É impossível sair do Tubby e do Lulu sem deixar resquícios

3/12/13 26 comentários

Luluzinha gritando -- provavelmente com o Bolinha.

Lulu, Tubby, revanchismo, machismo, sexismo, brincadeira, coisa séria… Independentemente da forma com que você encare esses dois apps que trazem para o século XXI a inesquecível Guerra dos Sexos do Faustão, a fofoca de bar, um ponto é unânime: é bem chato se surpreender listado num dos dois sem ter sido consultado antes.

No Manual já falei de um outro problema do Lulu, de ordem mais filosófica do que prática, e no último podcast abordamos o app com um enfoque mais “vida real” — como ele é recebido em rodas de amigos e que estragos causa ou pode causar. Apesar de eu encará-lo como algo mais em tom de brincadeira do que um destruidor de homens com a masculinidade sufocada, é indefensável como a dinâmica do app, de preencher o mural das meninas com os perfis dos seus desavisados amigos no Facebook, é agressiva.

As consequências dessa abordagem se dividem em duas. A primeira, imbróglios jurídicos. O Ministério Público já investiga o app e ações individuais começam a pipocar pelo Brasil.

A segunda, cheia de boas intenções, lotada de desinformação, é a onda de tutoriais ensinando a cair fora do Lulu — e, como medida preventiva, do Tubby, o equivalente masculino do Lulu que está sendo feito a toque de caixa por um trio de brasileiros. Eles não funcionam porque ignoram o modo de funcionamento da API do Facebook, os pedaços da rede que ela libera para que desenvolvedores criem apps e serviços em cima desses dados.

Entendendo a privacidade no Facebook

O passo a passo mais comum para sair do Tubby e do Lulu é um que leva o usuário às configurações de aplicativos no Facebook e pede para que ele desmarque um punhado de caixas de seleção. Este aqui, por exemplo. Não perca seu tempo seguindo-o, ele não tem utilidade alguma porque não alcança as informações de que o Lulu e o Tubby precisam. No caso, seu nome, foto e lista de amigos.

É preciso entender como o Facebook funciona. Nossos perfis são compostos por diversos campos. Alguns, esses listados na página que o tutorial acima menciona, opcionais e ocultáveis. Outros, públicos. A ajuda do Facebook lista quais são esses:

  • Nome.
  • Foto de perfil.
  • Sexo.
  • E número identificador (ID) da conta.

O Facebook se justifica dizendo que elas são essenciais para que as pessoas se encontrem lá dentro e, nessa mesma ideia, a lista de amigos é uma forma de facilitar esse contato. Até dá para editar a visibilidade da lista de amigos, mas ela se refere apenas à forma com que seus amigos a veem. O Lulu e o Tubby não são afetados, eles pedem acesso à lista de amigos pela API e, para isso, não existe configuração no Facebook capaz de bloquear. (O bom senso, talvez, mas é querer demais que as pessoas leiam uma caixa de diálogo, reflitam sobre o que ela pede e, mais que isso, desistam de dar uma olhadinha e, de carona, ceder seus amigos para os apps.)

Sendo uma rede social, onde a interação entre as pessoas é o que a faz funcionar, é uma justificativa válida. Infelizmente, ela dá brechas a ações menos nobres, como as dos já citados apps. Esses quatro pontos são suficientes para que eles coloquem você em suas listas — graças à autorização de um amigo qualquer, concedida no momento em que ele entrou em um dos apps com autenticação via Facebook.

Como sair do Tubby e o Lulu?

Não dá.

Eu sei que é chato, mas não dá mesmo — não sem deixar rastros. Eu e o Bruno Briante, que levantou essa bola no Facebook, quebramos a cabeça em busca de uma saída, mas com exceção dos meios oficiais (e obscuros), não rola mesmo.

Aviso às mulheres que não querem estar no Tubby.
A mensagem de mau gosto do Tubby para as mulheres que quiserem remover seus perfis do app. Imagem: Tubby/Reprodução.

A princípio imaginei que bloquear o app pudesse impedi-lo de me alcançar. A estratégia não funcionou porque bloqueio não impede que seus amigos, ao acessarem o app, cedam suas informações públicas, as mencionadas acima, através da permissão de acesso às listas de amigos.

O app não se relaciona com seu perfil, ele simplesmente chega até ele através de outros amigos. O bloqueio só age na relação usuário-app, que não precisa ser estabelecida no caso do Lulu para que alguém apareça lá. Ele pega todo mundo que está no Facebook por tabela, através de quem entra.

Uma saída seria não ter amigos no Facebook, mas aí… né? Outra, que ninguém usasse o app, o que é complicado também.

