Android Wear, Moto 360 e a promessa de diminuir o vício em celulares

Moto 360.

No começo da minha adolescência sempre que saía de casa carregava comigo dois itens: carteira e relógio. Esquecer uma dessas duas coisas era frustrante, meio como estar sem um pedaço, ou uma peça de roupa. Como somos seres adaptáveis que, ainda que às vezes só na intenção, buscamos constantemente refinar padrões e costumes, essa configuração mudou depois de um tempo. A carteira abandonei, prefiro fazer o uso efetivo de todos os bolsos que minhas calças oferecem. E o relógio, mesmo tendo resistido algum tempo no meu pulso em paralelo com o celular em um dos bolsos, foi abandonado em prol desse telefone portátil.

Na época o celular era simples, limitava-se a fazer ligações, mandar mensagens e rodar o jogo da cobrinha. Seu uso enquanto relógio era visto por alguns como um retrocesso, como se tivéssemos voltado à época dos relógios de bolso. Com o tempo e o acréscimo de funções nos celulares inimagináveis em um relógio, a troca se justificou. Valeu a pena, afinal.

Pouco mais de 10 anos depois a mesma indústria que nos fez desistir do relógio de pulso muda o discurso e ressuscita o acessório. Agora inteligente, com tela animada e conectado ao celular e à Internet, os smartwatches, ou relógios inteligentes, são apontados como a próxima grande onda da tecnologia de consumo. Ou pelo menos é o que querem nos fazer acreditar. E isso pode ser bom! Basta que a execução seja competente. Como toda boa ideia, se mal feita ela de nada vale.

Podcast

Eu (Rodrigo Ghedin), Paulo Higa e Joel Nascimento Jr. discutimos, neste episódio do podcast, o que é, quem são e de que forma os smartwatches querem (e podem!) ser os precursores dessa revolução. Ouça aí ou baixe o MP3:

A música é The Mother We Share, do CHVRCHES. Assine o podcast (iTunes ou RSS) e não perca os próximos programas!

O Google larga na frente — mas existe uma corrida?

Galaxy Gear original, da Samsung.
Galaxy Gear. Foto: Samsung/Reprodução.

O Google mudou completamente o Android depois que a Apple apresentou o iPhone em 2007, poucos meses depois de comprar a startup que desenvolvia o sistema móvel, até então, à imagem e semelhança do BlackBerry, líder da era pré-iPhone. Em 2011, depois de ver a lástima que o Android era em tablets através do Galaxy Tab original da Samsung rodando a versão 2.2, aprontou uma otimizada para telas maiores, o Honeycomb. Essas duas situações mostram que adaptação não é problema ali.

A corrida pelos smartwatches começou com uma sucessão de rumores de que a Apple estaria trabalhando em um iWatch, um relógio inteligente. Desta vez, “alertados” de antemão, ninguém esperou a Apple. Nem Google, nem outras fabricantes de gadgets querem vê-la tomar de assalto um mercado com enorme potencial.

A Samsung, a exemplo dos tablets Android, queimou a largada novamente com o Galaxy Gear, ano passado. Como resultado, o gadget foi massacrado pela crítica e passou longe de ser um sucesso de vendas — caro e de utilidade questionável, não é de se estranhar. Nada disso impediu a fabricante de já anunciar um sucessor, ou sucessores, no MWC desse ano. Saiu o Android, entrou o Tizen, agora rodando em designs mais refinados.

Se a TouchWiz, a camada de software que a Samsung aplica no Android, for algum tipo de sinal, é de que os sul coreanos precisam aprender urgentemente uma ou outra coisa sobre design de software. Essa expertise, dominada pela Apple, tem crescido exponencialmente nos domínios do Google nos últimos anos. O Android, de cópia descarada do iOS faz algum tempo ganhou personalidade própria — e uma muito bonita e bem resolvida.

