O som da concentração: Músicas e barulhos podem torná-lo mais produtivo?

Em fábricas e escritórios não é exatamente raro nos depararmos com trabalhadores que, além do uniforme e acessórios necessários para o desempenho de suas funções, contam com um adereço extra: fones de ouvido. A música, companheira de festas, romances, do dia a dia, também se faz presente no ambiente de trabalho. Mas até que ponto ela é útil, e quando começa a atrapalhar?

Na Quartz, Adam Pasick escreveu um texto intitulado “O guia completo para ouvir música no trabalho”. Amparado por estudos científicos, em especial este de 1972, as conclusões a que ele chegou variam de acordo com a função desempenhada. Músicas agitadas, por exemplo, podem dar um impulso em produtividade àqueles que cumprem jornadas mais mecânicas, realizando tarefas repetitivas que, embora demandem foco, não pedem muito da nossa capacidade cognitiva.

Já em atividades contrárias, ou seja, aquelas que exigem mais cérebro do que músculos, músicas agitadas ou com letras atrapalham. Ao ouvir uma música, qualquer que seja, ela demanda parte da cota finita de atenção de que nosso cérebro dispõe:

“Não se engane: ouvir música significa que você está em modo multitarefa. Quaisquer recursos cognitivos usados pelo seu cérebro — para entender uma letra, processar emoções desencadeadas por uma música ou lembrar onde você estava quando a ouviu pela primeira vez — ficarão indisponíveis para ajudá-lo no trabalho.”

A melhor música para trabalhos cognitivos

Últimos álbuns que ouvi, via Last.fm.
Colagem via Last.fm Collage Generator.

Para alguns, como eu, o ideal é deixar todo o cérebro a postos para o que estiver fazendo. Dou o meu melhor no silêncio, e isso vale para além das músicas — os sons ambiente também devem ser preferencialmente mínimos. O mesmo se aplica a leituras, e quanto mais complexo o assunto, mais o silêncio é bem-vindo.

Infelizmente, nem sempre o silêncio proporciona a animação para uma tarefa que exija muito da minha capacidade cognitiva. É aí que entram as sugestões da Quartz: atentando a alguns detalhes, é possível obter os benefícios musicais dos trabalhadores “braçais” em atividades mais… digamos… paradas.

Na hora de montar sua playlist para essa finalidade, as principais dicas são:

  • Ouça apenas músicas instrumentais. O cérebro tem áreas dedicadas para várias funções e, na hora de escrever ou pensar em palavras (ler, inclusive), o ideal é concentrar todos os recursos que temos para esse fim na atividade em curso. Músicas com letras, nesse contexto, apenas atrapalham. Exceção à regra: letras em idiomas que você não conhece são permitidas.
  • Prefira músicas que tenham um ritmo bem marcado e constante. Nosso cérebro está sempre tentando adivinhar o que vem a seguir. Ao ouvir uma música muito elaborada, com mudanças brutas, picos intervalados e arranjos diversos, parte da nossa concentração, ainda que inconscientemente, se dedica à tentativa de “decifrá-la”.

Os melhores gêneros, segundo aquele post, são jazz, música clássica, e minimalista. Trilhas sonoras de filmes e jogos também são, em geral, recomendadas. Ao final, há uma playlist com indicações do autor. Se quiser arriscar, ela está no Rdio e Spotify.

Sai a música, entram os barulhos. Mudam os resultados?

GIF de um ventilador de teto.
GIF: Ventilador Online.

Minha qualidade de vida melhorou significativamente quando descobri o ruído branco. No contexto em que o abordo aqui, refiro-me a barulhos do ambiente capazes de anular outros indesejados.

Na física, engenharia e matemática o termo tem significado diverso, mais complexo, como muitos comentaristas apontam nesta matéria da Scientific American. O uso dele, aqui, diverge do científico, mas para fins didáticos se aplica. Pense, pois, no barulho da TV fora do ar, ou no que o ventilador faz quando ler “ruído branco” nesta matéria.