Sair do Tubby e do Lulu pelos métodos oficiais significa sacrificar seus amigos — e dados pessoais

A única forma de remover seu perfil no Lulu e no Tubby é através dos links que os dois sites oferecem — sair do Lulu; sair do Tubby.

Ocorre que a remoção do perfil é condicionada à “instalação” do app no seu perfil, o que significa que, ao sair, você precisa entrar e, nessa, conceder ao Lulu e/ou ao Tubby acesso à sua lista de amigos (muito provavelmente para inclui-los no app) e um punhado de outras informações pessoais.

Para se descadastrar, Lulu pede informações do usuário.

Não se sabe exatamente como o Lulu e (imagino) o Tubby mantêm esse controle de quem não deve aparecer no site, ou seja, de quem solicitou a remoção do perfil.

O Bruno acredita que eles montam uma lista com as IDs do Facebook e batem com as listas de amigos dos usuários que chegam, excluindo as que aparecerem nas duas. É uma tática simples e que, em tese (reforçando), permite que os privilégios do Lulu/Tubby sobre sua conta no Facebook sejam removidos depois sem que com isso você volte a figurar neles.

A única saída possível

Como lidar? Não sei. Uns podem argumentar que é uma falha de design do Facebook, outros que a vida assim, quem se sujeita à rede social tem que arcar com alguns ônus. É, sem dúvida, uma situação desconfortável, talvez passível de sucesso nas incursões que alguns usuários do Facebook, indignados com ela, estão fazendo à justiça brasileira — existe o posicionamento, não muito difícil de colar, de que o Facebook é co-responsável por esses cenários que se formam em torno do Lulu e do Tubby.

Pedir para sair é um exercício de fé cega e irrestrita: ninguém garante o que os dois farão com os dados dos usuários. Pode ser um golpe, pode ser, no caso do Tubby, um artifício para obter acesso aos perfis de milhares de mulheres (por mais que eles digam que não), qualquer coisa. É muito poder para um app que se impõe com tanta força e, ao mesmo tempo, dá sucessivas demonstrações de imaturidade, como soltar um EITA PORRA em comunicado público.

No fim, a única saída reconhecidamente eficaz para não aparecer no Lulu, Tubby e outros aplicativos duvidosos do gênero é uma só, esta aqui.


Agradecimentos ao Bruno Briante, que trouxe à tona esse insight esperto sobre a API e opções de privacidade do Facebook e se dispôs a tirar várias dúvidas a respeito. Valeu!

Amazon Appstore e o universo de lojas de apps alternativas do Android

25/11/13 6 comentários

App da Amazon Appstore em um Nexus 4.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Semana passada uma nova loja de apps desembarcou no Brasil. Presente em mais de 200 países, a Amazon Appstore é compatível com Android e se apresenta como alternativa ao Google Play. Mas… por que ter outra loja de apps instalada no seu celular?

A possibilidade de instalar apps de terceiros é um dos grandes trunfos do Android frente a seus concorrentes diretos, iOS e Windows Phone. Além de outras lojas que não o Google Play, o sistema ainda permite a instalação manual de apps, através de arquivos APK, da mesma forma que se faz no Windows com executáveis (EXE, MSI e alguns outros). São maneiras de se conseguir apps que o Google não aprova, por quaisquer motivos, ou com preços menores ou até mesmo de graça, via promoções.

A Amazon Appstore não é a primeira alternativa. Ela existe há algum tempo lá fora e, embora seja acessível a qualquer usuário de Android, em alguns países tem importância estratégica para a Amazon: abastecer os tablets Kindle Fire com apps. Como eles rodam um Android modificado, sem a experiência Google, o Google Play não é uma opção neles. Quem tem um Kindle Fire precisa recorrer à própria Amazon para baixar novos apps e jogos para seus tablets.

Por que eu instalaria a Amazon Appstore no meu Android?

A Amazon Appstore no Android.

É difícil concorrer com o Google. Além da Play Store vir pré-instalada em boa parte dos Androids vendidos no mundo, ela é a primeira opção para a maioria dos desenvolvedores. É o dilema do ovo e da galinha superado: a loja tem muitos clientes e muitos desenvolvedores publicando lá. Todos ganham, inclusive o Google, que faz a ponte entre essas duas partes, coordenando tudo — e fisgando uma porcentagem de cada transação que rola ali dentro.

