Por que os desenvolvedores de apps não podem ignorar smartphones simples, como o Galaxy Y

Galaxy Y.
Foto: Samsung/Reprodução.

A maior virtude do Android é, ao mesmo tempo, a sua sina. O sistema móvel do Google, o mais popular do planeta, ao contrário do principal concorrente roda em uma variedade enorme de dispositivos, com telas, configurações e padrões de qualidade díspares. E nessa, é inevitável: modelos mais simples costumam ter um desempenho sofrível, demoram para cumprir as tarefas mais triviais e, não raro, são relegados a segundo plano pelos desenvolvedores. São fatores que para o usuário se traduzem em frustração.

Um dos smartphones mais emblemáticos dessa segunda classe de aparelhos Android é o Galaxy Y, da Samsung, também conhecido como Galaxy Young em alguns países. Na realidade, trata-se de uma família de smartphones. Seus membros são reconhecidos, por usuários e gente da indústria, como fracos, e contra isso é difícil argumentar. As variações são tímidas e mesmo versões mais recentes, como o Galaxy Young Duos, lançado aqui no final do ano passado mantêm a tradição e seguem com especificações abaixo das necessárias para oferecer uma experiência de uso decente.

Em tempo: no final do ano passado fiz um comparativo de smartphones até R$ 500, faixa onde o Galaxy Young Duos se encaixa. Na época, não consegui uma unidade desse modelo para inclui-lo, mas dada a similaridade dos quatro que entraram na disputa, é seguro dizer que o aparelho da Samsung não iria muito mais longe do que esses.

O Galaxy Y original, de 2011, apresenta configurações que já naquela época fariam qualquer um torcer o nariz. Seu SoC conta com uma CPU de 826 MHz, o que, para os padrões da época, não era algo exatamente horrível. O que pesa mesmo é a quantidade limitada de RAM, apenas 290 MB, e o espaço interno ínfimo, de apenas 180 MB. Ficar estagnado no Android 2.3 também não contribuiu positivamente.

Se há pouco mais de dois anos o Galaxy Y já era questionável, para os padrões atuais a única característica que ainda justifica o seu relativo sucesso é a que sempre lhe foi a mais tentadora: o preço. Ainda à venda nas principais lojas brasileiras, é fácil encontrá-lo por menos de R$ 300. O duelo de titãs aqui se dá contra o L1 II, da LG, um Android mais moderno e superior, e o simpático Asha 501, da Nokia, que roda um sistema próprio que carece de apps e sofre para rodar os poucos que tem.

As limitações da falta de memória do Galaxy Y

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Galaxy Y, o terror dos comentários no Google Play.
Comentários de donos de Galaxy Y no Google Play.

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Na última atualização do Android, a versão 4.4, o Google concentrou esforços em tornar o sistema mais fluído em sistemas com pouca RAM, com 512 MB. Seria preciso um milagre para melhorá-lo com pouco mais da metade disso, caso do Galaxy Y.

A RAM é um tipo de memória temporária que sistema e apps usam para funcionarem. Eles carregam dados nessa memória, mais rápida que a secundária (a “memória interna”, ou do cartão SD), que são processados e exibidos na tela. Mais RAM significa uma multitarefa melhor; RAM insuficiente, como a do Galaxy Y, é a certeza de que rodar um app que seja é um esforço descomunal para o aparelho, especialmente apps gastões, como o oficial do Facebook. Rodar o Android 2.3, uma versão antiga e carente de muitas otimizações posteriores, contribui para a piora do cenário.

A outra memória, a interna/secundária, também é uma pedra no sapato dos donos de Galaxy Y. São 180 MB para instalar apps e, caso não se tenha um cartão SD espetado no aparelho, dividir com músicas e fotos. A mensagem de espaço insuficiente é constante e irritante, para dizer o mínimo.

No Google Play, comentários raivosos costumam vir de usuários insatisfeitos com o desempenho dos apps em seus aparelhos — e, não raramente, esses são Galaxy Y ou algum outro modelo de entrada. As situações, ora dramáticas, ora cômicas, estampam uma verdade difícil de negar: desenvolver para Android dá mais trabalho.