O Android Wear e a promessa de diminuir o vicio no celular

Entra, então, o Android Wear, a iniciativa do Google para a computação vestível. É o Android com uma roupagem adaptada ao uso em situações limitadas. Começa pelo relógio; onde termina, ninguém sabe. Por essa indefinição quanto ao futuro e pelo que já foi mostrado do projeto, vamos ficar só com os smartwatches.

Pelo menos no papel, o Android Wear parece um trabalho bem feito. A interface é baseada em cartões, as informações são contextuais e pouco intrusivas, e a interação se dá ou com poucos toques na tela, ou (e primariamente) pela voz — o “Ok Google Now” persistente do Moto X está ali.

Algumas telas do Android Wear.
Foto: Google/Reprodução.

Nos princípios de design do Android Wear, liberados junto com o SDK para desenvolvedores, o Google é extremamente cuidadoso em relação ao usuário. As notificações têm níveis de urgência, são hierárquicas, maleáveis e curtas o suficiente para serem vistas de relance em telas minúsculas. Só devem gritar pela atenção do usuário quando forem de fato urgentes — um voo que você está prestes a perder, uma mensagem de um amigo próximo. A interação também não é complicada. Nada de botões microscópicos, nem de várias opções. O usuário ou dá um toque no relógio em no máximo três telas de navegação, ou dita alguma coisa para ele. O Felipe fez um resumo bem bom desses princípios no Gizmodo.

O Google Now e o reconhecimento de voz são tecnologias que, sem pensar muito, casam muito melhor com algo que está sempre ao alcance, como um relógio, do que com o celular. Ainda perto, no bolso ou na bolsa, o celular está sempre distante o suficiente para chamar a atenção e distrair as pessoas ao ser manuseado. Por mais legal que seja, ele exige muito da nossa atenção e está longe de ser proativo, uma característica forte do Google Now. Sem contar que essa exclusividade é no mínimo rude com as pessoas ao redor.

Mais telas do Android Wear.
Foto: Google/Reprodução.

É esse ponto, exclusivamente, o que me mantém interessado em relógios inteligentes: a perspectiva de diminuir um pouco a escravidão dos celulares em que nos metemos. Mesmo reduzindo bastante as notificações que chegam no meu, é relativamente comum eu recorrer a ele quando o ouço tocar ou o sinto vibrar e, surpresa! é alguma bobagem desimportante. Ou tirá-lo do bolso só para consultar a hora, mexer uns poucos segundos em alguma coisa e devolvê-lo ao bolso — sem ver as horas. Acontece com você também, admita.

Um relógio que sirva de ponte entre essas informações triviais e os nossos olhos é válido. Olhar para o pulso é menos agressivo com os outros do que sacar o celular e olhar para baixo. O relógio, seu formato, é universalmente reconhecível. Décadas de uso dos relógios “burros” amenizam a estranheza diante dessas novas versões espertas, estranheza essa que outras iterações da computação vestível, como o Google Glass, sofrem para contornar. Ele é natural, socialmente aceito e, o mais importante, tem potencial de reduzir o phubbing.

Estilo conta, e a Motorola entendeu isso

Apesar do potencial, existem obstáculos a serem superados para que o relógio inteligente caia na graça do público.

O primeiro e mais grave é a autonomia. Além da naturalidade no meio social, os relógios convencionais têm outra característica marcante: eles aguentam longos períodos antes de pedirem recarga, ou uma nova bateria. E isso, como qualquer um que usa smartphone sabe, é quase uma utopia em sistemas móveis modernos. O Google não toca no assunto, nem as fabricantes que apresentaram seus projetos — Motorola e LG, até o momento. É um mau sinal.

Outro, também importante, é o visual desses aparelhos. Funcionalidade é imprescindível, mas o relógio, mais do que o smartphone, é um adereço. Nessa época de relógios de bolso modernos que por acaso fazem ligações, acessam a Internet e rodam apps, muita gente mantém o hábito de usar relógio de pulso simplesmente porque ele fica bonito, elegante.

