O som da concentração: Músicas e barulhos podem torná-lo mais produtivo?

Em fábricas e escritórios não é exatamente raro nos depararmos com trabalhadores que, além do uniforme e acessórios necessários para o desempenho de suas funções, contam com um adereço extra: fones de ouvido. A música, companheira de festas, romances, do dia a dia, também se faz presente no ambiente de trabalho. Mas até que ponto ela é útil, e quando começa a atrapalhar?

Na Quartz, Adam Pasick escreveu um texto intitulado “O guia completo para ouvir música no trabalho”. Amparado por estudos científicos, em especial este de 1972, as conclusões a que ele chegou variam de acordo com a função desempenhada. Músicas agitadas, por exemplo, podem dar um impulso em produtividade àqueles que cumprem jornadas mais mecânicas, realizando tarefas repetitivas que, embora demandem foco, não pedem muito da nossa capacidade cognitiva.

Já em atividades contrárias, ou seja, aquelas que exigem mais cérebro do que músculos, músicas agitadas ou com letras atrapalham. Ao ouvir uma música, qualquer que seja, ela demanda parte da cota finita de atenção de que nosso cérebro dispõe:

“Não se engane: ouvir música significa que você está em modo multitarefa. Quaisquer recursos cognitivos usados pelo seu cérebro — para entender uma letra, processar emoções desencadeadas por uma música ou lembrar onde você estava quando a ouviu pela primeira vez — ficarão indisponíveis para ajudá-lo no trabalho.”

A melhor música para trabalhos cognitivos

Últimos álbuns que ouvi, via Last.fm.
Colagem via Last.fm Collage Generator.

Para alguns, como eu, o ideal é deixar todo o cérebro a postos para o que estiver fazendo. Dou o meu melhor no silêncio, e isso vale para além das músicas — os sons ambiente também devem ser preferencialmente mínimos. O mesmo se aplica a leituras, e quanto mais complexo o assunto, mais o silêncio é bem-vindo.

Infelizmente, nem sempre o silêncio proporciona a animação para uma tarefa que exija muito da minha capacidade cognitiva. É aí que entram as sugestões da Quartz: atentando a alguns detalhes, é possível obter os benefícios musicais dos trabalhadores “braçais” em atividades mais… digamos… paradas.

Na hora de montar sua playlist para essa finalidade, as principais dicas são:

  • Ouça apenas músicas instrumentais. O cérebro tem áreas dedicadas para várias funções e, na hora de escrever ou pensar em palavras (ler, inclusive), o ideal é concentrar todos os recursos que temos para esse fim na atividade em curso. Músicas com letras, nesse contexto, apenas atrapalham. Exceção à regra: letras em idiomas que você não conhece são permitidas.
  • Prefira músicas que tenham um ritmo bem marcado e constante. Nosso cérebro está sempre tentando adivinhar o que vem a seguir. Ao ouvir uma música muito elaborada, com mudanças brutas, picos intervalados e arranjos diversos, parte da nossa concentração, ainda que inconscientemente, se dedica à tentativa de “decifrá-la”.

Os melhores gêneros, segundo aquele post, são jazz, música clássica, e minimalista. Trilhas sonoras de filmes e jogos também são, em geral, recomendadas. Ao final, há uma playlist com indicações do autor. Se quiser arriscar, ela está no Rdio e Spotify.

Sai a música, entram os barulhos. Mudam os resultados?

GIF de um ventilador de teto.
GIF: Ventilador Online.

Minha qualidade de vida melhorou significativamente quando descobri o ruído branco. No contexto em que o abordo aqui, refiro-me a barulhos do ambiente capazes de anular outros indesejados.

Na física, engenharia e matemática o termo tem significado diverso, mais complexo, como muitos comentaristas apontam nesta matéria da Scientific American. O uso dele, aqui, diverge do científico, mas para fins didáticos se aplica. Pense, pois, no barulho da TV fora do ar, ou no que o ventilador faz quando ler “ruído branco” nesta matéria.

Por ter o sono leve, barulhos externos, como vizinhos conversando, música no bar da esquina e outros atrapalham meu sono. Ao ligar o ventilador contra a parede, o barulho das pás se sobrepõe aos demais e sua constância rapidamente é assimilada pelos meus ouvidos. Resultado: uma noite bem dormida.

O mesmo benefício se aplica ao trabalho? Aqui o terreno se torna mais acidentado. Existem estudos que suportam os dois lados, mas analisando-os melhor, como fez o pessoal deste tópico no StackExchange, as conclusões mais uma vez variam. Resumindo:

“O ruído branco melhora o desempenho na medida em que mascara ruídos que geram agitação ou que tiram o foco da tarefa em curso sem causar agitação por si mesmo. Falando de forma prática, se você estiver em um ambiente silencioso, o ruído branco provavelmente não terá um efeito positivo na sua concentração. Se estiver em um lugar mais ou menos ruidoso, ele provavelmente terá um efeito positivo. Entretanto, em um ambiente muito barulhento ele não terá efeito algum ou, se sim, um negativo.”

(A resposta mais votada do tópico mencionado acima traz diversas referências científicas embasando a conclusão do autor.)

Novamente me usando de exemplo, comigo o ruído branco para produção nunca funcionou bem. O silêncio é preferível e, quando tenho tarefas menos cognitivas, como lançar gastos no controle financeiro ou lavar a louça, geralmente coloco uma música qualquer para tocar.

Fachada de uma Starbucks em Londres.
Foto: Style Raw/Flickr.

O que eu testei e, em certa medida, gostei, foi de “simuladores” de sons ambiente. O Coffitivity é um app/site que reproduz o burburinho típico de locais como cafeterias e bibliotecas de universidade. Os criadores defendem a ideia com um estudo científico recente que diz provar que esses ruídos, dentro de níveis aceitáveis, dão um impulso na concentração. A parte do “dentro de níveis aceitáveis” tem um papel importante aí — em torno de 70 decibéis.

Ok, já sabemos que barulheira não ajuda, mas por que o outro extremo, o silêncio, é ruim? Em entrevista ao New York Times, o professor assistente Ravi Mehta, da Universidade de Illinois, que liderou o estudo que embasa o Coffitivity, explica que o silêncio absoluto leva a níveis altos de concentração, e que isso atrapalha o pensamento abstrato:

“É por isso que quando você está muito focado em um problema e não consegue resolvê-lo, deixa-o de lado por algum tempo e, quando volta, encontra a solução. [O ruído moderado] ajuda a pensar fora da caixa.”

Ele também faz uma ressalva: o barulhinho de fundo ajuda principalmente em tarefas criativas. Outras que demandam concentração absoluta, como a revisão de textos ou trabalhos envolvendo números, são melhores executadas no silêncio.

O que for melhor para você

São muitas variáveis a serem consideradas na hora de escolher a companhia auditiva para o trabalho: o tipo de função desempenhada, algumas predisposições pessoais, o humor do momento. Talvez fosse o caso de experimentar e ver o que te faz melhor, mas é difícil mensurar os resultados objetivamente. Neste paper de 1989, por exemplo, foi constatado que às vezes a gente se engana e aprecia a música no trabalho mesmo quando ela diminui a produtividade.

Uma mistura, em consonância com a variação de humor e natureza do trabalho, aponta para uma boa saída. Identificar os momentos onde um tipo de música ou barulho afeta positivamente nosso ânimo é o tipo de conhecimento que, mesmo sem perceber, pode acabar nos ajudando a trabalhar melhor. O problema é que, mesmo querendo, é bem difícil perceber quando e que tipo de som nos é benéfico. Argumentos pró e contra todo tipo de música existem aos montes (vários aí em cima, inclusive).