É preciso considerar uma ampla gama de configurações, versões do sistema e resoluções de tela em uso. Olhando assim parecem poucos fatores, mas as combinações resultam em um número imenso de possibilidades. Quanto, exatamente? No começo de 2012, a Animoca, uma empresa de Hong Kong, disse que testava seus apps em 400 aparelhos diferentes! Quem não se pode dar a esse luxo recorre a serviços que testam apps em vários dispositivos, como o AppThwack. Parece mais prático, mas continua longe de ser fácil.

Isso é desenvolver para Android.
Foto: Animoca.

Como ignorar um grande filão?

E se os desenvolvedores ignorassem o Galaxy Y e outros? E se eles focassem apenas nos smartphones mais poderosos, com configurações mais uniformes, boas e parelhas?

É um risco,  e um que poucos decidem correr. O Android tem volume, e essa a grande força da plataforma. Por englobar todo tipo de usuário, ser o mais usado não é garantia de lucratividade. O iOS, mesmo com uma base bem menor, concentra o grosso do que os desenvolvedores lucram. Para compensar esse desnivelamento e não deixar uma parte enorme dos usuários inexplorada, a saída é atirar para todos os lados — ou para todos os dispositivos.

A história recente mostra, ainda, que focar em smartphones Android high-end pode não ser uma boa. O Facebook Home saiu compatível com meia dúzia de modelos. Talvez por ser ruim, talvez por esse alcance restrito, definhou e poucas semanas depois de lançado já não se ouvia falar muito dele.

Otimização para telas pequenas no novo Instagram.
Imagem: The Verge.

Aprendida a lição, na última atualização do Instagram para Android o Facebook focou no mercado global (leia-se fora dos EUA), que responde por 60% dos usuários do serviço, muitos deles usando aparelhos bem simples. O tamanho do app encolheu pela metade, ele carrega perfis com o dobro da velocidade e seu design foi otimizado para telas pequenas — como a do Galaxy Y, citando nominalmente por Philip McAllister, gerente de engenharia do Instagram, à reportagem do The Verge.

O apelo do Instagram é tão grande que deixá-lo de fora de aparelhos mais simples é ruim para todos — Facebook, fabricante e os proprietários. As limitações atrapalham muito, mas mesmo sem contorná-las diversas empresas se arriscam com versões capadas, ou que não funcionam direito. Também no Galaxy Y, o Snapchat funciona, mas não lida muito bem (ou de modo algum) com vídeo.

Um outro exemplo de atenção à parte de baixo da tabela é o WhatsApp. Dos 450 milhões de usuários, muitos estão em países subdesenvolvidos carregando celulares baratos no bolso. Os fundadores do serviço fazem questão de, eles próprios, andarem por aí com aparelhos da Nokia rodando Symbian. Abraçar várias plataformas, mesmo as que não são usadas nos EUA e que equipam celulares simples, é apontado como um dos fatores que levaram o app ao sucesso e, consequentemente, à venda de US$ 19 bilhões ao Facebook.

O que se nota em comum em todos esses casos é a importância que a base da pirâmide teve na consolidação dos serviços. Instagram e WhatsApp, mesmo vindo de direções opostas (o primeiro, exclusivo para iPhone; o segundo, rodando até em S40, um dos sistemas mais simples da Nokia), se esforçam para não fazerem distinção entre seus usuários e para garantir que a experiência seja satisfatória estejam eles usando um iPhone 5s ou um Galaxy Y.

Não é uma abordagem simples ou barata, mas é uma digna de reconhecimento enquanto não chegamos a um patamar mínimo de qualidade e especificações em smartphones.

[Review] G Pad 8.3, o bom retorno da LG aos tablets

Por um bom tempo tablets Android viveram à sombra do iPad. Diferentemente do que acontece nos smartphones, onde o sistema do Google evoluiu melhor e hoje rivaliza em qualidade com o iOS, nos tablets a competição sempre foi mais complicada. Tanto que após algumas tentativas, fabricantes como a LG pararam a fabricação de tablets por um tempo.