Por ter o sono leve, barulhos externos, como vizinhos conversando, música no bar da esquina e outros atrapalham meu sono. Ao ligar o ventilador contra a parede, o barulho das pás se sobrepõe aos demais e sua constância rapidamente é assimilada pelos meus ouvidos. Resultado: uma noite bem dormida.

O mesmo benefício se aplica ao trabalho? Aqui o terreno se torna mais acidentado. Existem estudos que suportam os dois lados, mas analisando-os melhor, como fez o pessoal deste tópico no StackExchange, as conclusões mais uma vez variam. Resumindo:

“O ruído branco melhora o desempenho na medida em que mascara ruídos que geram agitação ou que tiram o foco da tarefa em curso sem causar agitação por si mesmo. Falando de forma prática, se você estiver em um ambiente silencioso, o ruído branco provavelmente não terá um efeito positivo na sua concentração. Se estiver em um lugar mais ou menos ruidoso, ele provavelmente terá um efeito positivo. Entretanto, em um ambiente muito barulhento ele não terá efeito algum ou, se sim, um negativo.”

(A resposta mais votada do tópico mencionado acima traz diversas referências científicas embasando a conclusão do autor.)

Novamente me usando de exemplo, comigo o ruído branco para produção nunca funcionou bem. O silêncio é preferível e, quando tenho tarefas menos cognitivas, como lançar gastos no controle financeiro ou lavar a louça, geralmente coloco uma música qualquer para tocar.

Fachada de uma Starbucks em Londres.
Foto: Style Raw/Flickr.

O que eu testei e, em certa medida, gostei, foi de “simuladores” de sons ambiente. O Coffitivity é um app/site que reproduz o burburinho típico de locais como cafeterias e bibliotecas de universidade. Os criadores defendem a ideia com um estudo científico recente que diz provar que esses ruídos, dentro de níveis aceitáveis, dão um impulso na concentração. A parte do “dentro de níveis aceitáveis” tem um papel importante aí — em torno de 70 decibéis.

Ok, já sabemos que barulheira não ajuda, mas por que o outro extremo, o silêncio, é ruim? Em entrevista ao New York Times, o professor assistente Ravi Mehta, da Universidade de Illinois, que liderou o estudo que embasa o Coffitivity, explica que o silêncio absoluto leva a níveis altos de concentração, e que isso atrapalha o pensamento abstrato:

“É por isso que quando você está muito focado em um problema e não consegue resolvê-lo, deixa-o de lado por algum tempo e, quando volta, encontra a solução. [O ruído moderado] ajuda a pensar fora da caixa.”

Ele também faz uma ressalva: o barulhinho de fundo ajuda principalmente em tarefas criativas. Outras que demandam concentração absoluta, como a revisão de textos ou trabalhos envolvendo números, são melhores executadas no silêncio.

O que for melhor para você

São muitas variáveis a serem consideradas na hora de escolher a companhia auditiva para o trabalho: o tipo de função desempenhada, algumas predisposições pessoais, o humor do momento. Talvez fosse o caso de experimentar e ver o que te faz melhor, mas é difícil mensurar os resultados objetivamente. Neste paper de 1989, por exemplo, foi constatado que às vezes a gente se engana e aprecia a música no trabalho mesmo quando ela diminui a produtividade.

Uma mistura, em consonância com a variação de humor e natureza do trabalho, aponta para uma boa saída. Identificar os momentos onde um tipo de música ou barulho afeta positivamente nosso ânimo é o tipo de conhecimento que, mesmo sem perceber, pode acabar nos ajudando a trabalhar melhor. O problema é que, mesmo querendo, é bem difícil perceber quando e que tipo de som nos é benéfico. Argumentos pró e contra todo tipo de música existem aos montes (vários aí em cima, inclusive).

Como você usa a música, ou não, para fazer seu trabalho melhor?

Foto do topo: kev-shine/Flickr.