Como você usa a música, ou não, para fazer seu trabalho melhor?

Foto do topo: kev-shine/Flickr.

A inauguração da LG Mobile Store em Maringá, interior do Paraná

Foi inaugurada ontem em Maringá, interior do Paraná (e cidade onde moro), a primeira loja exclusiva da LG. Para ser mais exato, a primeira brand store de uma gigante da mobilidade por aqui. Por esse motivo, cruzei a cidade e fui conferir de perto o evento.

A LG Mobile Store de Maringá, a segunda do estado, fica no Shopping Catuaí, em uma das saídas da cidade. O espaço não é dos maiores, mas suficiente para acomodar estandes com smartphones, tablets e notebooks, o mix de produtos da loja.

Cheguei com antecedência, precavido. Mas a inauguração atrasou bastante… Nesse meio tempo o contador regressivo na porta deu uma surra nas promotoras do evento cada vez que elas tentavam adiar o horário. Vencida a demora, a fita vermelha simbólica foi cortada e as pessoas, ainda desconfiadas, começaram a chegar, entrando de mansinho, mexendo em um celular aqui, um tablet ali…

https://twitter.com/ghedin/status/459092526629416960

Dá para entender esse estranhamento. O conceito da loja, de expôr os aparelhos em bancadas ao alcance das mãos da clientela, é raro na região, onde ainda reina a cultura das vitrines (bem) trancadas. Conversando com João Fagundes, gerente de trade marketing da LG, ele ressaltou essa característica mais receptiva quando perguntei quais as expectativas para a loja recém-inaugurada:

“A expectativa é a melhor possível. A gente quer trazer para o consumidor de Maringá experiência, degustação… Hoje o produto mais vendido no Brasil é smartphone, (…) um produto que traz e-mail, Internet, acesso a todas as redes sociais, conveniência, qualidade de vida, te traz entretenimento… Então aqui você fecha uma venda segura: tem um vendedor especializado, paciência na hora de escolher o produto que mais se adequa [ao seu perfil]. Esse é o propósito da loja, e a venda será a consequência do bom serviço.”

João também revelou os planos de expansão para a cadeia de brand stores da LG. A de Maringá foi a 12ª inaugurada no Brasil, e a meta é chegar ao final de 2014 com quase 100 espalhadas pelo país. No Paraná, os esforços agora se voltam para Curitiba e, depois, outras cidades de médio porte, como Ponta Grossa.

O interior na rota dos lançamentos

A primeira compra, honra do Luan.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Com exceção de alguns problemas técnicos, especialmente o atraso na abertura da loja e uns tropeços ao faturar a primeira compra, honra do leitor Luan Eduardo Bondan que levou uma capinha para seu Nexus 5, a recepção foi tranquila.

Havia um batalhão de pessoas vestidas com o uniforme da LG, a maioria parte de um reforço aos quatro funcionários fixos que trabalharão no local. Não havia restrições para mexer nos equipamentos, todos ligados e conectados, e alguns smartphones ainda eram espelhados em TVs, via Miracast, para mostrar melhor aos clientes os recursos disponíveis. O ator Diego Cristo foi trazido para o evento e tirou fotos com os fãs, que podiam levá-las impressas para casa.

O que mais me animou, porém, foi a promessa de vermos os futuros lançamentos da marca chegando aqui ao mesmo tempo ou até antes que em centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Cláudia, gerente da unidade, garantiu que isso acontecerá, começando já com o G2 Mini, anunciado ontem e que deve estar na loja em breve.

Ter esse contato antecipado com novos produtos foi o que levou o Luan, citado ali em cima, a prestigiar a inauguração. Ele também espera que a presença de uma brand store diminua o hiato entre lançamentos nacionais e a chegada deles ao interior:

“Aparelhos como esses últimos, o G Flex, por exemplo, G2 Mini, essas coisas, demoram para chegar nas lojas de operadoras. Acho que aqui pode ser que cheguem antes.”

Diego Cristo tira fotos com fãs no interior da LG Mobile Store, em Maringá-PR.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Maringá, com pouco mais de 380 mil habitantes, não chega a ser uma cidade pequena. A loja da LG é a primeira brand store do tipo a abrir por aqui, mas não deve ser a última. Em outros países a Samsung, concorrente doméstica da LG e extremamente agressiva em marketing, está indo mais fundo ainda no conceito. Na Índia, por exemplo, está abrindo lojas em milhares de cidades com menos de 100 mil habitantes. São geografias e estratégias diferentes, mas um indicativo de que, com as devidas adaptações, o mesmo pode ocorrer no Brasil.

Os smartphones da LG Mobile Store

G Flex, o smartphone com tela flexível da LG.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Quando a loja abriu, pude enfim ver de perto o G Flex, curiosíssimo smartphone com tela flexível e plástico traseiro regenerativo. Devo receber uma unidade de testes logo e, na sequência, claro, publicar um review.

Outro que me chamou muito a atenção foi o L40, o único membro da linha LIII da LG, anunciada no Mobile World Congress em fevereiro. O que mais me interessa ali é ver se na prática a dieta a que o Google submeteu o Android na sua última atualização traz benefícios: ele vem com Android 4.4 de fábrica movido por apenas 512 MB de RAM.

LG40: Android 4.4 com 512 MB de RAM.
Foto: Rodrigo Ghedin.

E em meio ao burburinho dos clientes e a música alta do DJ apavorando dentro da loja (essa ideia foi meio ruim), entreouvi algumas coisas sobre o vindouro G3, novo topo de linha da LG. Aparentemente os rumores são verdadeiros: ele terá mesmo bordas frontais finíssimas, tela com resolução 2K e um redesign nos botões traseiros, a curiosa posição adotada no G2 que será mantida na nova geração. Características a serem conferidas.

Como o Flogão virou um reduto online de fãs de caminhão

Em meados dos anos 2000, quando câmeras digitais compactas ainda eram maioria e estávamos limitados às 12 fotos que o Orkut permitia enviar, a fotografia digital encontrava nos fotologs o caminho mais fácil para chegar à Internet.

Era uma época mais ingênua, com fotos mais granuladas e resoluções menores. O local onde a maioria que gostava de tirar e publicar fotos era o Fotolog.net, mas outros, como Vibeflog e Flogão, corriam por fora e conquistavam adeptos. Além da publicidade, esses serviços ofereciam planos pagos com vantagens, como maior número de comentários, personalização e música de fundo. Eram, pois, modelos sustentáveis, mas que não resistiram ao atropelo de redes sociais maiores, como o próprio Orkut, depois que relaxou o limite de fotos, e o Facebook, que terminou o que a rede social do Google havia começado e praticamente monopolizou a publicação online de fotos de nós mesmos e de amigos.

Hoje os flogs só são lembrados em duas situações. Quando não em sessões nostálgicas de quem viveu seu auge, é por jornalistas que encontram pérolas arqueológicas de astros recém-saídos da adolescência — Ganso e Leandro Damião, para ficarmos só no esporte, que o digam. Mas os flogs não são só isso. Sem muita invencionice, parados no tempo, eles seguiram em frente, e um desses serviços, o Flogão, acabou evoluindo para algo meio difícil de entender: virou o ponto de encontro de jovens que idolatram caminhões.

