Brendan Eich, novo CEO da Mozilla, em mais um capítulo de como (tentar) separar pessoas de instituições

Em pleno 1º de abril, Dia da Mentira, o OkCupid, um dos sites de relacionamentos mais tradicionais do mundo, uniu-se a uma campanha contra o Firefox. Motivo? A descoberta de que o novo CEO da Mozilla, Brendan Eich, apoiou com uma doação de US$ 1.000 em 2008 a Proposition 8, lei californiana que acabou aprovada e cujo conteúdo impedia a união civil entre homossexuais.

Atualização (3/4, às 18h): Brandon Eich não é mais CEO da Mozilla. O anúncio, feito por Mitchell Baker no blog oficial da Mozilla, reafirma a abertura e política de inclusão da organização, diz que houve falhas na resposta das críticas internas e externas a Brendan e diz que semana que vem novas informações sobre o novo CEO serão reveladas.

Mensagens de protesto no Twitter por funcionários da Mozilla.
Funcionários da Mozilla protestam no Twitter.

A indicação de Brendan como CEO da Mozilla tem enfrentado resistência derivada desse detalhe em seu histórico, inclusive entre seus subordinados. No Twitter, funcionários da Mozilla pediram publicamente a renúncia do novo líder. Fora do ambiente de trabalho, sites e usuários engrossam o coro e sugerem boicotar o Firefox. Uma petição online pedindo a saída de Brendan do cargo já conta mais de 70 mil assinaturas.

O clima é tenso, e nem as declarações públicas do CEO em seu blog pessoal e entrevistas parecem capazes de apaziguar os ânimos. No primeiro, ele escreveu:

“(…) Eu só posso pedir seu apoio para ter tempo de ‘mostrar, não falar’; e nesse meio tempo, expressar meu pesar por ter causado tanta dor.”

(…)

Estou comprometido em garantir que a Mozilla é, e continuará sendo, um lugar que inclui e apoia a todos, independentemente da orientação sexual, gênero, idade, etnia, status econômico ou religião.”

Em entrevista ao CNET, o tom usado foi cauteloso e pendendo para a separação pessoa física-entidade. Brendan Eich acredita que as convicções e posicionamentos pessoais não devam afetar a agenda da Mozilla, que já é bem atribulada tentando manter o navegador vivo entre dois gigantes (Internet Explorer e Chrome) e emplacar o Firefox OS:

“Se a Mozilla não puder continuar a operar de acordo com seus princípios de inclusão, em que você possa trabalhar na missão [da organização] independentemente do seu passado ou outras crenças, acho que nós provavelmente falharemos.”

A Mozilla, enquanto entidade e na figura de Mitchell Baker, chairwoman da Mozilla Foundation, apoia Brendam. Em seu blog, Mitchell posicionou-se, ao mesmo tempo, em defesa da diversidade e do novo CEO:

“(…) o compromisso da Mozilla com a inclusão para a nossa comunidade LGBT e todas as minorias, não muda. Ao agir para ou em nome da Mozilla, é inaceitável limitar as oportunidades a *qualquer um* baseado na orientação sexual e/ou gênero. Isso não é só um compromisso, é a nossa identidade.

(…)

[Na] minha experiência, Brendan é tão comprometido com oportunidades e diversidade dentro da Mozilla quanto qualquer outro, e mais do que muitos. Esse compromisso com as oportunidades para todos dentro da Mozilla tem sido um ponto basilar do nosso trabalho por anos. Eu o vejo em ação regularmente.”

A investida do OkCupid

Logo do OkCupid.
Imagem: OkCupid.

Christian Rudder, fundador do OkCupid, não gosta de brincadeiras de 1º de abril. Ele aproveitou a data, porém, para fazer uma espécie de protesto: quem acessou o site pelo Firefox, cerca de 12% da base de usuários, se deparou com uma mensagem oferecendo navegadores alternativos e expondo o caso de Brendan Eich.

A mensagem, traduzida pelo Lado Bi, é a seguinte:

“Olá, usuário do Mozilla Firefox. Perdoe essa interrupção da sua experiência pelo OkCupid.

O novo CEO da Mozilla, Brendan Eich, é um oponente dos direitos igualitários para casais gays. Nós gostaríamos, portanto, que nossos usuários não utilizassem software da Mozilla para acessar o OkCupid.