Até agora ninguém tinha acertado nesse ponto. As investidas já apresentadas ou são desengonçadas, ou são feias. Frequentemente, desengonçadas e feias. Morfadores dos Power Rangers, relógio do Faustão, faça a piada que quiser — o simples fato de ser uma piada joga por terra a ideia de estilo que o relógio pode carregar consigo.

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O belo design do Moto 360.
Foto: Motorola/Reprodução.
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E é aí que a Motorola acerta com o Moto 360, seu relógio de estreia com o Android Wear. Um dos dois modelos já apresentados (o outro, o G Watch da LG, mantém o aspecto comum à categoria), o smartwatch da Motorola tem a tela redonda, evocando ainda mais a natureza clássica dos relógios de pulso convencionais. A confecção conta com materiais e acabamento de qualidade (é a promessa, pelo menos) e tudo isso soma à proposta de um relógio.

Parece preciosismo, mas o que se tenta vender aqui é mais um cacareco que as pessoas terão que carregar na tomada e tomar conta. Um que, a julgar pelos já lançados, não será exatamente barato. E, o mais crítico nesse cenário, um objeto que passa longe de ser item de primeira necessidade. Pelo menos por agora.

Pode dar certo, mas pode ser um grande fiasco. Tudo pode acontecer

Não é a primeira vez que a indústria tenta empurrar relógios que fazem mais do que mostrar as horas. O SPOT, da Microsoft, lançado em 2004, era uma tecnologia que enviava informações a objetos via ondas de rádio FM através de antenas colocadas em centros metropolitanos dos EUA e Canadá. O acessório mais difundido da tecnologia SPOT eram relógios, mas ela chegou também a cafeteiras e aparelhos GPS. No fim, a coisa não pegou e em 2008 a Microsoft encerrou o projeto.

(Aliás, curiosidade: a Fossil, uma das parceiras iniciais do Google no Android Wear, produziu um relógio SPOT em 2006. Fica a torcida para que o próximo modelo não se pareça nada com aquele…)

Players esperados para essa festa dos relógios inteligentes podem ignorá-la. A Apple, por exemplo. Ela já fez algo do tipo com o NFC, que por algum tempo foi tido como a próxima característica garantida em smartphones mas que, talvez por não ter sido implementado no iPhone, nunca teve muita aplicação prática. E se, a despeito de todos os rumores que meio que deram a largada nessa corrida do ouro, a Apple ignorar os relógios inteligentes? Parece loucura, mas Benedict Evans tem bons argumentos favoráveis a essa ideia.

Não dá para prever como esse segmento se desenvolverá, ou mesmo se ele conseguirá romper o grupo dos entusiastas e chegar ao grande público. Eu acredito que sim, ainda que seja só um achismo puramente baseado em concepções pessoais.

Como dito, a execução conta muito. Smartphones e tablets existiam antes do iPhone e do iPad, só eram ruins o bastante para serem ignorados. Há espaço para o relógio inteligente, mas como será o ideal? Qual será o modelo que levará o conceito às ruas, que tornará o hábito de andar com uma pulseira comum de novo? Candidatos não faltam, mas esse gadget disruptivo ainda não chegou ao mercado. Talvez ele rode Android Wear, talvez não. A única certeza é que quando esse mítico relógio aparecer, a gente saberá. Na hora.

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9 comentários

  1. Acho que a uma década atrás, existia os projetos de relógios-telefones, como o LG GD 910. Nunca vi “pegando pra valer” este tipo de coisa (apesar de ser ver a venda em sites de “quinquilharia chinesa” :) .

    Imagino que um “smart-syncro watch” não funcionaria para acabar com o vício em smartphones. No final, o vício se reverte ao próprio smartwatch, já que de qualquer forma, ficaríamos vendo os alertas emitidos de qualquer forma.

    Acho que o problema não está mais nas tecnologias, mas no que vamos fazer com elas. Muitos estão contra o Google Glass devido a capacidade de distração e invasão de privacidade com tal equipamento. Um smartwatch daria problemas menores, mas não menos preocupantes.