Flogão dos caminhões

Descobri esse “pivot” do Flogão durante a gravação do Radiolink, um projeto de extensão do curso de Comunicação e Multimeios da UEM. Um dos temas daquele programa foi flogs, e em meio a muitas histórias do passado despontou essa curiosa roupagem moderna do Flogão: ele foi invadido por caminhões, que aparecem no bloco dos VIPs (contas pagas), entre os flogões mais populares, são os mais comentados… A página inicial do Flogão de 2014 está dominada por caminhões.

Intrigado, resolvi investigar como o Flogão passou de selfies e fotos de gente para veículos de grande porte.

Clube dos adoradores de caminhões

Caminhões.
Foto: Conexão 277.

Para entender essa mudança tão grande no público-alvo, inicialmente procurei os responsáveis por ela: os flogueiros, como eles se chamam.

Logo de cara, Luiz, 15 anos, de Cascavel-PR, revelou o mistério: a maioria dos flogueiros é formada por filhos de caminhoneiros, jovens que, como ele, adoram a profissão, ainda não têm idade para dirigir e curtem muito um “caminhão mais arrumado, com frente rebaixada, traseira levantada, um tanque bem polido… sabe? Caminhão levado no capricho”.

Luiz mantém, com dois amigos, o Conexão 277, um Flogão VIP (pago). Além do tema pouco usual, a escolha do Flogão com tantas outras opções gratuitas disponíveis, como Instagram, Flickr e Facebook, era outra dúvida grande. Sendo um membro mais recente dessa onda de flogueiros de caminhões, Luiz apenas seguiu o fluxo. “[Escolhi o Flogão] porque já nas antigas existiam Flogões de caminhões”. Ele começou em 2012, mas diz que em 2008 já havia Flogões do gênero. Estar entre seus pares é uma vantagem importante para ele, pois facilita encontrar e ser encontrado por outros jovens que curtem caminhões.

As estatísticas do Flogão são importantes.
Imagem: Conexão 277.

Apesar da opção pelo Flogão, ele reclama um pouco do descaso. Vez ou outra o sistema “buga” e bagunça as estatísticas, ou rejeita fotos. Outra crítica recai em Flogões que, aproveitando-se desses bugs, trapaceiam e inflam artificialmente as estatísticas. Não existe sistema perfeito.

A arte de tirar fotos de caminhões

Danillo Araújo, 17, de Luziânia-GO, é outro apaixonado por caminhões que mantém um Flogão, o Elite Goiana. Ele também entrou nessa recentemente, no final de 2012, e assim como o Luiz escolheu o Flogão pelo público que já estava lá: “Acho que não teria tanto público nesses sites [Flickr, Instagram], já que 80% do Flogão é destinado a caminhões. Ele se tornou muito conhecido, então quem quer ver fotos [de caminhão], vai diretamente aos Flogões”.

Os dois contaram como é o processo de tirar fotos. Em ambos os casos, os meninos vão a um posto de combustível e ficam esperando pelos caminhões mais bacanas (“aqueles que têm acessórios e andam sempre limpos”, conta Danillo). Tiram fotos e, quase sempre, recebem um retorno dos caminhoneiros.

Foto do Flogão Elite Goiana.
Foto: Elite Goiana.

A prática é nacional, então vários motoristas já sacaram os flogueiros e mantêm uma relação amistosa com eles, param para conversar, se interessam e querem saber mais sobre o assunto. Uns poucos torcem o nariz e ficam até bravos com o pessoal dos Flogões, mas a maioria dos menos amistosos são apenas precavidos. Perguntam para que são as fotos, desconfiam das respostas que recebem… Uns acabam convencidos das boas intenções dos flogueiros, mas sempre tem aquele que acha ruim, independentemente das explicações, ter o seu caminhão fotografado por adolescentes.

Vez ou outra a polícia interfere. Meio sem entender, apenas mandam os meninos para casa. Luiz conta de uma situação em Toledo, cidade próxima a Cascavel, também no Paraná. Um grupo de flogueiros menores de idade foi abordado pela polícia, que os mandou para casa sob a ameaça de, em caso de reincidência, serem encaminhados ao conselho tutelar.

Parece exagero, mas uns poucos flogueiros tornam o receio válido. Luiz conta que costuma ficar com seus amigos na sombra de alguma árvore, esperando os caminhões passar e sempre tirando fotos fora da pista, em locais seguros. Nem todos têm essa prudência: “tem piá que não, que faz por merecer, se joga no meio da pista pra tirar foto, deita no chão… bobeira, sabe? Outros se jogam no meio da pista e balançam as mãos para os motoristas darem ‘quebras de asa’, sabe?”

Não, não sei. O que é quebra de asa?

O perigo da quebra de asa — e da superficialidade da mídia

Ano passado o Fantástico, da Rede Globo, veiculou uma matéria que alertava sobre a “quebra de asa”, manobra em que o motorista joga a carroceria do caminhão para o lado, fazendo uma espécie de zigue-zague na pista. Pouco tempo depois a RPC, afiliada paranaense da Rede Globo, exibiu outra reportagem mostrando (mas não identificando) flogueiros que pedem aos motoristas para que façam a manobra a fim de tirarem fotos.

A matéria não foi muito longe e ignorou completamente a motivação dos que ficam na beira das rodovias pedindo pela perigosa manobra. Eles existem, mas são, segundo Luiz e Danillo, exceções que mancham a reputação dos flogueiros. Luiz me disse:

“Na maioria das vez os próprios flogueiros pedem para eles fazerem isso. Nós não achamos legal; além de danificar o caminhão, [a quebra de asa] oferece grandes riscos. (…) É revoltante. Por causa de alguns bestas, todos os outros ficam mal vistos.”

O YouTube está repleto de vídeos de quebra de asa, vários feitos por flogueiros, alguns assustadores, como este. Infelizmente, uma prática sadia e que valoriza o caminhoneiro, profissional muitas vezes esquecido ou ignorado, é deixada em segundo plano por causa de uns poucos inconsequentes que extrapolam a segurança e buscam esse tipo de emoção pra lá de questionável.

Um dos rapazes que procurei para conversar, aliás, cancelou a entrevista temendo represálias no trabalho. Por e-mail, disse que “os ‘flogueiros’, como somos chamados, estão sendo vistos de uma forma negativa conforme esta passando na televisão, sendo que nem todos ficam no acostamento se arriscando para conseguir filmar uma quebrada de asa”. Afinal, é mais fácil ser sensacionalista.

E o Flogão?

O gato-mascote do Flogão.
Imagem: Flogão.

Pelo que apurei dessas conversas, o Flogão virou o que é hoje meio que por acaso, pelo comportamento de manada dos flogueiros mais novos. Alguém começou a subir fotos de caminhões lá atrás e depois dele, outros seguiram o exemplo.

O abandono do serviço é evidente. Além dos problemas técnicos relatados pelo Luiz, o layout não muda há anos e as estatísticas de visitação dos flogões mais populares dão uma pequena dimensão do quão baixo é o alcance obtido hoje.

Tentei conversar com alguns profissionais que estavam no Flogão entre 2007 e 2008, sem sucesso. O máximo que descobri foi uma negociação, posteriormente revertida, que levou o Flogão ao Power.com, uma startup brasileira que tinha por objetivo concentrar diversas redes sociais em uma interface centralizada. O Power.com chegou a aparecer no TechCrunch e fez barulho na época. Um ano depois, em 2009, arranjou briga com o Facebook acerca da portabilidade de dados e, em 2011, fechou as portas. No tempo em que esteve lá, houve uma profunda reformulação no código do Flogão e tentativas fracassadas de expandi-lo.