O G Pad 8.3 marcou o retorno da sul coreana ao segmento de tablets pouco mais de um ano após ela anunciar que “daria um tempo” no segmento. Com tamanho intermediário, boas especificações e as profundas modificações que a LG costuma empregar no Android, o que esperar dele? Trata-se, afinal, de um retorno triunfal, ou apenas um tímido, quase dispensável? É o que descobriremos agora. Continue lendo “[Review] G Pad 8.3, o bom retorno da LG aos tablets”

Qual a graça do Snapchat?

Quando o assunto “Snapchat” surge, é comum as pessoas me perguntarem qual a graça daquilo. A ideia de fotos que somem alguns segundos depois de abertas desafia a noção de eternidade que redes sociais e a Internet, de modo geral, apregoa desde o seu surgimento e coloca em xeque o trabalho gasto para algo tão efêmero. Qual o sentido disso?

Talvez o único caso de uso do Snapchat que todos compreendem (e no qual, quase sempre, limitam o app) é a troca de fotos íntimas. E é fácil adequá-lo à situação: casos de fotos e vídeos vazados recentemente, alguns com consequências drásticas justificam a existência de imagens que evaporam em poucos segundos.

Esse extremo evidencia o grande barato do Snapchat, mas nem de longe é a sua única utilidade. Ao tirar o peso do legado, ele e seus pares calcados na efemeridade e/ou no semi-anonimato eliminam as amarras sociais, dão muita margem à criatividade e criam um ambiente que nem Facebook, nem Twitter são capazes de replicar.

Longe dos parentes, com mais liberdade

O Twitter talvez seja uma espécie de meio termo entre Facebook (exposição máxima) e o Snapchat (privacidade e controle). Uma rede social marginal, ele consegue atrair mentes criativas e personalidades que gostam de se expôr, mas não tem apelo entre gente mais… “tradicional”. Nessa definição inclua aquela tia que faz comentários constrangedores nas suas fotos do Facebook, ou aquele amigo que nem liga muito para tudo isso, mas que entrou por pressão dos outros e acabou gostando de ver fotos e atualizações dos amigos naquela página/app azul e branco.

Para esses, o Twitter é questionável na mesma medida em que o Snapchat o é para um grupo maior. Qual a graça de ficar mandando mensagens de 140 caracteres para gente que você nem conhece direito e que, na maioria dos casos, não responde?

Mascote do Snapchat.
Desenho: Snapchat/Reprodução.

No Snapchat você cria uma lista de amigos e escolhe, na hora de mandar uma foto, quem a receberá. O tempo de exibição da foto é controlável também, vai de um a dez segundos. Caso alguém faça um print screen da foto durante o tempo de exibição, o app denuncia.

É uma lógica simples, mas bem arquitetada e instigante. Em um dos meus grupos de amigos o Snapchat é muito usado. Piadas internas (algumas maldosas!), amenidades do dia a dia, eventos sociais, coisas que gerariam desconforto com pessoas distintas em locais mais tradicionais, ganham espaço ali. É algo mais íntimo que o Facebook e que não deixa rastros, não fica impregnado na sua persona digital para todo o sempre. O que à primeira vista não faz sentido (“por que tirar fotos que somem segundos depois?”) é, na realidade, o trunfo da experiência.

Snapchat contra o legado

Eu de modelo para a Toia no Snapchat.
Desenhos: Toia/Cavalo de Toia.

Junto a vestir-se bem e preparar um currículo enxuto, os especialistas em recursos humanos incorporaram há alguns anos uma nova dica que aparece em todas as listas delas para quem está em busca de um emprego: cuidado com o que você publica nas redes sociais.

Histórias de gente que perdeu uma vaga por causa das fotos da festa que não ficaram tão ótimas assim não são raras, e é bem possível que nesse carnaval você tenha se deparado com algum amigo fazendo aquela brincadeira de virar um copo de cerveja e passar o “desafio” para outros amigos.

É uma brincadeira bem boba, mas que no calor do momento, com um pouco de álcool afetando o discernimento pode parecer divertida. Só que passada a ressaca você abre o Facebook, vê os comentários, as curtidas… aquele pensamento “o que foi que eu fiz?” pode bater mais forte que os 500 ml de álcool ingeridos de uma vez.