A inauguração da LG Mobile Store em Maringá, interior do Paraná

Foi inaugurada ontem em Maringá, interior do Paraná (e cidade onde moro), a primeira loja exclusiva da LG. Para ser mais exato, a primeira brand store de uma gigante da mobilidade por aqui. Por esse motivo, cruzei a cidade e fui conferir de perto o evento.

A LG Mobile Store de Maringá, a segunda do estado, fica no Shopping Catuaí, em uma das saídas da cidade. O espaço não é dos maiores, mas suficiente para acomodar estandes com smartphones, tablets e notebooks, o mix de produtos da loja.

Cheguei com antecedência, precavido. Mas a inauguração atrasou bastante… Nesse meio tempo o contador regressivo na porta deu uma surra nas promotoras do evento cada vez que elas tentavam adiar o horário. Vencida a demora, a fita vermelha simbólica foi cortada e as pessoas, ainda desconfiadas, começaram a chegar, entrando de mansinho, mexendo em um celular aqui, um tablet ali…

https://twitter.com/ghedin/status/459092526629416960

Dá para entender esse estranhamento. O conceito da loja, de expôr os aparelhos em bancadas ao alcance das mãos da clientela, é raro na região, onde ainda reina a cultura das vitrines (bem) trancadas. Conversando com João Fagundes, gerente de trade marketing da LG, ele ressaltou essa característica mais receptiva quando perguntei quais as expectativas para a loja recém-inaugurada:

“A expectativa é a melhor possível. A gente quer trazer para o consumidor de Maringá experiência, degustação… Hoje o produto mais vendido no Brasil é smartphone, (…) um produto que traz e-mail, Internet, acesso a todas as redes sociais, conveniência, qualidade de vida, te traz entretenimento… Então aqui você fecha uma venda segura: tem um vendedor especializado, paciência na hora de escolher o produto que mais se adequa [ao seu perfil]. Esse é o propósito da loja, e a venda será a consequência do bom serviço.”

João também revelou os planos de expansão para a cadeia de brand stores da LG. A de Maringá foi a 12ª inaugurada no Brasil, e a meta é chegar ao final de 2014 com quase 100 espalhadas pelo país. No Paraná, os esforços agora se voltam para Curitiba e, depois, outras cidades de médio porte, como Ponta Grossa.

O interior na rota dos lançamentos

A primeira compra, honra do Luan.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Com exceção de alguns problemas técnicos, especialmente o atraso na abertura da loja e uns tropeços ao faturar a primeira compra, honra do leitor Luan Eduardo Bondan que levou uma capinha para seu Nexus 5, a recepção foi tranquila.

Havia um batalhão de pessoas vestidas com o uniforme da LG, a maioria parte de um reforço aos quatro funcionários fixos que trabalharão no local. Não havia restrições para mexer nos equipamentos, todos ligados e conectados, e alguns smartphones ainda eram espelhados em TVs, via Miracast, para mostrar melhor aos clientes os recursos disponíveis. O ator Diego Cristo foi trazido para o evento e tirou fotos com os fãs, que podiam levá-las impressas para casa.

O que mais me animou, porém, foi a promessa de vermos os futuros lançamentos da marca chegando aqui ao mesmo tempo ou até antes que em centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Cláudia, gerente da unidade, garantiu que isso acontecerá, começando já com o G2 Mini, anunciado ontem e que deve estar na loja em breve.

Ter esse contato antecipado com novos produtos foi o que levou o Luan, citado ali em cima, a prestigiar a inauguração. Ele também espera que a presença de uma brand store diminua o hiato entre lançamentos nacionais e a chegada deles ao interior:

“Aparelhos como esses últimos, o G Flex, por exemplo, G2 Mini, essas coisas, demoram para chegar nas lojas de operadoras. Acho que aqui pode ser que cheguem antes.”