Desde que voltou a ser independente, o Flogão não viu melhorias em seu sistema ou na oferta de recursos. Entrar no site em 2014 é como voltar ao passado, com a diferença de que no lugar de pessoas existem caminhões adornando os endereços mais badalados.

Da mesma forma que o Flickr passou de um jogo online para uma rede social de fotos e que o Twitter absorveu replies e retuítes, recursos que surgiram organicamente entre os usuários do serviço, o Flogão passou por uma mudança que veio de fora para dentro, um acidente de percurso que talvez seja o único responsável por mantê-lo no ar até hoje.

Com Facebook, WhatsApp e Instagram processando bilhões de fotos diariamente, sobra pouco espaço para redes estagnadas e notoriamente menos dinâmicas, como os fotologs de dez anos atrás. O nicho caminhoneiro criou um ambiente diferente de qualquer coisa na Internet, um lugar fascinante, escondido nas ruínas do que era, há pouco tempo, um lugar bem popular na Internet.

Foto do topo: Pavel P./Flickr.

Câmera do Google: pequenos acertos e o novo Efeito foco

Nessa semana o Google deu mais um passe no desmonte que vem fazendo do Android. Não entenda isso como algo negativo; ao remover apps e funções do sistema e permitir a atualização “por fora”, via Google Play ou Google Play Services, os efeitos negativos da fragmentação da plataforma são mitigados. Desta vez foi a câmera que passou a ser distribuída e atualizável pela loja de apps oficial.

A Câmera do Google funciona em qualquer Android rodando a última versão do sistema (4.4 “KitKat”). O app mantém a pegada minimalista do que acompanha o sistema, mas traz mudanças estéticas, simplificações e um modo de disparo totalmente novo, o Efeito foco, que tenta reproduzir o que a Lytro faz nativamente: brincar com a profundidade de campo após tirar a foto. Voltarei a isso depois.

Interface da câmera mais simples e com boas novidades

A nova interface da Câmera do Google.
Câmera do Google.

A interface foi simplificada e, no geral, ficou melhor. O Google finalmente adequou o viewfinder à proporção da foto. Antes, o usuário via uma imagem em 16:9 mesmo quando a foto saía em 4:3, um detalhe que, aos incautos, prejudicava todo o cuidado com a composição. A saída agora bate com a da foto e o espaço que sobra, à direita, transformou-se em um grande disparador — a foto é feita ao tocar em qualquer ponto daquela área, não só no ícone. No viewfinder, um toque ajusta o foco para a área selecionada.

Alguns controles, como troca de câmera, flash e HDR, ficam ocultos em um pequeno ícone no canto superior direito. E foi uma grande felicidade reparar que agora dá para colocar uma grade 3×3 no viewfinder!

Os modos de disparo ficam ocultos na borda à esquerda, e são trazidos à tona com um deslizar de dedo, mais ou menos como na câmera do Moto X. Toda vez que a câmera é aberta eles aparecem ali antes de sumirem, detalhe importante para evitar que caiam no esquecimento junto a usuários menos ligados. Do outro lado, ficam as últimas fotos feitas.

São os mesmos modos de sempre, mais o novo Efeito foco. Cada botão ganhou uma cor própria e um visual bastante “flat” que se estende por todo o app. O atalho para as configurações gerais fica oculto, só é revelado ao puxar os modos de disparo. É a engrenagem à direita. As opções são bem limitadas, mas valem uma visita para aumentar a resolução de tudo — os modos Efeito foco e Photosphere não vêm configurados na resolução máxima; a do Photosphere, aliás, agora subiu para 50 mega pixels contra 8 da versão antiga.

Efeito foco, ou a Lytro fazendo escola

Começou com a Lytro. Depois, foi a vez da Nokia trazer o recurso para as câmeras PureView atavés do Refocus. A nova leva de Androids, encabeçada por Galaxy S5 e HTC One (M8), também entrou na dança; no caso do modelo da HTC, o UFocus, nome do recurso, se utiliza de uma câmera auxiliar para calcular o espaço tridimensional e refinar os resultados.

Desfocar o fundo de uma fotografia é uma coisa legal e muito procurada. Em alguns grupos de smartphones no Facebook, o efeito bokeh é febre — as pessoas procuram por apps que façam isso e ficam fascinadas com os resultados práticos de uma grande profundidade de campo mesmo quando eles são absurdamente ruins, caso de quase todos esses apps de pós-edição. Agora, qualquer um com o Android 4.4 terá essa opção embutida no app da câmera. Mas é uma opção viável?

Sendo uma câmera específica para esse fim, a Lytro oferece os melhores resultados e tem um mecanismo fechado e otimizado para tanto, composto por conjunto de lentes extras dedicado a capturar mais luz de todas as direções possíveis. No caso da Nokia, a técnica é mais rudimentar, mas alcança resultados bem competentes: o app tira uma sucessão de fotos com diferentes pontos focais ao mesmo tempo em que cria um “mapa de profundidade” da cena, juntando tudo depois em uma imagem que é manipulável no app e externamente — dá para brincar no site oficial e incorporar essas fotos dinâmicas em qualquer página web. Abaixo, uma que fiz com o Lumia 920:

A técnica adotada pelo Google é similar, mas exige um movimento extra para ajudar os algoritmos responsáveis pela mágica do foco posterior. Ao fazer uma foto no Efeito foco, é preciso “levantar” a câmera; um tutorial na tela ensina o que e quando fazer. Além disso, diferentemente da solução da Nokia, na do Google dá para, além de alterar a área focada, mudar a intensidade do desfoque no restante da imagem. A desvantagem é que tudo isso só fica disponível para quem tirou a foto, e no próprio aparelho. Ao compartilhá-la em outro local, ela vai como um JPG comum.

O Efeito foco não é perfeito, mas diverte.
Efeito foco em ação.

Neste post, Carlos Hernández, engenheiro de software do Google, explica em termos mais técnicos como isso funciona:

“O Efeito foco substitui a necessidade de um grande sistema ótico com algoritmos que simulam lentes e abertura grandes. Em vez de capturar uma só imagem, você movimento a câmera para cima a fim de capturar um conjunto completo de quadros. A partir dessas fotos, o Efeito foco usa algoritmos de visão computacional para criar um modelo 3D do mundo, estimando a profundidade (distância) de cada ponto na cena.”

Após tirar uma foto nesse modo, a galeria exibe um botão extra de edição que permite mudar o desfoque simplesmente mexendo em uma barra.

É uma implementação engenhosa, mas nem sempre funcional. Em vários casos o desfoque invade o objeto em primeiro plano e vice-versa, ou então não consegue delinear corretamente o que deve estar em evidência. E tem o problema da resolução, já que a qualidade máxima (e que torna a captura mais lenta) só alcança 2048×1536.

Quebra o galho, mas não faz frente a uma boa câmera com lentes bem abertas, ou mesmo ao trabalho que a Nokia fez com o Refocus. Embora mais limitado, o efeito nas câmeras PureView é, na média, mais natural. Às vezes, dependendo da situação, o Efeito foco da Câmera do Google gera algumas aberrações, como essas cebolinhas:

Um caso em que o Efeito foco não funcionou direito.
Foto: Rodrigo Ghedin

Em condições ideais, porém, dá para alcançar resultados magníficos, como esse da laranja (ambas são a mesma foto, com o foco alterado via software depois do clique):

Laranja desfocada.
Sem foco.
Laranja focada.
Com foco.