Nesse momento “eureka” você se dá conta da existência da sua sombra eletrônica, sempre ali, sempre ignorada. Como explica Sherry Turkle em Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other:

Peter Pan, que não podia ver sua sombra, era o menino que nunca cresceu. Muitos de nós somos como ele. Com o tempo (e digo isso com ansiedade), viver com uma sombra eletrônica se torna tão natural que ela parece desaparecer — isso, até um momento de crise: um processo judicial, um escândalo, uma investigação. Então, quando somos pegos, caímos na real e nos damos conta de que fomos instrumentos da nossa própria vigilância.

Ela ainda diz que, embora os adolescentes sejam os que mais sofram, todos, eles e adultos, vivemos a fantasia da privacidade online. Trocamos informações confidenciais via WhatsApp e e-mail, mesmo sabendo que ambos estão longe de serem canais seguros para tal. Em outro ponto, Turkle comenta:

Alguns dizem que esse problema não é um problema; eles apontam que privacidade é uma ideia historicamente nova. É verdade. Mas embora historicamente nova, a privacidade tem servido bem às noções modernas de intimidade e democracia. Sem privacidade, as fronteiras da intimidade se perdem. E, claro, quando toda informação é coletada, todos podem se transformar em informantes.

Ainda se vê muitas publicações inconsequentes por aí, mas muitos de nós já tomamos mais cuidado com o que publicar. Antes de mandar um comentário raivoso, uma foto constrangedora ou um link polêmico, pesamos as consequências. Quem provavelmente curtirá isso, quais comentários contrários virão, quem talvez se sinta magoado, ultrajado ou apenas incomodado. Às vezes desistimos, e esse comportamento se tornou tão frequente que o Facebook já o analisa para entendê-lo e combatê-lo, a fim de que nos sintamos mais confortáveis em expôr ideias e opiniões, todas elas, por mais controversas ou perigosas que sejam.

A mecânica do Snapchat reduz muito essa análise prévia do que será publicado. A foto some em poucos segundos, tenho o controle rigoroso de quem a verá, os riscos de magoar alguém ou ver aquele conteúdo se voltar contra si mesmo são menores. É essa premissa que levou o Facebook a lançar o Instagram Direct e a comprar o WhatsApp, o Twitter a dar atenção às mensagens diretas após anos de negligência e ao surgimento de apps calcados no anonimato, como Wut, Secret e Whisper. Nós gostamos de privacidade, por mais que tentem lhe fazer pensar o contrário.

Mas e o print screen?

O Snapchat avisa quando alguém tira um print da tela.
Alerta de screenshot.

E se alguém faz um print screen da foto enviada via Snapchat? O app avisa, claro. Mas espere: e aqueles apps e hacks que permitem salvar imagens sem que o remetente fique sabendo? É um problema, vide os vários Tumblrs com fotos de mulheres nuas ao alcance de uma busca no Google.

Acidental ou não, encaro o aviso de print screen como um toque genial de alerta dentro do Snapchat. Apesar de toda a liberdade que as circunstâncias promovem, a possibilidade de eternizar aquela foto funciona como um lembrete, quase inconsciente, de que nem tudo se permite ali. Ou que, ao se permitir tudo, existem consequências como parar em locais indesejados, permanentes na Internet.

Não é o print screen em si que exerce essa função de alerta, mas a sua mera existência. Saber que alguém pode salvar uma foto mais íntima, ou mais pesada, dá a medida de precaução e cria reservas na hora do compartilhamento. Afinal, tem coisa que você não comenta com ninguém, nem com seu melhor amigo.

A reputação digital pesa menos no Snapchat

Patrícia Pinheiro, no Brasil Post, fez um breve comentário sobre reputação digital. Segundo ela, o que é publicado na Internet nunca some, é sempre lembrado e associado ao autor, e esse é o preço que se paga para fazer parte disso:

Para Manuel Castells, aquele que decide se conectar aceita, mesmo que tacitamente, o resultado da ‘socialização dos seus dados’, ou melhor, a perda do controle das suas próprias informações.

Portanto, há um preço a pagar para se sentir inserido no mundo digital, para participar de mídias sociais, para ter o direito de usar uma imensidão de aplicativos viciantes que são oferecidos gratuitamente em um esquema muito bem elaborado que troca superficialidades e banalidades por dados da intimidade, vida e rotina das pessoas que aceitam participar.

