Amazon Echo, interfaces e atrito

Celulares e, depois, smartphones, vêm engolindo outros produtos já faz um bom tempo ─ tudo, de relógios a câmeras e players de música, foi transformado de hardware para um app. Mas esse processo também acontece de forma reversa algumas vezes ─ você pega parte de um smartphone, a coloca em uma caixa de plástico e a vende como uma coisa nova. Isso aconteceu primeiro de uma forma bem simples, com empresas vasculhando a cadeia de suprimentos dos smartphones para criar novos tipos de produtos com os componentes que ela produzia, sendo o fruto mais óbvio a GoPro. Agora, porém, existem alguns pontos extras sobre os quais podemos pensar. Continue lendo “Amazon Echo, interfaces e atrito”

O Facebook me pediu para falar para meus amigos o que tenho feito

Em abril, soubemos que o Facebook estava numa investida para aumentar o conteúdo pessoal publicado pelos usuários na rede. Em paralelo, qualquer evento e, na falta desses, um “bom dia” tem aparecido no campo de atualização a fim de estimular mais publicações.

Às vezes perdemos de perspectiva que o combustível que move as conversações na rede social é produzido por nós mesmos. Logo, faz sentido essa preocupação por parte do Facebook. Notícias, o tipo de conteúdo que parece mais popular, encontra-se em outros lugares e não são personalíssimos ─ eu ou você ou qualquer outra pessoa capacitada podemos dar uma notícia sobre, sei lá, a Samsung. Atualizações pessoais, não. Dependem de cada um de nós.

Caixa de pressão social do Facebook.

Agora pouco abri o Facebook no computador e vi uma caixa com algumas fotos de amigos e a informação de que, ontem, 207 deles publicaram alguma coisa no Facebook. Considerando o total de contatos que tenho ali, esse número representa 23,4% do total deles. Nunca tinha visto isso. Achei a mensagem meio passivo-agressiva, um tipo não muito sutil de pressão social.

É muita gente? Pouca? Não dá para dizer me tomando por base, mas achei interessante ter esse dado. Primeiro por não esperar que fosse algo que o Facebook revelaria assim, sem cerimônia. E, também, por permitir a relação dele com o próprio feed. Puxando pela memória, seguramente não vi, entre ontem e hoje, mais do que 10% dessas pessoas que publicaram alguma coisa ontem no Facebook. O filtro invisível é poderoso.

Terceirização do discurso ─ ou do que nos faz humanos

O grande diferencial do Allo, um app de bate-papo que ignora as boas práticas de privacidade vigentes, é um intruso na conversa, o Google Assistant. Ele participa ativamente do diálogo, fazendo buscas a pedido dos interlocutores e, o que é mais preocupante, sugerindo respostas pré-fabricadas.

O Facebook Messenger também trabalha com robôs, mas em conversas paralelas, ou seja, não os traz para as conversas que mantemos com outros seres humanos — ainda, pelo menos. Mas é bobagem acreditar que isso se deva a um princípio humanista no âmago de Mark Zuckerberg.

É uma decisão de negócios. O Google quer se tornar uma entidade única nas nossas vidas digitais; o Facebook ainda depende de terceiros. Isso não o impede, porém, de experimentar com bizarrices. A última é sugerir tópicos de conversação com base no que seus amigos fizeram (ou confessaram ao Facebook terem feito) recentemente.

O problema disso tudo é que terceirizamos traços que nos são, até agora, exclusivos. A escolha das palavras e sobre o que falar são coisas muito humanas. Queremos terceirizar isso? Se sim, estamos cientes do custo?

Evan Selinger, professor de filosofia do Instituto Rochester de Tecnologia, e Brett Frischmann, professor da Faculdade de Direito Cardozo, estão escrevendo um livro intitulado Ser Humano no Século XXI (tradução livre). Um pequeno excerto publicado no Medium responde, de maneira limitada, mas didática, essas perguntas:

Terceirizar, então, não afeta apenas como uma tarefa é realizada. Quando decidimos ou não por terceirizar, precisamos considerar se vale a pena abdicar da ação, responsabilidade, controle, intimidade e possivelmente conhecimento e habilidade. Se não, provavelmente deveríamos realizar essa tarefa nós mesmos.