A política não costuma ser o negócio de um site, e nós todos sabemos que há problemas maiores no mundo que CEOs ignorantes. Então você pode se perguntar por que estamos afirmando nossa posição hoje. Aqui está o porquê: nós devotamos os últimos dez anos em unir pessoas – todas as pessoas. Se indivíduos como o Sr. Eich conseguirem o que querem, então mais ou menos 8% dos relacionamentos que nós trabalhamos tanto para tornar realidade seriam ilegais. Igualdade para relacionamentos gays é pessoalmente importante para muitos de nós aqui da OkCupid. Mas é profissionalmente importante para a companhia inteira. A OkCupid é a favor de se criar amor. Aqueles que querem negar o amor e, em seu lugar, promovem a miséria, a vergonha e a frustração são nossos inimigos, e nós desejamos a eles nada mais que o fracasso.

Se você quiser continuar usando o Firefox, o link no pé da página vai levá-lo ao site.

Nós, no entanto, insistimos que você considere usar um outro software para acessar o OkCupid.”

Não foi a primeira abordagem… inovadora do OkCupid para um problema. Não faz muito tempo, o site chamou a atenção com o tratamento que dá a usuários que navegam com bloqueador de anúncios. Em vez de recriminá-los, colocou uma imagem no lugar onde estaria o banner publicitário pedindo ao um pequeno pagamento para nunca mais exibir qualquer anúncio.

O próprio funcionamento do site é inovador, usando fórmulas matemáticas e questionários para atribuir porcentagens de compatibilidade. Este vídeo explica bem. É um serviço de vanguarda, tanto tecnicamente quanto nas abordagens que faz fora da sua atividade-fim.

A mensagem para usuários do Firefox ecoou bastante, mais do que Rudder esperava. Em entrevista ao Gizmodo, ele disse que da ideia à execução foi tudo muito rápido. E talvez a pressa tenha sido inimiga da iniciativa: qual era a ideia com ela? Rudder disse que não quer que Brendan Eich perca seu emprego e que a mensagem aos usuários do Firefox apenas “parecia a coisa certa a se fazer”. Se não a cabeça do CEO, o que quer o OkCupid? A Mozilla também não foi avisada de antemão sobre essa investida, mas depois que a coisa explodiu as duas empresas iniciaram conversações.

Como separar pessoas de instituições

Brendan Eich.
Brendan Eich. Foto: Mozilla.

Acontece muito na música e no cinema e, em certa medida, entre empresas com capital aberto na bolsa — ou de grandes proporções, a exemplo da Mozilla. As ações de quem está em evidência repercutem. Bastante. Um cantor que sai da linha, uma atriz que se perde nas drogas, um CEO com opiniões impopulares, todos pagam o preço dos atos inesperados pela posição que ocupam. Quando a obra é linda e o autor é um escroto, como lidar?

Um CEO impacta tanto quanto, objetivamente falando, um cantor ou ator. Ele tem o poder de ditar os rumos de uma companhia, mesmo quando os funcionários têm uma visão diferente das suas pessoais. A venda da Nokia para a Microsoft, muito mal recebida entre os finlandeses, é um exemplo recente.

No caso de um CEO, trata-se de mais do que um cargo funcional. John Schneider, do time de desenvolvimento da Mozilla, explicou em poucas palavras a importância desse cargo de liderança dentro de uma organização:

“Um CEO é (…) uma das faces mais visíveis de uma organização e [ele] representa mais para a imagem, parcerias e cultura [da empresa] do que um cargo altamente técnico, como o de um CTO.”

Nos comentários deste post no TechCrunch, Schneider novamente abordou o assunto:

“(…) É só o seu [de Brendan] cargo, agora na mira do público, que me causa preocupação. Não estou pedindo para ele ser demitido ou qualquer coisa do tipo, mas tenho receios sobre que impacto termos um CEO desalinhado com nossas (Mozilla) claras políticas de inclusão e tolerância terá em nossos parceiros, voluntários, investidores, colaboradores e funcionários em potencial.

Dito isso, sei que, não importa o que aconteça, as políticas pró-inclusão e LGBT da Mozilla jamais regridirão. Mitchell Baker jamais deixaria isso acontecer.

Como já disse algumas vezes, não tenho uma resposta ou solução, e é um caso complicado.”

A gritaria que funcionários da Mozilla têm feito é justificável. O CEO representa o espírito de uma organização, contribui decisivamente para como ela é vista pela comunidade externa. Um que tenha no histórico fatos que vão contra toda uma luta grande, difícil e na qual a Mozilla está comprometida pode enfraquecer essa imagem que vem sendo trabalhada há anos.