Diego Cristo tira fotos com fãs no interior da LG Mobile Store, em Maringá-PR.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Maringá, com pouco mais de 380 mil habitantes, não chega a ser uma cidade pequena. A loja da LG é a primeira brand store do tipo a abrir por aqui, mas não deve ser a última. Em outros países a Samsung, concorrente doméstica da LG e extremamente agressiva em marketing, está indo mais fundo ainda no conceito. Na Índia, por exemplo, está abrindo lojas em milhares de cidades com menos de 100 mil habitantes. São geografias e estratégias diferentes, mas um indicativo de que, com as devidas adaptações, o mesmo pode ocorrer no Brasil.

Os smartphones da LG Mobile Store

G Flex, o smartphone com tela flexível da LG.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Quando a loja abriu, pude enfim ver de perto o G Flex, curiosíssimo smartphone com tela flexível e plástico traseiro regenerativo. Devo receber uma unidade de testes logo e, na sequência, claro, publicar um review.

Outro que me chamou muito a atenção foi o L40, o único membro da linha LIII da LG, anunciada no Mobile World Congress em fevereiro. O que mais me interessa ali é ver se na prática a dieta a que o Google submeteu o Android na sua última atualização traz benefícios: ele vem com Android 4.4 de fábrica movido por apenas 512 MB de RAM.

LG40: Android 4.4 com 512 MB de RAM.
Foto: Rodrigo Ghedin.

E em meio ao burburinho dos clientes e a música alta do DJ apavorando dentro da loja (essa ideia foi meio ruim), entreouvi algumas coisas sobre o vindouro G3, novo topo de linha da LG. Aparentemente os rumores são verdadeiros: ele terá mesmo bordas frontais finíssimas, tela com resolução 2K e um redesign nos botões traseiros, a curiosa posição adotada no G2 que será mantida na nova geração. Características a serem conferidas.

Como o Flogão virou um reduto online de fãs de caminhão

Em meados dos anos 2000, quando câmeras digitais compactas ainda eram maioria e estávamos limitados às 12 fotos que o Orkut permitia enviar, a fotografia digital encontrava nos fotologs o caminho mais fácil para chegar à Internet.

Era uma época mais ingênua, com fotos mais granuladas e resoluções menores. O local onde a maioria que gostava de tirar e publicar fotos era o Fotolog.net, mas outros, como Vibeflog e Flogão, corriam por fora e conquistavam adeptos. Além da publicidade, esses serviços ofereciam planos pagos com vantagens, como maior número de comentários, personalização e música de fundo. Eram, pois, modelos sustentáveis, mas que não resistiram ao atropelo de redes sociais maiores, como o próprio Orkut, depois que relaxou o limite de fotos, e o Facebook, que terminou o que a rede social do Google havia começado e praticamente monopolizou a publicação online de fotos de nós mesmos e de amigos.

Hoje os flogs só são lembrados em duas situações. Quando não em sessões nostálgicas de quem viveu seu auge, é por jornalistas que encontram pérolas arqueológicas de astros recém-saídos da adolescência — Ganso e Leandro Damião, para ficarmos só no esporte, que o digam. Mas os flogs não são só isso. Sem muita invencionice, parados no tempo, eles seguiram em frente, e um desses serviços, o Flogão, acabou evoluindo para algo meio difícil de entender: virou o ponto de encontro de jovens que idolatram caminhões.

Flogão dos caminhões

Descobri esse “pivot” do Flogão durante a gravação do Radiolink, um projeto de extensão do curso de Comunicação e Multimeios da UEM. Um dos temas daquele programa foi flogs, e em meio a muitas histórias do passado despontou essa curiosa roupagem moderna do Flogão: ele foi invadido por caminhões, que aparecem no bloco dos VIPs (contas pagas), entre os flogões mais populares, são os mais comentados… A página inicial do Flogão de 2014 está dominada por caminhões.

Intrigado, resolvi investigar como o Flogão passou de selfies e fotos de gente para veículos de grande porte.

Clube dos adoradores de caminhões

Caminhões.
Foto: Conexão 277.

Para entender essa mudança tão grande no público-alvo, inicialmente procurei os responsáveis por ela: os flogueiros, como eles se chamam.