Uma parcela de smartphones e tablets Android, porém, vem sem a Play Store. Além dos gadgets da Amazon, outros que não licenciam os serviços e apps do Google também não oferecem tal comodidade a seus usuários. É muito difícil encontrar exemplares do tipo no ocidente; por aqui, quando isso acontece é em dispositivos obscuros e baratos de marcas semi-desconhecidas. No oriente, porém, especialmente na China, onde o Google não tem a mesma presença que aqui e vive se estranhando com o governo autoritário do país, é o cenário mais comum. Lojas alternativas são numerosas e populares por lá.

Para se tornarem atraentes a quem tem acesso ao Google Play, as demais apelam para diferenciais. No caso da Amazon Appstore, há uns interessantes:

  • Um app grátis por dia. Na semana de lançamento tivemos um Angry Birds, Paper Camera e TuneIn Pro.
  • Usar cartão de crédito nacional, coisa que ainda não é possível pelo Google Play no Brasil.
  • Escapar da flutuação do dólar, que pode trazer surpresas desagradáveis no vencimento da fatura do cartão, e do IOF. Como a Amazon tem uma operação comercial completa no Brasil, ela pode cobrar localmente, em Real e livre do imposto sobre operações financeiras que incide em compras no exterior — a modalidade que ocorre nas transações feitas pelo Google Play.
  • Recomendações de apps baseadas no que você costuma baixar/comprar.

Além desses benefícios para quem tem um Android no Brasil, a chegada da Amazon Appstore abre espaço para especulações sobre a vinda dos tablets da empresa para cá. Os e-readers já são vendidos; estariam os Kindle Fire, baratos e bem avaliados lá fora, prestes a estrearem aqui?

As alternativas à alternativa: lojas de apps além da Amazon Appstore

Como dito, a Amazon Appstore não é a primeira loja que se apresenta como alternativa ao Google Play. Outras estão no mercado, lutando pela atenção dos usuários e o amor dos desenvolvedores.

A primeira que usei, aliás, precedeu o Android Market — antigo nome do Google Play. Nos idos de 2010 a AppBrain tinha um recurso matador e único: instalação remota de apps. Usando um computador, dava para “mandar” instalar um app no celular à distância. Hoje a Play Store faz essa comodidade, mas naquela época era o grande diferencial da AppBrain e o que levava muita gente a usá-la em detrimento da loja oficial.

Perder tal exclusividade não fez com que a AppBrain acabasse. Atualmente ela oferece um SDK, o AppLift, para que desenvolvedores integrarem publicidade em seus apps, um sistema de recomendação de apps próprio e a possibilidade de compartilhar na web listas com os apps que você tem instalado. E, embora tal detalhe não vá despertar o desejo de baixar todos os seus apps de lá, ela tem um blog bacana onde saem comentários de mercado, estatísticas e opiniões.

Outra loja alternativa é a App Center, do conglomerado AndroidPIT. Os diferenciais são a janela de arrependimento na compra de apps, de 24 horas (contra 15 minutos no Google Play), a aceitação de PayPal na hora de pagar por eles e reviews de apps feitos pela própria equipe do site.

Existem mais, inclusive algumas especializadas em nichos. A MiKandi, por exemplo, só tem apps adultos. Ela se diz a maior loja de apps pornográficos do mundo, com quatro milhões de usuários e mais de oito mil apps, e não tem vergonha de apostar em invencionices a partir da união entre tecnologia e sexo — aquela paródia de filme pornô com Google Glass, por exemplo, foi iniciativa dos caras.

Desconheço de pronto, mas devem existir outras tantas lojas alternativas, de nicho e até que disponibilizam apps piratas. A exemplo da maioria dos usuários, para mim essas mainstream são suficientes. Ter opções, porém, é sempre uma boa — e o app gratuito diário da Amazon Appstore, por si só, já é um bom motivo para tê-la em qualquer aparelho.

Você usa alguma loja de apps além do Google Play?

O reducionismo do Lulu, o app de reviews de homens

22/11/13 20 comentários

O Lulu chegou ao Brasil com uma ótima localização e marketing agressivo para atrair mulheres interessadas em ajudar amigos a ganhar moral com possíveis pretendentes ou fazer aquele desabafo anônimo de caras que não foram legais com elas.

Em uma definição simples, o Lulu é um app de reviews de homens. Em um contexto maior, mais um que mistura bits com sentimentos.

A primeira das várias polêmicas recai na objetificação dos homens, no sentir na pele o que as mulheres vivem no dia a dia desde que o mundo é mundo. Polêmica que cai por terra pelo clima descontraído que norteia o Lulu e porque… bem, talvez até existam, mas é meio rara a figura do homem-objeto, seja em um app, seja andando por aí. Bater nessa tecla é reforçar a ideia insana de preconceito contra héteros, por exemplo.

