nenhuma teria como associar com minha conta criada por lá. É algo assustador!!

  3. Eu tinha deletado todas as redes sociais e a maior parte das consequências foram positivas (voltei a ler num ritmo que considero melhor, procuro fazer coisas mais produtivas no meu tempo livre, aprendi várias coisas que tinha vontade, etc).

    Mas acabei me afastando de alguns contatos que não converso por mensagem mas que gostava de ter uma ou outra atualização e interação por meio das redes sociais.

    Fiz esse teste de só seguir pessoas que conheço, usar a conta privada e desativar os RTs dos meus amigos. Sigo umas 10 pessoas ali e é supre minha necessidade de ter atualizações sobre meus amigos, quase nunca chega a minha timeline algo que considero desinteressante e não perco muito tempo ali, porque rapidamente acabam os posts que ainda não vi.

    Agora que deu certo no Twitter, pretendo fazer com o Instagram pra ver se consigo resultado próximo.

  4. Faz uns 8 anos que não tenho mais Facebook e uns 6 que não tenho mais Instagram (tive umas duas ou três recaídas e acabei voltando, mas não aguentava mais que algumas semanas e já excluía de novo).
    Twitter nunca usei.
    Próximo passo é se livrar do LinkedIn. Mas, esse ainda tenho receio porque algumas oportunidades profissionais podem vir por lá.

  5. facebook parei de usar, já no instagram ocultei o story de todos que não são amigos (e até alguns) e vira e mexe dou uma limpa, pois às vezes sigo contas no impulso e quando vou ver tem muita coisa que comecei a seguir por causa de um post e não vejo mais sentido em seguir.

    1. Uma dica que comecei a fazer recentemente para esses perfis que são públicos mas que as vezes temos vontade de seguir foi acompanhar a parte via RSS que pode ser gerado pelo bibliogram. Assim no App do Instagram ficam só os amigos mesmo.

  6. Caminho para quatro anos sem Facebook e não sinto falta nenhuma. Desde que tomei a decisão de abandonar aquela rede, percebi o quanto perdemos tempo com coisas banais. Tanto eu quanto minha esposa estavamos tão viciados naquilo que, após nosso dia de trabalho, mal desejávamos boa noite um pro outro. Era cada um de seu lado, entorpecidos no feed, dando notícia da vida alheia. Meu próximo passo é vazar do Instagram. O que antes me cativou pelas fotografias, hoje se tornou um festival de anúncio inúteis e forçados. Conseguiram estragar um app que era legal no início. Cogito manter apenas meu twitter que, aliás, fiz um limpa na última semana e deu uma melhorada considerável no conteúdo.

    1. O twitter está de um jeito impossível também. Além das propagandas, agora tem algoritmo com base em retweets ou com base no que clicou. Mistura quem você segue com quem não segue.

  7. Eu fiz algo parecido no final do ano passado. Depois de 2 anos sem Instagram, recriei uma conta por lá (no Facebook, do qual saí há uns bons 5 ou 6 anos, me nego a colocar sequer a ponta do dedão).
    Porém, segui outro caminho: criei uma conta genérica, com nome e foto aleatórios, e comecei a seguir apenas perfis de fotografia, natureza etc. Não adicionei nenhum amigo/familiar/conhecido, porque simplesmente não me interessa saber o que eles estão fazendo, comendo ou qual lugar eles visitaram no fim de semana.
    E mesmo assim, depois de pouco tempo, enjoou.
    A quantidade de propagandas (em média a cada 2 ou 3 posts de perfis que eu seguia) me irritava.
    Além disso, ficar olhando fotos bonitas… bem… chega num ponto em que perde a graça também.
    No fim, apaguei o perfil novamente.

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