Não sei, porém (e não quer fazer juízo de valor, apenas incitar o debate), o que OkCupid e outros sites têm a ver com isso, ou o que eles ganham propondo um boicote tão explicitamente. Se Brendan Eich é tão cruel a ponto de recusarmos toda e qualquer coisa que venha dele, é bom desabilitarmos o JavaScript dos nossos navegadores e arcarmos com uma web bem mais lenta e menos dinâmica. Ele inventou o JavaScript.

Claro, essa alternativa é extrema e não avança o diálogo. É só um contraponto ao outro extremo, que tem sido mais publicado por aí. Opor-se à união civil entre homossexuais é daquelas atitudes incompreensíveis — é algo que só diz respeito aos envolvidos e, sério, que mal tem nisso? Qual o problema que alguém como Brendan vê nesses casais? Mistérios da mente humana. Mas é algo que atrapalha o desempenho das funções de um CEO, incluindo as representativas que o cargo exige? A resposta a esta pergunta, muito provavelmente, é o primeiro passo para resolver esse impasse.

A melhor brincadeira de 1º de abril que o Google já fez

Nos últimos anos o Google se especializou em celebrar o 1º de abril, também conhecido como Dia da Mentira, com ideias cada vez mais malucas e elaboradas. Em 2014, já na véspera, 31 de março, algumas foram ao ar, como o mashup entre Google Maps e Pokémon. Este ano também marca o décimo aniversário de uma das mentiras mais incríveis da empresa — em parte, curiosamente, porque ela acabou se revelando não ser uma.

As (poucas) brincadeiras do Google até 2004

Imagem ilustrativa do Google Copernicus Center.
Google na Lua. Imagem: Google.

A primeira brincadeira do Dia da Mentira do Google data de 2000, quando a empresa lançou o MentalPlex, um sistema que prometia projetar a imagem mental dos usuários enquanto esses olhavam para um GIF animado. Dois anos depois, foi a vez do PigeonRank, um trocadilho com o PageRank, sistema que analisa e atribui peso às páginas para mostrar sempre as mais relevantes no buscador do Google.

Em 2004, foi a vez do Google Copernicus Center, uma subsidiária do Google na Lua! Foram abertas vagas de emprego com a promessa de que as operações começariam dali a três anos, em 2007.

Além dessa maluquice (convenhamos!), outro anúncio foi feito naquele ano. No comunicado à imprensa, o Google revelou que após ouvir as reclamações de uma usuária sobre os webmails da época, decidiu criar o seu próprio serviço de e-mail. “Pesquisa é a atividade online número dois — o e-mail é a número um; ‘Heck, Yeah’, disseram os co-fundadores do Google”.

Nascia ali o Gmail.

Gmail em 2004: 1 GB de espaço!? Isso é brincadeira?

Ícone do Gmail.
Imagem: Google.

Mas nascia mesmo? Parecia bom demais para ser verdade e, no contexto da época, poderia ser uma brincadeira e tanto. As reclamações da usuária (teoricamente) fictícia no comunicado eram dramas reais das pessoas que acessavam a Internet em meados da década passada:

“‘Ela reclamava sobre gastar todo o seu tempo arquivando mensagens ou tentando encontrá-las’, disse [Larry] Page. ‘E quando ela não estava fazendo isso, tinha que apagar e-mails feito louca para ficar abaixo do limite de quatro mega bytes. Então ela pediu, ‘Vocês aí podem consertar isso?””

Hotmail e Yahoo! Mail, líderes da época, eram tiranos com espaço: com 2 e 4 MB de espaço para mensagens, respectivamente, eles nos forçavam a manter uma rotina quase robótica de apagar definitivamente mensagens da caixa de entrada. Até essa época, aliás, clientes de e-mail locais como Outlook Express (RIP), Thunderbird e outros menos conhecidos hoje faziam sentido porque no computador não havia limites, logo ao baixar as mensagens do servidor rolava um grande alívio no parco espaço disponível para receber novas mensagens.

Imagine o choque que foi um e-mail, gratuito, com 1 GB de espaço? Dava para desconfiar. Muita gente desconfiou, inclusive a mídia especializada.