É um começo. Com o tempo o algoritmo deve ser aperfeiçoado e os resultados ficarão mais consistentes e chegarão a resoluções maiores. É esperar para ver — e, enquanto isso, se divertir mesmo com as limitações.

Nada de filmar em modo retrato!

A Câmera do Google pede ao usuário para deixar o smartphone em modo paisagem na hora de filmar.
Vire o celular!

Lembra do meu apelo para não filmarmos em modo retrato? A nova Câmera do Google engrossa o coro.

Quando no modo de vídeo com o celular em pé, um ícone na tela recomenda ao usuário que ele incline o dispositivo. É um ícone animado pouco descritivo, e não será surpresa se muita gente ficar coçando a cabeça tentando entender do que se trata ao se deparar com ele, mas é um toque legal, gentil (ele não te proíbe de filmar assim, como o YouTube Camera do iOS) e talvez capaz de conscientizar alguns que ainda insistem em filmar na vertical.

Câmera do Google, mais uma (boa) opção

No geral, quem usa o Android padrão (Nexus) tem bons motivos para atualizar a câmera para essa nova. Proprietários de outros modelos já no Android 4.4, como Moto X, Moto G, Galaxy S4 e Galaxy S5, não perdem nada testando, embora o apelo seja menor nesses casos — Motorola e Samsung se dedicam a criar apps de câmera poderosos ou mais acessíveis.

De qualquer modo, não custa nada experimentar. Às vezes é na simplicidade de um app como o Câmera do Google que mora o conforto ou, no caso, a melhor interface para se fazer fotos memoráveis.

Travei o SIM card! Como quase destruí meu smartphone com um adaptador de R$ 3

Smartphones são projetos miniaturizados com o mínimo de partes móveis ou removíveis possível. Antes, baterias podiam ser trocadas, tampas saíam e quase sempre um slot para cartão de memória estava disponível. Hoje, pelo menos entre os aparelhos de ponta, a única alteração permitida é a inserção do SIM card, o chip da operadora. E foi isso, uma peça minúscula, o que quase arruinou o meu smartphone.

Os quatro tipos de SIM card

A miniaturização não atingiu somente o aparelho em si e seus componentes externos; o SIM card também encolheu com o passar do tempo. Do modelo original surgido com a tecnologia GSM e pouco lembrado hoje, ele encolheu muito. Antes, tinha quase o tamanho de um cartão de crédito. Desse, passamos ao modelo mini, com 15×25 mm e ainda o mais conhecido. Depois veio o micro, com 12×15 mm, que já se encontra em vários modelos intermediários e até alguns de entrada, como o Lumia 520. Por fim, chegamos ao nano, usado em poucos modelos, como os iPhones mais recentes, o Moto X e o novo One, da HTC, com apenas 8,8×12,3 mm.

Estamos em um ponto em que esses três tamanhos ainda encontram espaço nos smartphones à venda, em uma escala que vai dos mais simples (mini) até os mais avançados (micro ou nano). Na condição de quem testa diversos aparelhos, tenho dois SIM cards, o meu principal/pessoal (nano), que uso no dia a dia, e um outro apenas para testes (micro).

Mini, micro e nano SIM.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Ontem pela manhã, decidido a experimentar o Windows Phone 8.1 Preview por alguns dias de forma total, ou seja, como meu smartphone principal, recorri a um dos itens da última visita virtual que fiz à DealExtreme: um adaptador de SIM cards. É um modelo barato, custou ~US$ 1,50, e bem versátil, composto pela chave para ejetar a bandeja de alguns modelos e adaptadores nano > micro, micro > mini e nano > mini.

Isso é possível porque embora o tamanho da moldura e do chip mude nos três tipos em uso atualmente, a leitura do chip, não. Se um nano SIM conseguir ocupar o espaço destinado a um mini SIM, ele funcionará. Correu-se o risco de haver uma quebra no padrão quando a ETSI estava escolhendo o 4FF, nome técnico do nano SIM. A Apple comprou briga com Nokia e outras fabricantes, que queriam um formato totalmente novo, e venceu. Graças a isso, a retrocompatibilidade foi mantida.

Tirei o nano SIM do iPhone 5, encaixei ele no adaptador e, em seguida, enfiei na bandeja do Lumia 920, o Windows Phone que uso para acompanhar o sistema e testar apps e soluções na plataforma. Religuei o aparelho e ganhei a mensagem de que o SIM card não fora reconhecido. Tranquilo, isso pode acontecer. O meu primeiro impulso foi remover a bandeja, ajeitar o adaptador e tentar novamente. Mas aí ele travou, e não saía mais. E eu, travei também quando me dei conta de que meu SIM card principal estava preso dentro do celular e, pior, sem funcionar. Que bela maneira de começar o dia.

Adaptadores, para que os quero?

Quem compra produtos baratinhos na DealExtreme e em outras lojas virtuais chinesas sabe que não raramente eles são uma roleta russa: podem ser muito bons e até duráveis, como aquele aspirador de pó portátil (ainda está funcionando!), ou mais frágil que itens descartáveis. O meu adaptador, aparentemente, cai nessa segunda definição.

Bandeja do Lumia 920 travada.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Após algumas tentativas frustradas seguindo tutoriais, os quais consistem basicamente em enfiar um plástico fino no vão da bandeja para destravar as “garras” que prende o SIM card lá dentro, fui a uma assistência que já haviam me recomendado aqui, no centro de Maringá. Sem os receios que eu nutria, o rapaz que me atendeu puxou a bandeja de uma vez e ela saiu. E eu, com cara de tacho, incrédulo com a facilidade com que ele fez aquilo e temeroso pelo movimento ter danificado alguma coisa internamente, apenas consegui balbuciar algo como “rapaz, que fácil, não?”

Passado o susto (não houve danos, o smartphone continua funcionando bem), eu não me arrisquei mais, né? Experimentarei o Windows Phone 8.1 Preview como se meu Lumia 920 fosse uma versão mais moderna do Zune em um universo paralelo onde o player da Microsoft não foi descontinuado e continua vendendo uma fração do que a Apple vende de iPod.

Adaptadores não são, pois, recomendáveis em aparelhos como esse, que guardam o SIM card em uma bandeja e são de difícil acesso. Já usei outros em celulares mais acessíveis nesse aspecto, nos quais o compartimento do SIM card fica totalmente exposto. Neles, caso algo dê errado, como enfiar o adaptador sem um SIM card, contornar esse problema é mais simples. Já aconteceu comigo, inclusive.

Claro que pode dar algo muito errado, como avisa o Android Central. No post, eles puxam um vídeo de 2012 (acima) em que Kevin Michaluk destrói um BlackBerry Bold 9900 com um adaptador vazio. E, no texto, Jerry Hildenbrand confessa já ter feito o mesmo com um Galaxy Nexus e entrega um colega que quase transformou um Lumia 1020 em uma bela câmera com apenas Wi-Fi. Todos, pois, graças a adaptadores. No meu caso, que foi com um Galaxy S II Lite, tive a sorte de conseguir remover o adaptador sem danificar o compartimento.