Depois de escolher entrar pela porta dessa internet colaborativa que promete mais transparência, será que tem volta? Ou melhor, será que temos escolha? Hoje a maior parte dos termos de uso destes serviços deixa muito claro que por mais que a pessoa deixe ser usuário, o que ela compartilhou por ali fica lá e na galáxia da internet para sempre.

Sherry Turkle também comenta algo nesse sentido:

(…) [Na Internet] as palavras “deletar” e “apagar” são metafóricas: arquivos, fotos, e-mails e históricos de pesquisas são removidos apenas do nosso campo de visão. A Internet nunca esquece.

O Snapchat caminha na direção oposta à dessa ideia. No Facebook, saber todos os detalhes da vida do usuário é essencial para o modelo de negócios e para o seu funcionamento. É nas associações e no conhecimento de quem usa o serviço que o Grafo Social se constrói e as facilidades e oportunidades da rede decorrem. O efeito colateral, como já debatido, é um punhado de cicatrizes digitais, registros permanentes da sua vida — para o bem e para o mal. Mesmo sem modelo de negócios, a efemeridade é o que destaca o Snapchat e é algo que, é seguro dizer, não deve sumir, diferentemente das fotos veiculadas por lá.

Se chegar a compartilhar aquele vídeo virando um copo de cerveja no Snapchat, será apenas com amigos mais próximos. E você ainda poderá excluir os não tão próximos; a lista de amigos nunca está preenchida, é preciso escolher quem receberá cada foto enviada para o serviço. Talvez um dos destinatários se torne um grande líder e, lá na frente, possa estar na posição de avaliá-lo para uma vaga de emprego, mas a proximidade entre vocês talvez anule esse e outros deslizes. Se você manda essas fotos para ele, é bem provável que esse hipotético futuro chefe também tenha mandado alguma bobagem. O que acontece no Spapchat, em geral fica no Snapchat.

A internet, ainda em sua juventude, está sendo moldada. Até pouco tempo atrás, ela era encarada como terra de ninguém, um lugar sem lei onde vale tudo. Não mais. Outra noção tão forte quanto, a de que tudo o que acontece aqui fica registrado para a eternidade, que a palavra convertida em bits e lançada na rede jamais se apaga, começa a ruir. O Snapchat é a marreta que derruba essa noção e importa por isso. Você pode até achá-lo uma bobagem depois de todo esse discurso, ou seus criadores malucos por terem dado de ombros a US$ 3 bilhões, mas não duvide de que ele impactará, direta ou indiretamente, muita coisa, inclusive a nossa concepção de presença na Internet.

Foto do topo: Agnes Owusu/Flickr.

Capa do livro Alone Together.

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Não um puro remake, o novo RoboCop é moderno e humano

O novo RoboCop.
Foto: Sony Pictures/Reprodução.

Daquelas memórias da infância que permanecem vívidas não importa quantos anos se passem, uma das minhas é a do dia em que o vídeo cassete chegou em casa. Ou melhor, do dia em que fomos buscá-lo na loja. Na volta, eu e meu pai passamos em uma locadora para pegar o primeiro filme a ser visto sob demanda, na hora em que quiséssemos, sem intervalos comerciais.

A minha escolha foi RoboCop 2. Em meados da década de 1990 eu estava longe dos 18 anos mínimos de existência recomendados para ver o filme, mas quem se importava, certo? Esse descaso com a classificação etária até combinava, de uma maneira meio torta, com o universo fictício do filme, uma terra de ninguém um tanto ingênua.

Dos filmes em si, restou pouca coisa na minha cabeça. Apenas uns flashes e cenas mais marcantes não se foram com o tempo, como a remoção da máscara de Murphy e o ED-209 do primeiro, a droga que assolava Detroit na sequência e o traje de voo na conclusão da trilogia. As circunstâncias, que incluem o aluguel da fita e o fascínio que tinha pelo policial robótico, essas sim nunca desapareceram. Tinha RoboCop comigo, até pouco tempo atrás, como um filme muito legal.