Poderia desenvolver melhor o raciocínio, mas já o fizeram em 140 caracteres:

Aos incomodados, existe a opção de pedir a remoção do perfil no app. Ele não é “opt-in”, ou seja, não cabe aos homens se cadastrarem lá e esperarem as opiniões; atrelado ao Facebook, todo mundo começa automaticamente dentro da brincadeira. Um ponto perigoso e com enorme potencial de acabar em briga na justiça.

Antes de chegar a esse extremo, porém, o Lulu é capaz de estragar um encontro, ou magoar algum marmanjo?

Difícil. O ambiente é controlado e abusa do bom humor. As hashtags são pré-definidas e mesmo as negativas foram redigidas de forma descontraída. Os homens podem apelar contra o que as mulheres disserem dele incluindo eles próprios as hashtags que acharem adequadas.

De qualquer forma, nada exclui as notas e as hashtags mais cruéis delas e, nessa, imagino que deva ser preciso uma autoestima elevada para quem ficar com nota vermelha ou for bombardeado com #FriendZone e #Cascão. O suficiente para amaldiçoar o destino amoroso de um homem para sempre? Pouco provável.

A minha grande crítica ao Lulu é outra, é em relação ao reducionismo da proposta, algo que paira sobre mídias sociais e sobre a Internet de modo geral.

Viramos números, arrobas, resultados de algoritmos que processam informações por si só reduzidas, distorcidas. Vai do mais escancarado, o Klout, até os anúncios que Facebook e Google direcionam baseados no que fazemos online. Estamos nos adequando aos computadores ante a incapacidade deles de, no momento, se adequarem a nós. Como David Auerbach conclui em seu belíssimo ensaio na n+1, “a estupidez deles [computadores] se transformará na nossa”.

Esmiuçando o problema de transformarmos personalidades em dados binários, na hora de avaliar aspectos da natureza humana o leque de alternativas extrapola em muito duas alternativas, o “sim ou não”. Não raro, a razão dá lugar à emoção e detalhes circunstanciais e/ou temporários ganham pesos desproporcionais em relação ao todo.

Um casal sem uma boa química não significa que ambos ou um deles seja uma pessoa a ser evitada. A pessoa “X” que no relacionamento com “Y” era distante, pode ser só amores com a “Z”. Posso ter conhecido alguém e ficado com ela uma noite; qual a base que essa mulher teria para me avaliar?

Se somos tampas procurando a panela compatível, limitar as opções baseados em um app é reduzir uma questão complexa a uma solução capenga, falha.

Pareço exagerado, mas é esse o tom de Alexandra Chong, co-fundadora do Lulu, na matéria do New York Times.

“Quando você pesquisa um cara no Google, não quer saber para quem ele votou ou qual foi o tema de conclusão de curso dele. Você quer saber se as sogras gostam dele. O cara tem bons modos? Ele é atencioso?

(…)

Você não tem controle se o cara é ótimo ou um babaca e no fim da experiência, mesmo que ninguém leia você sente que deu o troco no cara. Você recuperou parte do controle.”

Um discurso que parece descompassado com a realidade do Lulu que, como já dito, tem um ar bem leve. Talvez fosse legal os criadores do app se posicionarem mais firmemente em relação a isso.

Como os caras ficam no Lulu.
Arte: Brenton Powell/Tumblr.

Não vejo com maus olhos o auxílio da tecnologia na hora de flertar. Sendo um introspectivo e a princípio desinteressado, pelo contrário; acho essa tendência bacana. O grande dilema aqui é o contexto, ou a falta dele.

Homens falam de mulheres, imagino que mulheres também falem de homens. A diferença entre essa prática antiga e o que Lulu proporciona é que nesse último o alcance das críticas é bem maior e livre do contexto que a convivência com os parceiros de fofoca oferece. Na forma como se apresenta, o Lulu é um julgamento tácito, uma condenação sumária sem a mínima possibilidade de defesa.

Talvez o Lulu fique só como “o assunto do Twitter no dia 22 de novembro de 2013”, talvez cole e vire a certidão de cara legal do século XXI. Mas a exemplo da Vivian, depois de ver os dois lados do app, no celular de uma amiga e no meu próprio, acredito que seja só uma farra, uma brincadeira sem maiores consequências. Na verdade torço para que seja o caso. Seria muito chato ser dispensado de antemão porque ganhei a hashtag #MaisBaratoQueUmPãoNaChata. O que não é o caso. Acho.