“Adaptador” é, por definição, um quebra-galho. Ao adaptar uma coisa, o que se faz é forçar o funcionamento de algo que, a princípio, é tão inadequado a ponto de não funcionar naturalmente. Você pode usar adaptadores de tomadas para plugues com o novo padrão brasileiro (e que sejam certificadas pelo INMETRO, por favor!), por exemplo, mas o ideal é trocar as tomadas da sua casa quando possível. Vai usar adaptadores de baixa qualidade, equivalentes aos que comprei para meus SIM cards? O risco, como mostrado, não compensa.

O que passei aqui é mais um problema de quem vive de testar celulares, está sempre trocando de aparelho, perfis peculiares. Se você comprou um smartphone novo e ele usa um padrão diferente de SIM card, o melhor a se fazer é ir a uma loja da sua operadora e solicitar a troca. Paga-se o preço de um SIM card novo, mas com a garantia de não levar sustos e a certeza de não colocar a integridade do seu smartphone em risco.

Tablets: amor para a vida toda ou apenas um caso rápido?

Os rumores que antecederam o lançamento do iPad, em 2010, traziam de carona comentários bem céticos. Muitos chamavam o tablet, sem conhecê-lo, de “iPodão”, e questionavam por que alguém iria querer um iPod gigante ou mesmo como ele se encaixaria na vida de alguém que já tivesse um smartphone e um notebook.

O iPad surgiu e, dos detratores, poucos sobraram. Muita gente reviu suas conclusões prematuras e, mesmo sem conseguir chegar a motivos racionais, enxergou o valor intrínseco do tablet. É difícil mesmo explicar a utilidade de um tablet, mas ela existe e qualquer pessoa que já correu os dedos por uma tela com quase o dobro do tamanho da de um phablet sabe que aquilo ali é, no mínimo, diferente.

Passados quatro anos da apresentação do tablet moderno, o segmento dá os primeiros sinais de desaceleração. Entre entusiastas, onde o conceito já se firmou, muitos que aderiram ao equipamento começam questioná-lo. No mainstream, ainda falta informação; aquelas mesmas dúvidas pré-lançamento do iPad não foram totalmente sanadas, ou de forma clara, para todos.

Afinal, tablet é apenas uma paixonite temporária, ou é amor para a vida toda?

A falta de interesse pelo tablet

Dedo tocando a tela de um tablet.
Foto: ebayink/Flickr.

Uma pesquisa da Kantar Worldpanel ComTech conduzida com norte-americanos no último trimestre de 2013 constatou que 53% dos entrevistados não pretende adquirir um tablet nos próximos 12 meses e que 34% não tem certeza se o fará. Matemática básica, do total apenas 13% afirmam estar em seus planos a compra ou troca de um tablet em 2014.

Os números, obtidos no maior mercado de tecnologia de consumo do mundo, chamam a atenção. Os oficiais das empresas, embora não pintem um cenário ruim, também dão sinais de que o ritmo diminuiu. No último trimestre fiscal do ano passado a Apple vendeu 14,1 milhões de unidades do iPad, número ligeiramente superior ao mesmo período de 2012 mesmo com a linha revigorada com o iPad Air e iPad mini com tela Retina reforçando o time. A Samsung não revelou números exatos, mas disse, em seu relatório do mesmo trimestre (PDF), ter observado um aumento nas vendas das suas linhas Tab e Note em decorrência do Natal, e que pretende “(…) intensificar a competitividade dos preços” no primeiro trimestre de 2014. Preço, como veremos a seguir, é um fator-chave no momento.

Não são dados alarmantes, mas que se distanciam das altas expectativas, quase sempre alcançadas na prática, de anos anteriores. Traçando um paralelo com smartphones, essa possibilidade de estagnação despontou bem mais cedo nos tablets.

O que um tablet faz?

A mesma pesquisa mostrou também que é preciso explicar melhor ao consumidor sem perspectivas de aquisição para que serve um tablet. Embora apenas 4% dos consultados não tenham ideia do que é esse dispositivo, 67% entre os que não têm planos de adquirir um no próximo ano reconheceu saber pouco sobre ele — e isso inclui, claro, desconhecimento sobre o que ganhariam levando um para casa.

Os departamentos de marketing tentam explicar, com comerciais tanto práticos quanto lúdicos, esses casos de uso. Não é uma tarefa fácil, já que um tablet depende de vários fatores (apps, rotina do usuário, configuração familiar) e pode ser um punhado de coisas para cada um de nós. Até câmera, como vende a Apple em um comercial recente do iPad Air:

Outras, como a Samsung, apostam na pegada artística, em muito beneficiada pelo suporte a stylus da linha Galaxy Note:

Sem falar, claro, nas possibilidades mais mundanas, como jogos, leitura e vídeos, o tipo de uso que qualquer dono de tablet conhece e muito provavelmente faz, ou ainda como segunda tela enquanto assiste TV, hábito que divide com celulares e que vem ganhando força — nos EUA uma pesquisa da Nielsen constatou que cerca de 70% dos telespectadores têm à mão uma segunda tela quando estão na frente da TV.

Existem ainda os cenários específicos, sendo o mais comum o educacional. Entre profissionais da saúde, a adoção do tablet vem aumentando. Esses e outros locais e aplicações focalizadas são onde a flexibilidade do tablet brilha e dão a esperança de que há não um, mas vários mercados potenciais bem específicos pouco ou ainda não explorados. Locais para crescer. Tanto que Tim Cook aposta no meio corporativo para que a Apple continue lucrando com o iPad.

Consultei alguns leitores do Manual do Usuário para saber o que eles fazem com tablets. A maioria afirma usá-los com frequência, principalmente para atividades que envolvem leitura. André Catapan, 22 anos, pesquisador e mestrando em Engenharia de Produção, disse ler muito no seu iPad Air, tanto para suas pesquisas quanto por lazer. “[Leio sobre] artigos online, geralmente sobre política, filosofia e tecnologia, minhas principais áreas de interesse. Posso dizer que foi o principal motivo para comprar o iPad Air, nunca me dei bem lendo grandes textos na tela widescreen de um notebook.” Ele ainda acessa redes sociais, apps de vídeo (Netflix, YouTube) e eventualmente joga alguma coisa.

O perfil de uso do André é muito semelhante ao meu. Dois anos depois de adquirir um iPad, sempre recorro a ele para ler o que salvei no Pocket e dar uma passada no Facebook e Twitter com mais conforto. A tela grande e o acesso imediato, característica essa ressaltada pelo João Paes Neto, 22 anos, auxiliar administrativo e dono de um iPad de 4ª geração, são convidativas a sessões curtas de uso. O tablet se insere, como Steve Jobs deixou claro na apresentação do primeiro iPad, entre a facilidade de uso do smartphone e o poder do computador.

Surface Pro na minha mesa de trabalho.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Outros leitores disseram ter substituído notebooks parcial ou completamente pelos tablets. O Windows 8, que aposta muito em conversíveis e híbridos, misturas entre notebooks e tablets, é a vedete dessa abordagem, é declaradamente “bipolar” e se vende como uma solução para entretenimento e trabalho. Nesse contexto o Surface, tablet da própria Microsoft, é o que melhor personifica a proposta. Mesmo com diversas falhas ele tem seu público, no qual está Igor Paes, outro leitor, 34 anos e analista de TIC:

“Substituí meu PC e meu notebook por ele [Surface Pro 2]. O uso mudou, pois antes o via como um desktop pra jogar e um notebook que utilizava pra navegar, escrever meu relatórios no trabalho e tal. Com o tempo, fui descobrindo a leitura através dele, tanto de livros como de notícias (Flipboard, por exemplo), joguinhos touch screen e fotografia (redes sociais e edição). Minha cabeça estava tão acostumada com o formato mouse e teclado que, ao deixar a type cover de lado, passei a usá-lo de outras formas, como descrevi um pouco acima.”