A conversa por texto já é bastante pobre. Ela normatiza o discurso de uma forma sutil, mas poderosa. Percebe como conversar com pessoas distintas pelo WhatsApp oferece menos nuances, como se todas fossem mais ou menos parecidas? Que as particularidades de cada um se revelam com mais facilidade, de modo inescapável, até, quando o contato é pessoal em vez de mediado por texto escrito em uma tela? Se nem esse fragmento de humanidade nos apps de bate-papo estamos dispostos a resguardar, aí tudo bem querer que o Allo escolha as suas frases e que o Facebook determine o assunto da conversa.

Os melhores apps para Android (setembro de 2016)

Todo mês o Manual do Usuário lista os melhores apps para as plataformas mais populares. Você está na do Android — não deixe de conferir, também, a lista da Apple (iOS e macOS) e as dos meses anteriores.

Faltou algum app aí embaixo? Avise nos comentários. E se descobrir algum legal no decorrer do mês, não se esqueça de mandá-lo para cá. Continue lendo “Os melhores apps para Android (setembro de 2016)”

O custo (além do financeiro) do Galaxy Note 7

O Galaxy Note 7 ficará na história como um belo smartphone com uma falha catastrófica que o inviabilizou como produto. É raro, mas acontece. O que importa mais, agora que o caso se encerrou e que o custo financeiro já é mais ou menos sabido (até US$ 10 bilhões), é o que esse erro custará em termos não financeiros à Samsung.

Especialistas divergem sobre os efeitos a longo prazo, mas alguns já são sentidos. Primeiro, na cadeia produtiva e no desperdício de metais raros, obtidos a muito custo ─ pessoal e ambiental, inclusive. É bastante difícil reciclar smartphones e, de qualquer modo, uma parte considerável do impacto ocorre antes da fabricação. Para a Motherboard, toda essa história e a destinação dos aparelhos, apesar dos esforços históricos da Samsung, são uma “piada ambiental”.

O outro efeito já sentido é na percepção da marca. O uso do termo “Galaxy” em toda a linha, que até agora tinha um efeito aglomerante favorável ─ o prestígio dos dispositivos mais caros escorria para os mais baratos à exceção dos muito baratos, tipo Galaxy Pocket ─, passa a jogar contra.

Era no máximo engraçadinho ouvir alguém chamar um desses de “Galaxy 7” ou “Samsung S7”. Agora, essas distinções sutis passam a ser cruciais e corre-se o risco de que a destruição da reputação da marca “Galaxy Note” (RIP) alcance outros “Galaxy”. Já está acontecendo.

A Samsung instalou quiosques em alguns aeroportos, antes das salas de embarque, para permitir a troca do Galaxy Note 7 por outro smartphone e fazer a transferência de arquivos e dados pessoais rapidamente. Em alguns países, o dispositivo foi banido de voos mesmo desligado.

“Meu corpo estava doendo”

No retorno do post livre (sim, voltou pra valer), a discussão sobre idade foi a mais votada pelos leitores. Chamou-me a atenção, nela, os comentários de gente jovem reclamando de dores no corpo.

Eu também tenho as minhas, derivadas de anos usando computadores, nem todos seguindo aquelas velhas orientações de postura e outras boas práticas. Com o smartphone, que normalmente nem uso tanto, parece que as coisas pioraram. A mão direita é das partes que mais sofrem: primeiro com o mouse, depois o trackpad (a rolagem machuca o dorso) e, nos últimos anos, manuseando o celular.

Até pouco tempo atrás, problemas do tipo (LER/DORT) ficavam restritos a profissionais que lidavam com computadores o dia todo. Esse perfil se espalhou para outras áreas. O smartphone, tão ou até mais nocivo que a dupla teclado+mouse, está impregnado na sociedade. Piora: o contato com esses aparelhos começa cada vez mais cedo, quando criança, fase em que a estrutura óssea ainda está em formação e mais sensível a desvios como os ocasionados pelo uso desses dispositivos.

Ainda não atingi o ponto sem volta, mas em dias de trabalho mais intenso, quando vou dormir com o ombro ou a mão doendo, é difícil não pensar no ponto de ruptura. E desesperador. Se não puder mais escrever, o que farei?

Nesta ótima matéria do BuzzFeed sobre o tema (em inglês), Diane Cho, 26, diz que “um grande motivo que me fez querer mudar de carreira foi meu braço estava literalmente se destroçando. Meu corpo estava doendo.”

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