1 Second Everyday registra sua vida em pequenos vídeos de um segundo

4/11/13 6 comentários

Tiramos fotos e gravamos vídeos para registrar momentos. Anos mais tarde, quando revisitamos esses momentos de outrora, é inevitável que certas lembranças voltem com força. É como um diário, mas visual, com mais apelo junto à nossa memória.

Não é raro se deparar com vídeos na Internet de time lapses. Uma foto atrás da outra que passam a sensação de movimento e condensam, em poucos minutos, talvez anos de trabalho. E se você pudesse fazer algo assim de uma maneira fácil, quase automática? É a proposta do 1 Second Everyday, app para iPhone e Android.

Cesar Kuriyama e seu ano de folga

O 1 Second Everyday é a realização do primeiro projeto pessoal de Cesar Kuriyama. Após assistir a uma palestra de Stefan Sagmeister, ele resolveu seguir o exemplo dele e tirar um ano de folga. Nesse período, gravou um vídeo de um segundo por dia. Ao final de um ano, tinha pouco mais de seis minutos que condensavam os 365 últimos dias. Ele curtiu a brincadeira, tanto que decidiu levá-la a mais pessoas.

Em um TED de 2012, Kuriyama contou a história do 1 Second Everyday:

O app foi criado pela Touch Lab, uma empresa de Nova York, e financiado via crowdfunding em uma bem sucedida campanha no Kickstarter que conseguiu angariar mais que o dobro pedido. O resultado é um app bem feito e muito tranquilo de usar.

1 Second Everyday

Um segundo de cada dia da minha vida no 1 Second Everyday.

Disponível para iPhone e Android, o app é basicamente igual nas duas plataformas. Ele se apresenta como um grid/calendário; nos dias em que pelo menos um vídeo foi gravado, o retângulo fica laranjado. Toque nele, recorte o trecho de um segundo desejado, e o laranja cede espaço a uma miniatura daquele dia. Com o tempo, a tela inicial fica bonita, cheia de momentos da sua vida.

É possível criar múltiplas linhas do tempo dentro do app. A partir dele, também, dá para filmar o um segundo, embora o uso do app da câmera (ou de qualquer outro que faça vídeo) funcione tão bem quanto. A área de seleção do segundo é bem versátil: o vídeo é exibido na íntegra e, no rodapé da tela, fica um seletor para escolher, com um bom nível de precisão, o trecho exato a ser salvo.

As configurações se limitam a duas: lembretes e sincronização. São cinco lembretes que podem ser ativados, para vários períodos do dia, que surgem na área de notificações de forma bem simpática, sempre com algum dado (verídico ou falso/engraçado) sobre o tempo e lifelogging.

A opção de sincronização é importante, diria até recomendável. Com ela ativada, os snipetts de vídeo são salvos na nuvem — no Google Drive em aparelhos com Android, e no iCloud, no iPhone. Além da segurança, é uma bela precaução para caso você perca seu smartphone.

O 1 Second Everyday é fácil de usar.

O 1 Second Everyday é parcialmente gratuito. O app não cobra nada para ser usado no registro das entradas, apenas na hora de compilar vídeos com mais de 30 dias. E mesmo aí o valor é baixíssimo, apenas US$ 0,99.

Lifelogging

Venho usando o 1 Second Everyday desde que ele foi lançado, no começo de agosto. Muito do que Kuriyama diz na palestra eu pude sentir na prática: a mera presença do app instiga a busca por coisas diferentes. Existe o compromisso e completá-lo todos os dias é bem satisfatório, ainda que nem sempre o lapso registrado seja empolgante.

Nem sempre dá, é verdade. Esqueci-me duas ou três vezes de gravar alguma coisa nesse período. Digo a mim mesmo que esses buracos deixarão o vídeo mais similar à vida, imperfeito. Uma mera desculpa filosófica para falhas que, de verdade, são difíceis de justificar — o celular está sempre comigo e deixo um lembrete configurado no app. Ele é bem rígido, aliás: esqueceu de gravar? Já era. Não dá para trapacear e puxar vídeos de outros dias, nem de outros dispositivos. É seu celular, naquele dia, e só.

Registrar um segundo por dia é mais fácil do que manter um diário, é mais rápido de recuperar/ver e tem um “peso” psicológico realmente notável. Um segundo, aliás, parece pouco, mas a mim é um bom ponto de equilíbrio: tempo suficiente para desencadear memórias, mas não o bastante para expôr o usuário. (A parte de compartilhamento, aliás, é opcional. Se quiser gravar os vídeos e deixá-los guardados no celular ou computador, o app não o obrigará a publicá-lo em redes sociais.) Nada como a maluquice da SenseCam, ou a esquisitice de um Google Glass. Um, e apenas um segundo.