Gustavo Vieira, 36, consultor de gestão empresarial, escreve, edita e gerencia seu blog, o Espinafrando, integralmente através de um iPad mini com tela Retina. Ele também recorre ao tablet para ler gibis, acessar redes sociais e Internet Banking: “O futuro do tablet é ficar cada vez mais onipresente no dia-a-dia. Posso dizer que ele praticamente substituiu o uso de computador lá em casa, que vive sempre desligado”.

Esses dois casos ainda são raridades, e talvez nunca se tornem mais que isso. É bem verdade que artigos e apps mostrando o lado produtivo dos tablets são fáceis de encontrar, e coisas como o Office para iPad buscam reforçar esse posicionamento. O esforço em adaptação, porém, soa paradoxal à ideia de facilidade de uso que se tem dos tablets. Aprender a digitar rápido na tela, migrar fluxos de trabalho para os padrões simplificados do iOS/Android, encontrar os apps certos… É mais fácil continuar com o notebook, e melhor ainda se for um Ultrabook rápido e leve.

A linha tênue que separa tablets de phablets

Galaxy Note 3 e sua tela de 5,7 polegadas.
Foto: Kārlis Dambrāns/Flickr.

O nome phablet, que surgiu quase como uma piada interna, pegou, e por um bom motivo: ele engloba uma categoria à parte de smartphones, uma com telas enormes. Com os últimos lançamentos dos topos de linha, todos com telas de 5 polegadas ou mais, essa divisão faz cada vez menos sentido.

O grande apelo de um tablet é a tela maior, bem maior que a dos smartphones. Das 3,5 polegadas do iPhone até a versão 4S para as 9,7 do iPad, há uma distância considerável. Já entre as 5,1 polegadas do Galaxy S5 e as 7 do Galaxy Tab 3…

O caminho contrário ao comentado acima, da união entre tablets e notebooks, também existe e é mais ameaçador à existência do tablet. A distância entre ele e smartphones, que antes justificava a compra dos dois equipamentos, encolheu com o tempo e isso pode ter impactado a noção de necessidade de um tablet que, sejamos sinceros, nunca foi lá muito forte. Mesmo a Apple diminuiu o espaço que separa seus equipamentos: o iPhone cresceu (4 polegadas a partir do iPhone 5) e o iPad diminuiu com a versão mini, para 7,9 polegadas.

Como telas grandes são o novo chamariz dos smartphones a despeito de outras especificações, mesmo quem centra suas escolhas no preço tem opções. De modelos intermediários, como Galaxy Gran Duos e Xperia C, chegando até a uns bem baratos, com o Nokia XL, a tela grande deixou de ser luxo de quem pode gastar muito com telefonia móvel.

A Huawei, no último MWC, anunciou o MediaPad X1 com uma proposta ousada: ser um dispositivo híbrido, smartphone e tablet ao mesmo tempo. Com tela de 7 polegadas e uma moldura finíssima, não duvido de que o conceito pegue e, em um futuro bem próximo, seja replicado por outras fabricantes. O mercado parece sedento por telas enormes que fazem ligação. Qual o limite? Eu não me arrisco a chutar.

Preços para baixo e mercados emergentes remediam a situação

O iPad mini tem tela de 7,9 polegadas.
Foto: Apple.

A pesquisa citada no início desta matéria trouxe outro ponto-chave na relação entre tablets e consumidores: o preço. 47% dos que estavam incertos sobre a compra de um tablet e 25% dos que não pretendem adquirir um acham tablets caros.

A explosão de modelos abaixo dos US$ 300 no final de 2012 e o sucesso que eles fazem, levando até a Apple a lançar uma versão encolhida e mais em conta do iPad, indicam que há, de fato, muita sensibilidade em relação a preços.

A alavancada nas vendas de tablets Android se deve em muito a esse fator. Ano passado, a plataforma ultrapassou o iPad em volume e faturamento, e essa inversão é creditada à inundação do mercado com modelos pequenos e baratos. E alguns muito baratos, a ponto de não serem recomendados por ninguém sério (você recebe pelo que paga) e, o mais curioso, posicionados como TVs/telas portáteis para vídeo.

No Brasil, tablets sérios disputam a atenção do consumidor com esses modelos super baratos de marcas desconhecidas ou, quando conhecidas, montados na China a partir de um projeto genérico e apenas marcados com o logo das empresas locais quando chegam aqui. Há uma disparidade enorme não só no valor pago, mas também e principalmente na qualidade e nas possibilidades que o dispositivo abre.

Uma pesquisa recente da Mobile Marketing Association/Nielsen Ibope revelou um aumento de 312% nas vendas de tablets no varejo brasileiro em 2013. Mas quais tablets?

Os resultados de outra pesquisa, essa realizada pelo IDC no segundo semestre do ano passado, ajudam a responder a pergunta acima. Eles apontaram aumento de 151% nas vendas desse tipo de equipamento em relação ao primeiro semestre, número em muito beneficiado pelos tablets “baratinhos”, como escreveu Claudia Tozetto no iG. De todos os modelos vendidos no período, 1,9 milhão, 55% custavam menos de R$ 500. Pedro Hagge, do IDC, explica o fenômeno brasileiro:

“O Brasil é um mercado em ascensão para os tablets, com grande parte dos usuários comprando seu primeiro dispositivo. Nosso mercado continua muito sensível a preços, e os tablets são acessíveis para o poder aquisitivo do consumidor brasileiro, representando uma opção viável de sistema para uso básico e acesso à Internet.”

Da mesma forma que demoraram para chegar aqui, o desaquecimento nas vendas de tablets também será sentido mais tarde no Brasil. E com a falta de alternativas (Chromebooks são inexplicavelmente caros, notebooks de entrada, além de não serem baratos, são ruins), não será espantoso se mercados emergentes acabarem sustentando por um tempo maior as margens desse tipo de equipamento.

O efeito colateral dessas peculiaridades locais é que quem vai às compras e acaba pegando um modelo baratinho, sem pesquisar antes, nem testá-lo, corre o risco de acabar com um aparelho lento e repleto de deficiências, que faz o desfavor de apresentar a plataforma a quem mais se beneficiaria dela da pior maneira possível.

Equilibrar preço e qualidade é uma equação ingrata, porém não impossível. Mesmo no mercado local há tablets que, vá lá, não são um iPad, mas quebram o galho por algumas centenas de Reais a menos. O problema, novamente, é identificá-los. Por fora, um Asus MeMO Pad HD7 não difere muito de um xing-ling ruim; já por dentro…

Uma moda que demorou a passar ou o futuro ainda inexplorado?

Homem usando um tablet.
Foto: ebayink/Flickr.

Talvez você esteja, agora, com uma visão apocalíptica do mercado de tablets na cabeça. Se for o caso, peço desculpas. Não era a intenção. Apesar de uma possível estagnação no horizonte, eles continuam sendo uma força no segmento móvel e seguem mais saudáveis que outras áreas, como a de notebooks. Sem falar no potencial de mercados emergentes, como o Brasil, ainda maravilhados pelo fator novidade e que seguem comprando muito.