No Slashdot, a pergunta era “O Gmail do Google ofecerá 1 GB de espaço?” e, em uma atualização datada em 1º de abril (a notícia do Gmail foi publicada no New York Times um dia antes), a descrença se manifestou com força (grifo meu): “O site do Google agora tem um comunicado oficial, naturalmente datado em 1º de abril.”

Outra interrogação cravou seu espaço no título desta notícia do WebProNews, cujo lide pisava em ovos e tinha uma abordagem bastante precavida: “No que pode ser uma elaborada brincadeira, o Google anunciou o lançamento do GMail, um serviço de e-mail gratuito”. O Erik, ao descobrir que o Gmail era de verdade 30 minutos depois de tomar conhecimento dele, ficou desapontado: “Eu testei. Não tem nada de impressionante. Não há nada aqui que eu já não tenha visto antes”. Ah, Erik! Como assim?

Naquele mesmo dia, porém, Jonathan Rosenberg, então VP de Produtos do Google, confirmou a veracidade do Gmail a vários sites. Primeiro acessível mediante convites, depois liberado a todos, a confirmação marcou o fim do racionamento de espaço para e-mails. E fica o convite à reflexão: quantos mega bytes teríamos em nossos webmails hoje se essa história fosse apenas uma brincadeira?

À frente da sua época, e assim por muitos anos

Para os padrões da época 1 GB era um espaço tão colossal que apagar e-mails no Gmail não era uma tarefa trivial ou mesmo incentivada. O site do Gmail não tinha um botão “Delete” destacado na interface — embora existisse, ficava soterrado em um menu à parte. Só em 2006 o “Delete” ganhou um espaço mais digno na interface. A proposta do Google era que com aquele latifúndio de espaço você jamais precisaria apagar um e-mail novamente; no máximo, arquivá-lo, um conceito interessantíssimo que, infelizmente, ainda passa batido por muita gente. (Se você não arquiva mensagens no Gmail, está usando errado.)

E não era só no espaço que o Gmail se destacava. A interface, baseada em AJAX, uma técnica que permite carregar partes da página sem recarregá-la por inteiro, dava uma sensação de velocidade típica dos serviços da empresa. O Gmail era extremamente ágil, anos-luz à frente do Hotmail, na época ainda preso ao visual esquisitão do MSN, e do Yahoo! Mail com suas pastinhas a la Windows 3.11.

Hoje, aquela interface beira o ridículo, como o Mashable nos mostra nesta galeria:

Como o Gmail era em 2004.
Gmail em 2004. Imagem: Google.

Mas acredite, era um negócio simples e interessantíssimo naqueles dias mais ingênuos na web. Disso aí em cima, chegamos ao visual atual, na imagem abaixo devidamente ornamentado com uma “shelfie”:

Shelfie, a nova moda do Gmail.
Gmail Shelfie, a brincadeira de 1º de abril em 2014. Imagem: Google.

Sem falar, claro, nos apps móveis. Em 2004 não existia iOS, Android ou Windows Phone. O mercado era dominado por Symbian, BlackBerry e Windows Mobile e o estado dos apps, deprimente. Já em 2014…

App do Gmail em um tablet Android.
Gmail em um tablet Android. Imagem: Google.

Ao longo dos anos o Gmail mudou um bocado, nem sempre de forma positiva. Alguns redesigns foram duramente criticados (incluindo o atual), o uso da sua popularidade para emplacar serviços sociais do Google, como Buzz e Google+, sempre ganhou a rejeição da maioria maioria dos usuários e a concorrência, ainda que atrasada, avançou e hoje oferece serviços equivalentes — especialmente o Outlook.com, da Microsoft, que ficou bem bom depois que largou o nome “Hotmail” e passou por um banho de loja.

Se toneladas de giga bytes não são mais suficientes para prender alguém ao serviço, o Gmail apostou em outras frentes para manter sua posição de vanguarda. Ele é onipresente, acessível e continua um tanto rápido. O app para Android é exemplar e com o aumento na importância da Conta Google, inclusive servindo para login em sites e serviços de terceiros depois do Google+, um @gmail.com é passou a ser mais do que um endereço de e-mail, é uma identidade na Internet.

A lista de brincadeiras de 1º de abril do Google tem crescido ano após ano. Mas por mais malucas, surreais ou simplesmente bobas que sejam, é difícil superar a do Gmail, de 10 anos atrás. O que chega a ser irônico: a verdade, afinal, foi a maior surpresa já criada pelo Google para o Dia da Mentira.

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!