    Será que no final temos é que ter menos “gadgets” e invenções ao nível do Glass e do Watch?

  2. Acho o Google glass algo muito mais futurista que esses novos relógios, mas para conseguirmos o processamento que exigimos deles, o problema da autonomia realmente é um vilão enorme para ambos.

    Li (não lembro onde, desculpe) que o pessoal da Motorola quando questionado sobre a autonomia da bateria, apenas disseram algo como “foi uma das nossas principais preocupações”. Aguardar para ver se conseguiram encontrar uma solução.

  3. Não sei se minha vida é prosaica demais, mas o Google Now nunca me foi de muita serventia. Supreendeu-me uma ou duas vezes. Inclusive, desliguei o recurso recentemente já que o meu smartphone estava lento e resolvi dar uma geral e removendo o que não uso. Por isso, o relógio não me parece muito interessante.

    Eu costumo usar relógio, mas é mais um acessório de moda mesmo. O Motorola ficou muito bonito e achei a interface muito bem pensada, usaria um se tivesse a mão mas dificilmente compraria um. Para quem é inundado de notificações, parece uma boa ideia.

  4. Gostei do texto. Percebi muito nele uma dificuldade e o se manter em cima do muro, sei que ainda não se convenceu, mas tenho certeza que no momento em que a Apple lançar o dela você achará a revolução… Hehehe.

    Sem brincadeira, como eu comentei no grupo, considero o Google Now um produto muito melhor para esses dispositivos do que para smartphones. Me forço muito para usar o aplicativo na aparelho e nos relogios me parece que o uso será muito mais orgânico.

    Eu me vejo olhando um relógio para saber o tempo, ver quando passará meu ônibus ou se o trem vai atrasar. Ou responder rapidamente O hangout da minha esposa. E não precisar tirar o celular do bolso para essas pequenas tarefas me parece fantástico.

    O que me incomoda, assim como você disse, é a questão da autonomia da bateria e talvez o preço. Mas hoje muitos pagam caríssimo por relogios “que só mostram a hora” por que não pagar o mesmo por um inteligente?

  5. Eu discordo em dois pontos do post:
    – primeiro que o Wear promete diminuir o vício em smartphones. Não existe essa promessa, foi uma interpretação, correto? A promessa feita é que ele vai ser a base para devices vestíveis (esqueceram do Glass?) focando no fundamental. E só.
    – segundo, o projeto já começa com dois segmentos, os relógios e o óculos. Quem imagina que o Google vai criar um Android Wear e não usar no seu primeiro vestível?

    Fora esses dois pontos gostei bastante do post e espero ouvir no podcast um debate sobre isso.

    1. Tomei a liberdade de usar a palavra “promessa” em um sentido mais amplo (e esperançoso) do que literal. De fato, ninguém prometeu que usaremos menos o celular com o Android Wear, embora seja aceitável presumir isso — pelas interações dos vídeos e pelo próprio funcionamento dos relógios.

      Sobre o Google Glass, seria o mais sensato mesmo colocá-lo embaixo do mesmo guarda-chuva do Android Wear. Só que, até agora, não li nada oficial relacionando os dois. Talvez tenha perdido alguma coisa, talvez esse anúncio não veio. A conferir.

  6. O Android Wear realmente me surpreendeu, design lindíssimo e usabilidade muito bem pensada, a Google é realmente uma empresa incrível, porém, quando vi a notícia do lançamento fiquei imaginando os smartwatches que carregariam ele, todos que ja vi eram desengonçados, mal desenvolvidos e o pior de tudo, não tinham charme nenhum (eu pelo menos nunca usaria um Galaxy Gear), até que eu vi o Moto 360, design extremamente bem feito, extremamente elegante, e ainda com o Wear pra completar todo esse design, com toda certeza vou comprar um… (e eu não apostava nada nesses smartwatches, achava que era algo passageiro kkk)

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