Mesmo em pouco mais de três meses, rever um segundo de alguns dias especialmente felizes é bacana, recompensa o trabalho que dá — e me faz lamentar o 1 Second Everyday não ter surgido antes. Não sei se terei pique para manter esse hábito, mas gosto de pensar que sim. Tentarei isso, digo. Sinto-me desconfortável em tirar o celular do bolso e gravar, ainda que apenas alguns segundos, algumas cenas em certos lugares, mas no fim das contas (ou de um ano) é um pequeno incômodo que se dilui em meio a tantas boas lembranças.

BBM para Android e iPhone: um intruso que chegou tarde demais

22/10/13 17 comentários

Antes da briga ferrenha que se desenrola hoje nos bolsos de praticamente todo mundo que tem um smartphone pela supremacia na troca de mensagens rápidas, havia um app que conseguiu fazer um nome, criar uma reputação: o BBM.

Restrito aos domínios do BlackBerry, ainda assim ele conseguiu se destacar pela confiabilidade com que recebia e entregava mensagens, e trazer convenções que só mais tarde outros, como WhatsApp, Facebook Messenger e WeChat, apresentariam e popularizariam nas plataformas concorrentes.

Os tempos são outros, a BlackBerry está mal das pernas, considerando ser vendida e, como um namorado que faz bobagem no relacionamento e se arrepende, pedindo mais uma chance aos fiéis clientes remanescentes. Um dos últimos artifícios para se manter viva no acirrado mercado móvel é a expansão do BBM, talvez o item de software mais valioso do seu portfólio, para Android e iPhone.

Lançamento tumultuado

Se tudo tivesse acontecido como o planejado, o BBM já estaria na App Store e Google Play desde o mês passado. O lançamento do app foi originalmente agendado, com direito a um estranhíssimo “BREAKING NEWS” no título (já removido) do blog corporativo da BlackBerry, para 21 e 22 de setembro, um sábado e domingo.

Nos dias marcados ele não apareceu e a explicação dada pela BlackBerry foi de que uma versão vazada do Android fora instalada por mais de um milhão de pessoas. Para piorar, era uma versão incompleta, com vários bugs que sobrecarregaram os servidores do BBM. Lançamento adiado, de volta às pranchetas para preparar melhor tudo isso aí.

É de se questionar se o estrago foi tão grande, ou se não havia formas de contornar o problema inesperado. Bloquear a versão vazada, talvez? A BlackBerry diz ter 60 milhões de usuários do BBM apenas na sua própria plataforma, logo deve estar acostumada a lidar com um grande fluxo de dados em seus servidores. Enfim, águas passadas. Não estipularam nova data, apenas que o app seria lançado em breve.

O “em breve” levou um mês exato e, hoje, o BBM para Android e iPhone foi lançado. Mas como nada é tão ruim que não possa piorar, além do atraso ele chegou com uma pegadinha um tanto desagradável.

Lista de espera para usar o BBM

Quem deu com a cara na porta mês passado ao tentar baixar o BBM viu um pequeno formulário de contato pedindo um email. A promessa era de avisar os cadastrados quando o app fosse lançado pra valer.

No fim, aquele formulário era mais importante que isso — na realidade, o tal email apareceu na minha caixa de entrada às 4h da manhã, muitas horas depois do lançamento de fato do BBM. A grande utilidade daquele formulário, no fim das contas, foi pular a lista de espera para começar a usar o BBM no Android e iPhone.

Não tem emoticon feliz que amenize a tristeza de uma lista de espera.

A BlackBerry diz que mais de seis milhões de pessoas deixaram seus emails. Esses podem baixar o app, fazer o cadastro e começar a usá-lo imediatamente. Quem ficou de fora precisa esperar. Quanto? O menor tempo possível, mas vai saber o que isso significa por lá.

Listas de espera para usar apps são um fenômeno recente. O primeiro grande caso foi o Mailbox, um app para gerenciar emails lançado em fevereiro. Antes de chegar à App Store fizeram vários teasers dele, o que acabou gerando uma demanda gigantesca. Era instituída, ali, a lista de espera para apps móveis.

Muito se debateu sobre a necessidade dessa artimanha, e o Mailbox, bem como outras empresas que aderiram à moda posteriormente, se defendem dizendo que por mais testes que façam, por mais servidores que tenham à disposição, às vezes a carga na nuvem é tão pesada que o serviço simplesmente cai e não levanta. Mesmo com fila, por exemplo, o Mailbox sofreu com quedas nos primeiros dias.