Logo de cara, Luiz, 15 anos, de Cascavel-PR, revelou o mistério: a maioria dos flogueiros é formada por filhos de caminhoneiros, jovens que, como ele, adoram a profissão, ainda não têm idade para dirigir e curtem muito um “caminhão mais arrumado, com frente rebaixada, traseira levantada, um tanque bem polido… sabe? Caminhão levado no capricho”.

Luiz mantém, com dois amigos, o Conexão 277, um Flogão VIP (pago). Além do tema pouco usual, a escolha do Flogão com tantas outras opções gratuitas disponíveis, como Instagram, Flickr e Facebook, era outra dúvida grande. Sendo um membro mais recente dessa onda de flogueiros de caminhões, Luiz apenas seguiu o fluxo. “[Escolhi o Flogão] porque já nas antigas existiam Flogões de caminhões”. Ele começou em 2012, mas diz que em 2008 já havia Flogões do gênero. Estar entre seus pares é uma vantagem importante para ele, pois facilita encontrar e ser encontrado por outros jovens que curtem caminhões.

As estatísticas do Flogão são importantes.
Imagem: Conexão 277.

Apesar da opção pelo Flogão, ele reclama um pouco do descaso. Vez ou outra o sistema “buga” e bagunça as estatísticas, ou rejeita fotos. Outra crítica recai em Flogões que, aproveitando-se desses bugs, trapaceiam e inflam artificialmente as estatísticas. Não existe sistema perfeito.

A arte de tirar fotos de caminhões

Danillo Araújo, 17, de Luziânia-GO, é outro apaixonado por caminhões que mantém um Flogão, o Elite Goiana. Ele também entrou nessa recentemente, no final de 2012, e assim como o Luiz escolheu o Flogão pelo público que já estava lá: “Acho que não teria tanto público nesses sites [Flickr, Instagram], já que 80% do Flogão é destinado a caminhões. Ele se tornou muito conhecido, então quem quer ver fotos [de caminhão], vai diretamente aos Flogões”.

Os dois contaram como é o processo de tirar fotos. Em ambos os casos, os meninos vão a um posto de combustível e ficam esperando pelos caminhões mais bacanas (“aqueles que têm acessórios e andam sempre limpos”, conta Danillo). Tiram fotos e, quase sempre, recebem um retorno dos caminhoneiros.

Foto do Flogão Elite Goiana.
Foto: Elite Goiana.

A prática é nacional, então vários motoristas já sacaram os flogueiros e mantêm uma relação amistosa com eles, param para conversar, se interessam e querem saber mais sobre o assunto. Uns poucos torcem o nariz e ficam até bravos com o pessoal dos Flogões, mas a maioria dos menos amistosos são apenas precavidos. Perguntam para que são as fotos, desconfiam das respostas que recebem… Uns acabam convencidos das boas intenções dos flogueiros, mas sempre tem aquele que acha ruim, independentemente das explicações, ter o seu caminhão fotografado por adolescentes.

Vez ou outra a polícia interfere. Meio sem entender, apenas mandam os meninos para casa. Luiz conta de uma situação em Toledo, cidade próxima a Cascavel, também no Paraná. Um grupo de flogueiros menores de idade foi abordado pela polícia, que os mandou para casa sob a ameaça de, em caso de reincidência, serem encaminhados ao conselho tutelar.

Parece exagero, mas uns poucos flogueiros tornam o receio válido. Luiz conta que costuma ficar com seus amigos na sombra de alguma árvore, esperando os caminhões passar e sempre tirando fotos fora da pista, em locais seguros. Nem todos têm essa prudência: “tem piá que não, que faz por merecer, se joga no meio da pista pra tirar foto, deita no chão… bobeira, sabe? Outros se jogam no meio da pista e balançam as mãos para os motoristas darem ‘quebras de asa’, sabe?”

Não, não sei. O que é quebra de asa?