Mas o sinal de alerta deve estar aceso, mesmo que no nível mais baixo, nas empresas que os fabricam. Quando até gente da indústria como Zal Bilimoria, ex-Netflix, hoje na Andreessen Horowitz, uma das empresas de capital de risco mais conceituadas dos EUA, sentencia que o amor pelos tablets acabou e traz dados da Netflix que sustentam seu ponto na prática, é sinal de que algo mudou.

Tablets são incríveis, eles só têm o problema de disputar a atenção com coisas ainda mais incríveis, os smartphones. Há espaço para eles nas nossas vidas? Sim, só que esse espaço talvez não seja tão grande quanto se imaginou a princípio.

Foto do topo: Martin Voltri/Flickr. Agradecimentos a todos os leitores que bateram um papo sobre o uso que fazem de tablets: João Paes Neto, Pedro Maia, André Capatan, Flávio Ricardo, Rodrigo Sabino, Thiago Brito, Igor Paes, Rafael Duarte, Gustavo Vieira, Pedro Simões, Pedro Dal Bó, Nelson Souza, Paulo Higa, Gabriel Arruda e Joel Nascimento Jr. Valeu!

A reação descabida da American Airlines à ameaça de terrorismo de Sarah, uma adolescente de 14 anos, no Twitter

Avião da American Airlines em solo.
Foto: Daniel Foster/Flickr.

Sarah, uma adolescente de 14 anos que vive em Roterdã, Holanda, publicou uma mensagem bastante infeliz no Twitter ontem pela manhã. Era uma ameaça de atentado terrorista dirigida à American Airlines. Neste momento ela está detida para investigação. E amedrontada.

A menina, que escrevia no perfil @QueenDemetriax_ (ela apagou a conta), publicou a seguinte mensagem direcionada à American Airlines, uma companhia aérea dos EUA:

Mensagem original de Sarah.
Screenshot: Business Insider.

“@AmericanAir olá meu nome é Ibrahim e eu sou do Afeganistão. Sou parte da Al Qaida [sic] e no dia 1º de junho farei uma coisa bem grande tchau”

A resposta do social media da American Airlines veio seis minutos depois:

A resposta da American Airlines a Sarah.
Screenshot: Business Insider.

“@queendemetriax_ Sarah, nós encaramos essas ameaças com seriedade. Suas informações e endereços IP serão encaminhados à segurança e ao FBI.”

Sarah, claro, surtou. Nas mensagens seguintes, disse que ter sido uma piada, que se lamentava, estava com medo, jogou a culpa em uma amiga e afirmou que não era do Afeganistão.

As reações desesperadas de Sarah.
Screenshot: Business Insider.

Foi uma piada, ou melhor, uma “piada” ruim. Não é isso o que está em questão. A reação da American Airlines, isso sim, foi o que mais me surpreendeu. Pareceu-me descabida dadas todas as circunstâncias.

A perigosa terrorista de 14 anos fã da Demi Lovato

A resposta da companhia aérea foi tão descabida quanto a ameaça da adolescente. Alguns podem alegar que foi uma resposta na mesma moeda, mas pense comigo: uma menina de 14 anos escrevendo algo estúpido na Internet? Ok. Uma empresa biolionária cheia de profissionais tocando o terror em cima disso? Preocupante.

Nem verdadeira a resposta da American Airlines era (era, do verbo não é mais, já que ela foi apagada do perfil): a empresa não tem acesso aos IPs de quem interage com ela no Twitter. Configurou-se, pois, uma espécie de ataque reverso: de ameaçadora, Sarah acabou vítima de terrorismo psicológico.

E temos as circunstâncias. Uma menina de 14 anos por trás de um plano maligno para derrubar aviões avisa de antemão a companhia aérea alvo do seu intento, via Twitter usando sua conta de fangirl da Demi Lovato, que algo grande acontecerá. Soa bizarro falando assim, mas foi exatamente o que aconteceu.

Eu entendo, e concordo, que com certas coisas não se brinca. Terrorismo é uma delas, e das mais sérias. A piada, como já disse, foi bem infeliz e passível de investigação, como a polícia de Roterdã, sem o envolvimento do FBI ou da American Airlines, está fazendo nesse momento. Aliás, a postura da polícia local é um sopro de sanidade em meio a tanta loucura. Ao Business Insider, um porta-voz disse:

“Não estamos em posição de comunicar qualquer ponto das acusações nesse momento. Apenas achamos que seria necessário trazer isso à tona pelo fato de que ela [a ameaça de Sarah] gerou muito interesse na Internet.”

Armar um circo em torno disso a ponto de amedrontar Sarah, de direcionar a ela comentários raivosos de gente que fica à toa na Internet, isso é pura e simplesmente errado. Antes de excluir sua conta ela ganhou uma avalanche de xingamentos vinda de estranhos. De “imatura” a “racista”, apenas tente imaginar como deve estar a cabeça dessa menina. Faça um exercício de analogia: pense nos comentaristas de portais dirigindo todo aquele chorume para você, destilando a raiva em relação ao sistema, aos petralhas, ao Sakamoto, aos direitos humanos contra você.

E lembre-se: ela tem 14 anos.

Poderia ter sido diferente

Existe um tratamento diferenciado para crianças e adolescentes em todas as esferas, incluindo a criminal, porque até certa idade nós não temos o discernimento desenvolvido — e muitos, inclusive, morrem velhos sem tê-lo funcionando plenamente. Para Sarah, ou a (suposta) amiga dela que fez a brincadeira no Twitter, isso se aplica também. Na hora em que começamos a ignorar essas nuances da psicologia humana, a enquadrar todo mundo em um crivo fixo para adultos e crianças, deixamos a humanidade um pouco de lado e voltamos algumas casas no jogo da evolução enquanto sociedade. Aproximamo-nos da Lei de Talião, do “olho por olho, dente por dente”.

Como proceder, então? A American Airlines poderia ter enviado a Sarah apenas metade da sua mensagem, a que diz que leva essas ameaças a sério, via mensagem privada. Seria suficiente para que ela percebesse que, hey, existem consequências para o que acontece na Internet, há limites para a zoeira. Em seguida, pedir à polícia de Roterdã para averiguar a ameaça, porque por mais tola que ela pareça, ainda assim é algo que merece ser investigado. Melhor não arriscar.

“Ah, mas agora serviu de exemplo”. Será? E se sim, a que custo? O trauma que ficará na menina extrapola qualquer lição que seu caso tenha deixado aos demais — e, pelas reações que vi até agora, ele tem servido mais para risadas, “hahaha se ferrou!”, do que para conscientizar alguém que seja. É a mesma lógica que muitos apregoam no trânsito: ao ver que outro motorista está fazendo alguma barbeiragem, esses iluminados da direção seguem avançando até o último segundo, assustando o “babaca que não sabe dirigir” para “ensinar como é que se dirige”. Apontam e reforçam o erro achando que estão conscientizando. Relatos dessa metodologia pra lá de questionável são recorrentes, sempre contados com um quê de orgulho. Até hoje não soube, porém, de um caso bem sucedido de educação no trânsito baseada na intolerância e na agressividade.

O mundo está maluco, as pessoas estão perdendo as estribeiras por pouco e, nesse contexto, é fácil pegar qualquer coisinha para “servir de exemplo”, até uma brincadeira boba na Internet feita por uma criança. Fácil, não correto. Vamos colocar a mão na consciência, pessoal. Sarah tem 14 anos e, daqui em diante, um trauma para a vida toda.

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!