Em julho, Ellis Hamburger, do The Verge, publicou um bom texto sobre essa polêmica do mundo moderno. Há bons argumentos que justificam as listas de espera, há outros que mostram que, com muito trabalho e preparação, elas podem ser dispensadas, mas há uma certeza que ninguém consegue desbancar: lista de espera é um negócio chato. Em um smartphone, que seduz pelo seu sistema de recompensas instantâneas, com apps a um clique, tudo muito efêmero e imediato, isso pode ser fatal.

E no caso do BBM, não foi diferente. No TUAW, tradicional blog da Aol dedicado à Apple, Mike Wehner classificou a lista de espera da BlackBerry como ridícula e desceu o sarrafo na empresa. Nas redes sociais, então… Pelo menos uma galera tá levando na esportiva e comentando a lista de espera como se fosse uma física, tipo de lançamento de iPhone :-)

Indignação e polêmicas à parte, o BBM para Android e iPhone chegou, você já pode baixá-lo gratuitamente nas duas lojas de apps. Como a incidência de clones é absurdamente grande (pelo menos no Google Play), repasso a recomendação da BlackBerry: acesse bbm.com no seu smartphone. O site o redirecionará para o app correto na respectiva loja.

Se você é um dos contemplados com acesso imediato ao BBM, ou se já foi atendido após aguardar na fila (ou, ainda, deu aquele jeitinho de burlá-la), eis o que esperar do novo app.

https://twitter.com/Jesseosull/status/392386902881751040

(Ri muito desse tuíte aí em cima!)

Não se engane pelo visual, este BBM é o do Android

Testei o BBM em um smartphone Android. No sistema do Google, o app funciona na versão 4.0 e posteriores.

O visual Holo, que deu um trato há muito esperado no Ice Cream Sandwich, é basicamente ignorado pelo BBM. Na verdade, ele se comporta como um intruso. É como se você estivesse usando um app do BlackBerry 10 a partir do Android.

BBM nas três plataformas.
BBM no BlackBerry 10, iOS e Android.

O que, é bom avisar logo, não se traduz em “é um app feio”. Pelo contrário, é bem bonito e, confesso, essa tímida experiência com a identidade visual e diretrizes de UX do BB10 meio que me atiçaram a pelo menos dar uma olhada mais atenta no sistema. É bonito, é bacana, mas não é Android. Lembre-se: estamos falando do BBM para Android. Seria legal seguir a cartilha da casa.

O problema de se ignorar diretrizes de design em uma plataforma vai além de simplesmente não combinar — o que, ainda que discordem os utilitaristas, é também em si um problema. Os mais críticos, porém, surgem em incongruências de usabilidade, utilização de padrões incomuns na plataforma e aquela… estranheza geral.

No caso do BBM, por exemplo, a tela inicial é dividida em três áreas: Bate-papos, Contatos e Grupos. Mas há duas extras, nas laterais, acessíveis por botões nas extremidades inferiores. O painel à esquerda ainda pode ser exibido com um gesto de arrastar, semelhante aos do Windows 8. No da direita isso não funciona. A barra do topo, onde deveria ficar menus e acessos para outras telas (Action Bar)? Nada.

Não se engane, este BBM é o do Android.

Ao entrar em um bate-papo, o rodapé é preenchido por grandes botões de ação. Não são os únicos; existem outros na lateral direita oculta, acessível pelo botão de três pontos. A maior incongruência se revela no botão de voltar na interface do app que faz exatamente a mesma coisa que o botão de voltar do Android, que é persistente em todo o sistema e que também funciona no BBM.

Voltar do sistema e do BBM.

Não é nada que impeça o uso, ou o torne insuportável. Para um otimista, pode até funcionar como uma propaganda, um cavalo de Troia do BlackBerry 10 em sistemas concorrentes que vendem muito mais que Z10 e Q10. Na pior, ou mais comedida, mostra um certo desleixo com detalhes, especialmente quando posto perto de apps cujo desenho é tão adaptado ao Android, como Hangouts e WhatsApp. E uma curva de aprendizado maior, a ponto de vermos um artigo no maior blog dedicado à BlackBerry explicando a usuários de Android como executar ações básicas no BBM.

Questões visuais à parte, o BBM é muito rápido e funciona praticamente da mesma forma que, acredito, no BB10. Não sou muito versado em BlackBerry, mas à primeira vista só ficaram faltando os canais, anunciados em maio junto com o BBM para Android e iPhone, e a vídeo conferência.

O que ele tem de diferente?