Quando anunciaram o remake da franquia sob a direção de José Padilha, o interesse pela história de Alex Murphy voltou. Faltando uma semana para a estreia no Brasil do novo RoboCop, voltei no tempo e revi, com seguramente mais de uma década de intervalo desde a última sessão, os dois primeiros filmes da trilogia clássica, de 1987 e 1990. Para que você se situe sobre o que esperar dessa crítica, antecipo: não gosto do RoboCop de Paul Verhoeven e menos ainda de RoboCop 2.

Em 1987, Verhoeven fez um filme com as suas assinaturas: programas de TV sensacionalistas apresentavam o estado caótico de Detroit, propagandas fictícias tiravam sarro do consumismo exacerbado da sociedade americana e a censura de 18 anos dava margem para mutilações e cenas gore que beiravam o caricato. A tecnologia, real e cinematográfica, dataram o filme de maneira ostensiva, ainda que haja muito de técnica ali merecedora de reconhecimento até hoje, como o stop motion, usado nas cenas do ED-209, compensando a falta de computação gráfica. Apesar de pouco ambicioso, pelo que li e ouvi o primeiro RoboCop foi um filme marcante por apresentar um futuro distópico fantasioso e excitante.

Em 2014, RoboCop deixa de ser um sci-fi puro. Como alguém já disse, o emprego da robótica passou, em menos de 30 anos, de um descompromissado “e se…” para algo inevitável a médio ou mesmo curto prazo. Drones já patrulham os céus, câmeras de vigilância registram a vida nas grandes cidades. Neste remake, Padilha atualizou a história, mudou o tom e conseguiu fazer, se não um filmaço, pelo menos um bem diferente (e melhor!) que aquele que o inspirou.

Um mocinho, vários vilões

É fácil falar de um remake contrapondo-o seguidamente ao filme que lhe deu origem. Note que fiz isso um bocado, mas até por respeito ao novo diminuirei as comparações daqui em diante. Não é preciso recorrer a esse subterfúgio para comentá-lo.

O grande acerto do novo filme, aliás, é não se comparar com o clássico de 1987, não tentar replicar o tom escrachado, muito menos manter vivas algumas convenções talvez tidas como sagradas por fãs mais comprometidos. É um filme realmente novo, que apenas se aproveita das linhas gerais daquela história de um policial destruído que renasce como um ciborgue — e de algumas leves e bem encaixadas referências .

A gênese desse RoboCop é fruto de uma mistura de lobby político, pressão da mídia (personificada por um Samuel L. Jackson que mais uma vez interpreta a si mesmo) e capitalismo em estado puro. Um plot mais complexo, bastante atual. Como tudo que é “bastante atual”, um que corre o risco de ficar datado, mas que por ora cumpre bem a função de justificar o retrocesso que é colocar um ser humano, ou o que restou dele, dentro de um robô. Talvez isso salve o filme de ficar preso a 2014.

No futuro de RoboCop, robôs que garantem a paz em locais conturbados são realidade. Eles estão no mundo inteiro e logo de cara são apresentados ao espectador em uma transmissão ao vivo direto de Teerã. Lá, os robôs grandalhões ED-209, os humanóides EM-208 e drones XT-908 fazem uma varredura nas ruas em busca de suspeitos. Eles funcionam bem, são casos de sucesso no exterior. (Para vê-los em detalhes, faça uma visita ao site bacana da OmniCorp.) Por que estão em todo lugar, menos nos EUA? É o que questiona o personagem de Jackson.

Os EUA não permitem a presença de robôs nas ruas e esse impedimento é como entulho entupindo um cano de onde pode jorrar muito dinheiro do governo americano para a OmniCorp, a multinacional que os fabricam. A saída encontrada para forçar sua entrada nesse mercado, reverter a opinião pública e mudar a legislação é dar a um robô a coisa mais humana que existe: uma consciência.

Murphy descobre que virou o RoboCop.
Foto: Sony Pictures/Reprodução.

Alex Murphy (Joel Kinnaman) mais uma vez está no lugar errado e na hora errada. Com o aval da esposa, Clara (Abbie Cornish), após quase morrer em um atentado ele se destaca na busca da OmniCorp pelo candidato perfeito para ser o RoboCop. Não o mais forte, nem o mais esperto, mas o mais equilibrado. Num ritmo tranquilo e compassado, a sua robotização, bem como os entraves que a consciência humana impõem a uma máquina de guerra e a difícil adaptação a essa nova vida dentro de uma armadura se desenvolvem bem.