O perigo da quebra de asa — e da superficialidade da mídia

Ano passado o Fantástico, da Rede Globo, veiculou uma matéria que alertava sobre a “quebra de asa”, manobra em que o motorista joga a carroceria do caminhão para o lado, fazendo uma espécie de zigue-zague na pista. Pouco tempo depois a RPC, afiliada paranaense da Rede Globo, exibiu outra reportagem mostrando (mas não identificando) flogueiros que pedem aos motoristas para que façam a manobra a fim de tirarem fotos.

A matéria não foi muito longe e ignorou completamente a motivação dos que ficam na beira das rodovias pedindo pela perigosa manobra. Eles existem, mas são, segundo Luiz e Danillo, exceções que mancham a reputação dos flogueiros. Luiz me disse:

“Na maioria das vez os próprios flogueiros pedem para eles fazerem isso. Nós não achamos legal; além de danificar o caminhão, [a quebra de asa] oferece grandes riscos. (…) É revoltante. Por causa de alguns bestas, todos os outros ficam mal vistos.”

O YouTube está repleto de vídeos de quebra de asa, vários feitos por flogueiros, alguns assustadores, como este. Infelizmente, uma prática sadia e que valoriza o caminhoneiro, profissional muitas vezes esquecido ou ignorado, é deixada em segundo plano por causa de uns poucos inconsequentes que extrapolam a segurança e buscam esse tipo de emoção pra lá de questionável.

Um dos rapazes que procurei para conversar, aliás, cancelou a entrevista temendo represálias no trabalho. Por e-mail, disse que “os ‘flogueiros’, como somos chamados, estão sendo vistos de uma forma negativa conforme esta passando na televisão, sendo que nem todos ficam no acostamento se arriscando para conseguir filmar uma quebrada de asa”. Afinal, é mais fácil ser sensacionalista.

E o Flogão?

O gato-mascote do Flogão.
Imagem: Flogão.

Pelo que apurei dessas conversas, o Flogão virou o que é hoje meio que por acaso, pelo comportamento de manada dos flogueiros mais novos. Alguém começou a subir fotos de caminhões lá atrás e depois dele, outros seguiram o exemplo.

O abandono do serviço é evidente. Além dos problemas técnicos relatados pelo Luiz, o layout não muda há anos e as estatísticas de visitação dos flogões mais populares dão uma pequena dimensão do quão baixo é o alcance obtido hoje.

Tentei conversar com alguns profissionais que estavam no Flogão entre 2007 e 2008, sem sucesso. O máximo que descobri foi uma negociação, posteriormente revertida, que levou o Flogão ao Power.com, uma startup brasileira que tinha por objetivo concentrar diversas redes sociais em uma interface centralizada. O Power.com chegou a aparecer no TechCrunch e fez barulho na época. Um ano depois, em 2009, arranjou briga com o Facebook acerca da portabilidade de dados e, em 2011, fechou as portas. No tempo em que esteve lá, houve uma profunda reformulação no código do Flogão e tentativas fracassadas de expandi-lo.

Desde que voltou a ser independente, o Flogão não viu melhorias em seu sistema ou na oferta de recursos. Entrar no site em 2014 é como voltar ao passado, com a diferença de que no lugar de pessoas existem caminhões adornando os endereços mais badalados.

Da mesma forma que o Flickr passou de um jogo online para uma rede social de fotos e que o Twitter absorveu replies e retuítes, recursos que surgiram organicamente entre os usuários do serviço, o Flogão passou por uma mudança que veio de fora para dentro, um acidente de percurso que talvez seja o único responsável por mantê-lo no ar até hoje.

Com Facebook, WhatsApp e Instagram processando bilhões de fotos diariamente, sobra pouco espaço para redes estagnadas e notoriamente menos dinâmicas, como os fotologs de dez anos atrás. O nicho caminhoneiro criou um ambiente diferente de qualquer coisa na Internet, um lugar fascinante, escondido nas ruínas do que era, há pouco tempo, um lugar bem popular na Internet.

Foto do topo: Pavel P./Flickr.