Por anos o BBM conseguiu manter a fama de ser confiável, mesmo com uma queda feia de dois dias em 2011. Essa é uma bandeira que a BlackBerry usa bastante e, sejamos sinceros: dois dias em anos de operação é um desempenho notável.

Outro diferencial do BBM para os concorrentes é o uso de um código PIN para adicionar pessoas à lista de contatos. É menos invasivo fornecer um código exclusivo do app para um semi-desconhecido do que seu email, ou número do telefone. A segurança cobra seu preço em inconveniência: o código é gerado aleatoriamente e é grande. Não deve ser um obstáculo para quem ainda lembra de cabeça o UIN do ICQ, mas é um entrave para a maioria. Felizmente o próprio app oferece formas mais fáceis, como código QR e NFC, para estabelecer contato com outras pessoas.

Há bate-papos em grupos (até 30 pessoas cada) e uma função particularmente bacana, de mensagens em broadcasting. Com ela, dá para enviar uma mensagem a toda a lista de contatos de uma vez só. É uma coisa útil, mas que dificilmente se vê mesmo em apps que parecem ter sido feitos para esse tipo de operação, como o Snapchat.

Quer usar o BBM? Engula esse ícone aí, então.

No Android, há uma particularidade meio… chata. Por não usar a API de mensagens do Google, o app fica sujeito ao temperamento do sistema e à memória disponível. O método com que o Android gerencia a memória é o seguinte: enquanto haver memória livre, ele a consome. Faltou? Apps inativos são fechados automaticamente para liberar espaço aos que estão sendo requisitados no momento.

Apps de bate-papo que recorrem ao Google Cloud Messaging não têm que se preocupar com isso. O BBM, sim. A saída que a BlackBerry encontrou funciona, mas é deselegante, para dizer o mínimo: um ícone permanente na barra de notificações. Assim, o app fica “aberto” e não corre o risco de ser fechado, deixando de avisar o usuário sobre mensagens recebidas e outros alertas. Dá para removê-lo dali nas configurações, mas não é recomendável.

Outra coisa que reparei nesses testes iniciais é como ele degrada a qualidade das imagens enviadas. Abaixo, um comparativo com a mesma imagem recebida pelo Facebook (esquerda) e pelo BBM (direita). É normal serviços baseados na nuvem fazerem uma compressão em imagens para facilitar os envios, mas isso que o BBM faz é criminoso: ele diminui absurdamente a imagem e destrói sua qualidade.

A mesma imagem recebida via Facebook e BBM.
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O BBM chegou tarde

Apesar dessas críticas, o BBM é um app legal. Mas os tempos são outros, e as circunstâncias, desfavoráveis. Recorrendo mais uma vez a uma analogia romântica, não é você, BBM, sou eu. Ou melhor, os outros. Porque se tem um nicho de mercado que explodiu nos últimos anos, este é o de apps de bate-papo.

Conte comigo: Facebook Messenger, Hangouts, Skype, WhatsApp, Line, WeChat, Viber, Tango, KakaoTalk, MessageMe… ufa. Esses, apenas os que me ocorreram agora. Devem existir outros. São apps estabelecidos, com grandes bases de usuários. Se não, com empresas dispostas (e com caixa) para torrar muita grana até eles emplacarem, caso mais evidente o do WeChat, dos chineses da Tencent, que contrataram Messi como garoto-propaganda e botaram anúncios em horário nobre na TV brasileira.

Além de não ter tanto dinheiro assim para gastar na promoção do BBM, o momento delicado da BlackBerry gera desconfiança. Após sinalizar que está aberta à venda para outras empresas, e com rumores de que a Lenovo está interessada nesse negócio, há motivos para desconfiar da longevidade do BBM.

Por fim, tem aquele velho impasse de qualquer coisa que envolva pessoas em um sistema de apelo social: o dilema do ovo e da galinha. Ninguém migrará para o BBM se os amigos não estiverem lá. Não há uma receita para quebrar esse bloqueio inicial, mas no geral costuma ser a combinação de bom serviço, marketing agressivo e, talvez, uma pitada de sorte. Às vezes, só marketing agressivo — que o diga a Microsoft com seu MSN Messenger no comecinho da década passada.

O BBM para Android e iPhone poderia ser um sucesso estrondoso, mas para siso deveria ter sido lançado dois ou três anos atrás. Pode surpreender e virar mania? Pode, mas a quem queremos enganar? É pouco provável. Ele acaba sendo mesmo uma das melhores personificações de um dito inglês, o “too little, too late”. Chegou tarde, e chegou oferecendo pouco.


Agradecimentos ao Doni, Joel, Maomede e toda a galera que mandou screenshots da lista de espera para mim.