Os dilemas morais da relação homem-máquina são explorados no relacionamento entre Murphy e sua família e no controle que a OmniCorp exerce sobre a (mais da) metade máquina do policial. Quando o fator humanidade atrapalha o desempenho das suas funções, Dr. Norton (Gary Oldman) e sua equipe fazem uns tweaks no cérebro dele para otimizar esse aspecto. Em último caso, o RoboCop pode ser desligado.

O filme é, antes de tudo, uma queda de braço entre a máquina e o homem, entre Murphy e a OmniCorp, e leva esse duelo ora sutil, ora escancarado até o ápice da história. Em segundo plano, questiona a terceirização da ordem para máquinas, o que poderia ser uma prequência de Matrix ou a base para discussões maiores. Essa subtrama, embora passe como um detalhe nesse filme, tem muito potencial. Sequências no horizonte? Espero que sim.

Um RoboCop moderno

RoboCop ainda com o traje prata.
Foto: Sony Pictures/Reprodução.

O RoboCop de 2014 é ágil: ele corre, pula, é bem flexível. Ele também carrega armas não letais, e embora isso pareça uma saída fácil para manter a classificação etária baixa (no Brasil, 14 anos), é uma abordagem que casa melhor com a ideia moderna de policiamento, de reagir na medida da ameaça apresentada. Não é nada próximo do sádico RoboCop de Verhoeven que atirava nos testículos alheios.

A inteligência artificial embarcada em Murphy atua paralelamente à sua consciência. Ela mapeia ambientes e elabora estratégias tão rápido quanto as executa. Murphy sempre sabe no que está se metendo e é interessante notar que em alguns momentos o seu lado humano se sobrepõe ao perigo e ele se lança em batalhas que reconhece perigosas, até mortais.

A conectividade está em alta, como estaria em uma versão real do RoboCop. Além do controle rigoroso que a OmniCorp exerce sobre a sua propriedade, Murphy tem na cabeça todos os bancos de dados gigantescos da polícia, acessa câmeras de vigilância em tempo real, é capaz de fazer associações e cruzar dados para solucionar crimes e localizar suspeitos.

Diferentemente do engessado RoboCop interpretado por Peter Weller no final da década de 1980, o novo é crível. O que se vê na tela, especialmente na desconfortável cena em que Murphy pós-Robocop é mostrado sem o maquinário que lhe transforma no policial do futuro, pode até ser questionado, mas dentro das premissas lançadas pelo roteiro, que se passa em 2028, as coisas se encaixam de maneira convincente. Sua inserção na sociedade também é mais viva. Se em 1987 ele parece uma entidade meio desconectada da polícia e da OCP, e ignorada pelo público, em 2014 ele é explorado pela propaganda do governo e da OmniCorp e é adorado pelos civis.

Esse RoboCop não é invencível. Logo no começo, Mattox (Jackie Earle Haley) deixa claro que sua carcaça não é páreo para munição calibre .50. Ainda assim, vemos um policial com capacidades sobre humanas, que ninguém consegue parar, munido com um senso de justiça que coloca em xeque o status quo e não faz distinção entre quem anda fora da linha. Ele é incorruptível, admirável. É fácil vibrar com um cara tão legal.

O crime tem um novo inimigo; o cinema, um ótimo filme

Murphy e Clara.
Foto: Sony Pictures/Reprodução.

O elenco de RoboCop é recheado de caras conhecidas e de atuações bacanas, especialmente Michael Keaton como Sellars, uma espécie de Steve Jobs em um universo alternativo, no comando da OmniCorp. A produção é bacana e se o futuro de 2028 tiver aquelas interfaces e dispositivos maneiros, será um ano interessante para se viver. Eles são um show à parte.

O novo RoboCop não compartilha muito com a trilogia original. Até a música-tema, indefectível, é tocada uma ou duas vezes, e se destaca quando o título do longa surge na tela — ou seja, mais como uma homenagem/referência. Não foi preciso recorrer ao passado para se fazer um filme legal.

Com cenas de ação muito bem feitas, e sem deixar de lado questões mais urgentes (e complexas), eu pagaria bem mais que um dólar pelo RoboCop de 2014.

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