Câmera do Google: pequenos acertos e o novo Efeito foco

Nessa semana o Google deu mais um passe no desmonte que vem fazendo do Android. Não entenda isso como algo negativo; ao remover apps e funções do sistema e permitir a atualização “por fora”, via Google Play ou Google Play Services, os efeitos negativos da fragmentação da plataforma são mitigados. Desta vez foi a câmera que passou a ser distribuída e atualizável pela loja de apps oficial.

A Câmera do Google funciona em qualquer Android rodando a última versão do sistema (4.4 “KitKat”). O app mantém a pegada minimalista do que acompanha o sistema, mas traz mudanças estéticas, simplificações e um modo de disparo totalmente novo, o Efeito foco, que tenta reproduzir o que a Lytro faz nativamente: brincar com a profundidade de campo após tirar a foto. Voltarei a isso depois.

Interface da câmera mais simples e com boas novidades

A nova interface da Câmera do Google.
Câmera do Google.

A interface foi simplificada e, no geral, ficou melhor. O Google finalmente adequou o viewfinder à proporção da foto. Antes, o usuário via uma imagem em 16:9 mesmo quando a foto saía em 4:3, um detalhe que, aos incautos, prejudicava todo o cuidado com a composição. A saída agora bate com a da foto e o espaço que sobra, à direita, transformou-se em um grande disparador — a foto é feita ao tocar em qualquer ponto daquela área, não só no ícone. No viewfinder, um toque ajusta o foco para a área selecionada.

Alguns controles, como troca de câmera, flash e HDR, ficam ocultos em um pequeno ícone no canto superior direito. E foi uma grande felicidade reparar que agora dá para colocar uma grade 3×3 no viewfinder!

Os modos de disparo ficam ocultos na borda à esquerda, e são trazidos à tona com um deslizar de dedo, mais ou menos como na câmera do Moto X. Toda vez que a câmera é aberta eles aparecem ali antes de sumirem, detalhe importante para evitar que caiam no esquecimento junto a usuários menos ligados. Do outro lado, ficam as últimas fotos feitas.

São os mesmos modos de sempre, mais o novo Efeito foco. Cada botão ganhou uma cor própria e um visual bastante “flat” que se estende por todo o app. O atalho para as configurações gerais fica oculto, só é revelado ao puxar os modos de disparo. É a engrenagem à direita. As opções são bem limitadas, mas valem uma visita para aumentar a resolução de tudo — os modos Efeito foco e Photosphere não vêm configurados na resolução máxima; a do Photosphere, aliás, agora subiu para 50 mega pixels contra 8 da versão antiga.

Efeito foco, ou a Lytro fazendo escola

Começou com a Lytro. Depois, foi a vez da Nokia trazer o recurso para as câmeras PureView atavés do Refocus. A nova leva de Androids, encabeçada por Galaxy S5 e HTC One (M8), também entrou na dança; no caso do modelo da HTC, o UFocus, nome do recurso, se utiliza de uma câmera auxiliar para calcular o espaço tridimensional e refinar os resultados.

Desfocar o fundo de uma fotografia é uma coisa legal e muito procurada. Em alguns grupos de smartphones no Facebook, o efeito bokeh é febre — as pessoas procuram por apps que façam isso e ficam fascinadas com os resultados práticos de uma grande profundidade de campo mesmo quando eles são absurdamente ruins, caso de quase todos esses apps de pós-edição. Agora, qualquer um com o Android 4.4 terá essa opção embutida no app da câmera. Mas é uma opção viável?

Sendo uma câmera específica para esse fim, a Lytro oferece os melhores resultados e tem um mecanismo fechado e otimizado para tanto, composto por conjunto de lentes extras dedicado a capturar mais luz de todas as direções possíveis. No caso da Nokia, a técnica é mais rudimentar, mas alcança resultados bem competentes: o app tira uma sucessão de fotos com diferentes pontos focais ao mesmo tempo em que cria um “mapa de profundidade” da cena, juntando tudo depois em uma imagem que é manipulável no app e externamente — dá para brincar no site oficial e incorporar essas fotos dinâmicas em qualquer página web. Abaixo, uma que fiz com o Lumia 920:

A técnica adotada pelo Google é similar, mas exige um movimento extra para ajudar os algoritmos responsáveis pela mágica do foco posterior. Ao fazer uma foto no Efeito foco, é preciso “levantar” a câmera; um tutorial na tela ensina o que e quando fazer. Além disso, diferentemente da solução da Nokia, na do Google dá para, além de alterar a área focada, mudar a intensidade do desfoque no restante da imagem. A desvantagem é que tudo isso só fica disponível para quem tirou a foto, e no próprio aparelho. Ao compartilhá-la em outro local, ela vai como um JPG comum.

O Efeito foco não é perfeito, mas diverte.
Efeito foco em ação.

Neste post, Carlos Hernández, engenheiro de software do Google, explica em termos mais técnicos como isso funciona:

“O Efeito foco substitui a necessidade de um grande sistema ótico com algoritmos que simulam lentes e abertura grandes. Em vez de capturar uma só imagem, você movimento a câmera para cima a fim de capturar um conjunto completo de quadros. A partir dessas fotos, o Efeito foco usa algoritmos de visão computacional para criar um modelo 3D do mundo, estimando a profundidade (distância) de cada ponto na cena.”

Após tirar uma foto nesse modo, a galeria exibe um botão extra de edição que permite mudar o desfoque simplesmente mexendo em uma barra.

É uma implementação engenhosa, mas nem sempre funcional. Em vários casos o desfoque invade o objeto em primeiro plano e vice-versa, ou então não consegue delinear corretamente o que deve estar em evidência. E tem o problema da resolução, já que a qualidade máxima (e que torna a captura mais lenta) só alcança 2048×1536.

Quebra o galho, mas não faz frente a uma boa câmera com lentes bem abertas, ou mesmo ao trabalho que a Nokia fez com o Refocus. Embora mais limitado, o efeito nas câmeras PureView é, na média, mais natural. Às vezes, dependendo da situação, o Efeito foco da Câmera do Google gera algumas aberrações, como essas cebolinhas:

Um caso em que o Efeito foco não funcionou direito.
Foto: Rodrigo Ghedin

Em condições ideais, porém, dá para alcançar resultados magníficos, como esse da laranja (ambas são a mesma foto, com o foco alterado via software depois do clique):

Laranja desfocada.
Sem foco.
Laranja focada.
Com foco.

É um começo. Com o tempo o algoritmo deve ser aperfeiçoado e os resultados ficarão mais consistentes e chegarão a resoluções maiores. É esperar para ver — e, enquanto isso, se divertir mesmo com as limitações.

Nada de filmar em modo retrato!

A Câmera do Google pede ao usuário para deixar o smartphone em modo paisagem na hora de filmar.
Vire o celular!

Lembra do meu apelo para não filmarmos em modo retrato? A nova Câmera do Google engrossa o coro.

Quando no modo de vídeo com o celular em pé, um ícone na tela recomenda ao usuário que ele incline o dispositivo. É um ícone animado pouco descritivo, e não será surpresa se muita gente ficar coçando a cabeça tentando entender do que se trata ao se deparar com ele, mas é um toque legal, gentil (ele não te proíbe de filmar assim, como o YouTube Camera do iOS) e talvez capaz de conscientizar alguns que ainda insistem em filmar na vertical.

Câmera do Google, mais uma (boa) opção

No geral, quem usa o Android padrão (Nexus) tem bons motivos para atualizar a câmera para essa nova. Proprietários de outros modelos já no Android 4.4, como Moto X, Moto G, Galaxy S4 e Galaxy S5, não perdem nada testando, embora o apelo seja menor nesses casos — Motorola e Samsung se dedicam a criar apps de câmera poderosos ou mais acessíveis.

De qualquer modo, não custa nada experimentar. Às vezes é na simplicidade de um app como o Câmera do Google que mora o conforto ou, no caso, a melhor interface para se fazer fotos memoráveis.

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